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Tem aldeia na política

Site da Coiab-Manaus-AM
14 de Jul de 2004

Publicação conjunta do Conselho Indígenista Missionário (Cimi)/Regional Norte II, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e do Conselho Indígena de Roraima (Cir), intitulada "Tem aldeia na política", que começou a ser distribuída nos últimos dias junto às bases do movimento indígena da Amazônia, alerta as comunidades indígenas sobre a necessidade de elevar a consciência política de seus membros, neste período em que as aldeias são invadidas por políticos que correm atrás dos votos indígenas, prometendo mundos e fundos, mesmo que depois de eleitos "somem, mudam a conversa e nem lembram de terem pedido votos muito menos do compromisso de defender os direitos dos seus eleitores".

A publicação, faz um resumo histórico de como os europeus chegaram e ergueram o Estado brasileiro ao qual os índios foram incorporados com violência, fazendo hoje parte da cidadania brasileira. No período eleitoral, os índios participam das eleições, seja votando ou na condição de candidatos.
A cartilha, de 20 páginas, fala do jeito indígena da fazer política, onde as decisões coletivas contam, bem diferente do que acontece na sociedade não indígena, na qual o que importa é a concentração do poder e das riquezas, perspectiva defendida pela maioria dos partidos políticos no Brasil. Depois o documento dá algumas orientações sobre como participar das eleições: fiscalizar a atuação dos candidatos; ter cuidado com as manipulações; discutir com as organizações e comunidades o lançamento de candidatos; verificar se o candidato apoiado está disposto a assumir compromisso com os direitos indígenas. Nesse sentido, conforme o texto, é importante tomar alguns cuidados, tais como conhecer a história do candidato, do partido ao qual ele pertence, para descobrir de que lado ele está; não votar a troco de presentes ou favores, para não vender o voto e a própria consciência; ver se o candidato apóia a demarcação e homologação das terras indígenas, se é a favor da reforma agrária e de outras reivindicações dos movimentos populares e organizações sociais, e de quem é que ele recebe financiamento, e se tem ou não o apoio dos movimentos sociais e organizações populares.
Para a Secretária Geral da Coiab, Maria Miquelina Machado Tukano, a idéia de somar forças com o Cimi e o Cir para produzir a Cartilha "Tem aldeia na política", se justifica pela necessidade de mudar o quadro de manipulações que os políticos, no período eleitoral, costumam realizar junto as comunidades: "prometem mil coisas, ganham os nossos votos, e depois se esquecem". Para Lúcio Terena, que já foi candidato a deputado estadual, em 2002, em Mato Grosso, a cartilha pode ajudar a quebrar a dependência e o paternalismo a que são induzidas as comunidades pelos políticos tradicionais, que pedem votos a troco de presentes. Dessa forma, os indígenas não votam nos seus parentes candidatos. O representante do Cimi, Francisco Loebens, acredita que as eleições sempre são uma oportunidade para que os povos indígenas discutam a sua autonomia, o seu projeto de vida, se politizem e façam a escolha certa na hora de votar. "A cartilha alerta sobre as carapuças colocadas pelos políticos, e as formas ardilosas que os partidos usam para ganhar votos indígenas mesmo sem acreditarem nas propostas indígenas", enfatiza. O indígena Maurício Mura, que é candidato a vereador no Município de Autazes, valorizou a iniciativa da cartilha "Tem aldeia na política", que para ele pode servir para discussões não só nas comunidades indígenas mas também em comunidades de agricultores e ribeirinhas. Ressaltou ainda que "é muito importante que os indígenas entendam que fazer política partidária não implica em deixar de fazer política indígena, para que não se caia no erro de defender outros interesses ao invés dos interesses de seus povos". Contudo, segundo o Secretário Geral da Central Única dos Trabalhadores (Cut/Amazonas), ouvido pela assessoria de comunicação da Coiab, "é importante que também não se fique só na discussão da política organizacional, que se discuta a política partidária de tal forma que os próprios indígenas possam participar inclusive na elaboração de leis que os favoreçam".

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