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Temporada de visitação

CB, Brasil, p. 11
13 de set de 2006

Temporada de visitação
Baleias deixam os mares árticos nesta época do ano em busca de águas quentes para o acasalamento. Na costa brasileira, mamíferos enfrentam ameaças que põem em risco a sobrevivência da espécie

Ullisses Campbell

As baleias que freqüentam a costa brasileira nesta época do ano já começaram a dar o ar da graça. O primeiro grupo de jubarte chega pela costa do Recife e em Abrolhos, na Bahia, lugares preferidos da espécie. No litoral de Santa Catarina, as primeiras baleias francas também já foram vistas por pescadores em alto mar. A previsão é de que mais de 2 mil animais visitem a costa brasileira nos próximos meses. Consideradas os maiores mamíferos do planeta, as baleias ficarão no Brasil até novembro. Elas vêm em fuga dos mares árticos, que congelam nesta época do ano. Nas águas quentes do Brasil, encontram o ambiente perfeito para acasalar e procriar.
Mas a visita também pode terminar em transtorno ou tragédia.
Na última semana, um filhote de baleia, com 5m de comprimento, encalhou na praia do Bairro Novo, em Olinda (PE). Ela só conseguiu retornar para alto-mar com a ajuda de bombeiros e de moradores da região. A operação de resgate foi feita com a ajuda de um bote inflável. Em São Paulo, outro filhote não resistiu ao encalhe e morreu na praia da Enseada, em São Francisco do Sul.
A cada ano que passa, as baleias franca e jubarte chegam ao Brasil mais ameaçadas. Na Bahia, a possibilidade da instalação de reservatórios de criação de camarão (carcinicultura) está pondo em risco os mangues e, em conseqüência, toda a cadeia alimentar da qual faz parte a jubarte. Os criadores reclamam que o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) é muito rigoroso na liberação de licença e tentam facilitar essa permissão na Justiça. "Estamos preocupados com a possibilidade de instalação de novas empresas de criação de camarão. Elas despejam dejetos químicos nos mangues e não se sabe o impacto ambiental disso", ressalta Eduardo Camargo, coordenador do Instituto Baleia Jubarte.
Em Santa Catarina, a ameaça às baleias franca são naturais. A espécie vem sendo atacada por gaivotas no momento em que vão à superfície para respirar. Desde sempre, as aves pousam nas costas das francas para se alimentarem das crostas semelhantes a verrugas, que são peculiares à espécie. Enquanto as gaivotas comiam apenas a crosta, as baleias não se incomodavam. Acontece que agora as aves, que são consideradas pragas em alto mar, estão perfurando a pele grossa das baleias para comer a gordura subcutânea. Os biólogos do Projeto Baleia Franca já identificaram mais de 10 baleias com ferimentos na parte lombar. "Na costa da Argentina, as gaivotas são mais agressivas e chegam a causar ferimentos graves nas baleias. O pior é que as francas seguem para lá depois de passar pelo Brasil", ressalta Carina Groch, coordenadora do Projeto Baleia Franca.
Moratória
No entanto, não é na costa da América do Sul que estão as maiores ameaças às baleias. Apesar de a caça comercial ser proibida em todo o mundo desde 1986, a matança não cessou. Os japoneses conseguiram uma permissão especial para caçá-las em nome da ciência. Além disso, o Japão está tentando convencer um grupo de países, do qual fazem parte até os Estados Unidos, a acabar com a moratória que protege esses animais gigantes. Este ano, os caçadores obtiveram uma vitória na Comissão Baleeira Internacional (CBI), o colegiado de 70 países que delibera sobre temas que envolvem a preservação das baleias. A CBI aprovou uma resolução que declara desnecessária a manutenção da moratória e advertiu que a atual quantidade de baleias ameaça o estoque de peixes em algumas regiões. A notícia irritou os ambientalistas.
Na verdade, o Japão sempre se opôs à moratória. A proibição causa prejuízo à frota de baleeiros e tira do cardápio um prato tradicional da culinária nipônica. A estimativa é que cerca de 1 mil baleias sejam mortas em litoral japonês, por ano, com fins científicos. Como as baleias precisam ser mortas para ter o fígado e outros órgãos estudados, os japoneses aproveitam as sobras do animal que iriam para o lixo e abastecem restaurantes e supermercados. "O curioso é que a tradição oriental de comer baleia está decadente, pois os jovens não mantiveram esse hábito. Mas os japoneses tradicionais ainda comem, e a matança continua", ressalta José Truda, um dos representantes do Brasil na CIB.
Atualmente, dois países matam livremente baleias: a Noruega e a Islândia. Para mudar a convenção internacional que proíbe a caça, o Japão precisa obter o apoio de 53 países membros da CIB. Na última reunião, obteve só 33 votos, mas os diplomatas japoneses acreditam que a nova resolução abriu o caminho para negociar o voto de outros países e pôr fim à moratória da caça comercial de baleias. No ano que vem haverá mais uma rodada de votação.

Uma atração para turistas

Tanto na Bahia quanto em Santa Catarina, a chegada das baleias alimenta o turismo de observação. Duas organizações não-governamentais organizam grupos de pessoas que saem de barco pela praia para olhar de perto esses animais gigantes.
O maior movimento ocorre na costa da Bahia. As baleias jubarte (Megaptera novaeangliae) passeiam por todo o litoral e se reúnem em Caravelas, no extremo sul, e na praia do Forte, no norte. Por conta do risco de extinção, o Instituto Baleia Jubarte (IBJ), responsável pela proteção da espécie no Brasil há 17 anos, faz um monitoramento dos animais por meio de radares.
Segundo a bióloga Márcia Engel, diretora do Instituto Baleia Jubarte, já houve épocas em que cerca de 6 mil baleias migravam para o litoral brasileiro, do Rio Grande do Norte a São Paulo. Em 2005, os pesquisadores avistaram 990 animais, sendo 119 filhotes.
Foram realizadas 463 identificações por meio de fotografias só na costa baiana.
A foto é feita por meio de desenhos na cauda das jubarte e é a principal ferramenta de pesquisa da espécie. "As fotos servem como carteira de identidade das baleias, pois os desenhos, tal qual impressões digitais, nunca se repetem de um indivíduo para o outro", explica a bióloga. O catálogo do Instituto Baleia Jubarte é um dos maiores do Hemisfério Sul, com cerca de 2 mil baleias identificadas.

CB, 13/09/2006, Brasil, p. 11

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