OESP, Especial, p. X11
Autor: GOLDEMBERG, José
01 de Set de 2010
Temos terra para tudo
Para Goldemberg, é possível produzir biocombustíveis e alimentos e ainda preservar as florestas
Herton Escobar e Sergio Pompeu
Físico, ex-ministro e secretário paulista do Meio Ambiente, José Goldemberg, de 72 anos, é um defensor convicto dos biocombustíveis e da proteção e recuperação de florestas, uma combinação que muitos consideram inviável. Nesta entrevista, ele diz que o Brasil tem espaço e condições de investir nas duas áreas, sem prejuízo do agronegócio.
Existe de fato dicotomia entre produção de alimentos e biocombustíveis, como o etanol?
A ideia é completamente incorreta. No mundo, nos últimos 40 anos, 80% do aumento da produção no campo está ligado ao aumento da produtividade e 20% à ampliação de área. A área usada para produção no mundo é de 1,5 bilhão de hectares. Disto, só 10 milhões vão para biocombustíveis.
Qual a participação do Brasil nisto?
A metade. O resto é nos Estados Unidos e um pouco na Ásia. A área usada para a produção agrícola pode crescer, segundo estimativas da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), até 4 bilhões de hectares, mas isso envolveria, sobretudo, a África, onde a Revolução Verde não chegou: a produtividade por hectare é um terço da dos EUA ou do Brasil. Um argumento que cria essas dúvidas que o pessoal levanta é a visão ideológica. Porque a produção que se beneficia com a Revolução Verde, com fertilizantes, maquinário, não combina com pequenas propriedades. Vejo, por exemplo, no argumento do Aldo Rebelo no debate sobre a mudança do Código Florestal uma preocupação com a parte humanitária, louvável até, mas não é a direção em que o mundo caminha.
O modelo é de produção em grande escala.
Sim. O consultor da ONU para a Fome, Jean Ziegler, é um dos indivíduos que argumentaram que o biodiesel é ruim, encorajava o latifúndio. É argumento para discussão política. Li um livro que argumenta que nunca faltou alimento no mundo, mas acesso. Fala da Irlanda, onde um terço da população morreu de fome no século 19. A dieta irlandesa era baseada em batata e um fungo acabou com as plantações. O autor diz que a fome da Irlanda se deu pela incompetência do governo e dos ingleses, que não ajudaram em nada. O problema é sempre de distribuição e acesso, não de falta física.
Nossa população está crescendo e o Brasil quer ser um grande exportador global de alimentos. Para isso, mesmo com a produtividade já alta, a área inevitavelmente terá de crescer. É possível ampliar a agricultura sem atropelar a floresta, a biodiversidade?
Essa é uma questão em aberto. Minha resposta é "sim", se pararem de desmatar e usarem áreas já desmatadas. Metade do Pará era coberto pela floresta e metade já foi devastada. Não há nenhum esforço de recuperação. Acho que a redução do desmatamento amazônico é perfeitamente compatível com a expansão. O Brasil utiliza uma área imensa para a agricultura, são 60 milhões de hectares, aproximadamente. São 8 milhões para a cana, metade disto para álcool e metade para açúcar. Existem 240 milhões de hectares de pasto, alguns naturais, alguns resultado da destruição da floresta. O Brasil tem o maior rebanho bovino do mundo, dá mais de um boi por pessoa. Mas em São Paulo, por exemplo, a relação hectare/boi é de 1 para 1. Se reduzir a relação um pouquinho, puser 1,2 boi por hectare, você libera 2 milhões de hectares.
Chegou-se a um limite do desenvolvimento técnico para ampliar a produção no campo?
Na cana-de-açúcar, a produtividade aumentou bastante. Há 30 anos, a gente tirava 3 mil litros de álcool por hectare. Hoje você tira 6 mil. E, com os transgênicos, as pessoas acham que esse processo pode continuar até os 12 mil litros por hectare.
Por que ainda não se chegou a consenso em fóruns internacionais sobre mecanismos de crédito para incentivar o reflorestamento?
Quando refloresta, você captura o carbono. Tem uma alternativa tecnológica na qual países como os EUA têm insistido, a Carbon Capture and Storage (Captura e Estocagem de Carbono, CCS, na sigla em inglês). Consiste em injetar carbono no subsolo a altíssimas pressões, o que é arriscado. Eu argumento que é melhor plantar árvore, algo que a gente sabe fazer. Projetos de reflorestamento têm reabsorvido grandes quantidades de carbono. Em 1 hectare de eucalipto ou pinus, você captura 100 toneladas de carbono e gera uma grande quantidade de créditos. No Brasil, quando você planta pinus ou eucaliptos, a árvore cresce e chega à maturidade em sete anos. Na Europa e nos EUA, demora 35 anos.
O termo reflorestamento passa uma ideia um pouco errada, de que reflorestar é recompor uma floresta nativa. E a gente está falando de plantar pinus, é a silvicultura, não é?
Reflorestamento é uma coisa. Manter floresta em pé é por meio de outro mecanismo, o Redd (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação). É o seguinte: você chega na Amazônia, tem um fulano que é o dono de uma área, supondo que ele seja dono: tem 10 mil hectares cobertos por floresta virgem e quer derrubar tudo, vender a madeira e colocar boi. Você diz para ele que, queimando e fazendo pasto, vai emitir muito carbono. A cada hectare de floresta virgem emite-se 100 toneladas de carbono. Então você propõe pagar uma quantia para ele manter a floresta em pé. O ex-ministro do Meio Ambiente Carlos Minc até se interessou pelo Redd. Conseguiu com o governo norueguês US$ 100 milhões para mexer nisso, mas não andou. O problema é o seguinte: você tem de pagar todo ano. Você começa a fazer as contas e fica uma quantia imensa de dinheiro, a equação não fecha.
Voltando à ideia de que a recuperação de áreas já abertas pode diminuir a pressão sobre as florestas: cabe ao governo financiar isso ou ao próprio produtor?
Ao governo, criando um programa de estímulo. O Brasil está se beneficiando do desmatamento numa visão de curto alcance. Na de médio e longo prazo, quem perde é o próprio Brasil. O desmatamento pode ter consequências climáticas sérias. Todo o pessoal da meteorologia diz isso: que a Amazônia vai virar uma savana e o Nordeste, ficar mais seco do que já é.
OESP, 01/09/2010, Especial, p. X11
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