OESP, Vida, p. A26
27 de Ago de 2006
Tecnologia científica na ponta do lápis
Na era da fotografia digital, a arte da ilustração científica continua viva
Herton Escobar
Em pleno auge da tecnologia digital, o lápis e a borracha continuam indispensáveis para retratar a biodiversidade do planeta. Mesmo com todos os recursos fotográficos disponíveis, ilustradores continuam tão ocupados hoje quanto no tempo das grandes expedições naturalistas dos séculos 18 e 19. A arte permanece viva e essencial nas revistas e livros de zoologia e botânica de todo o mundo.
Muitos pesquisadores, quando precisam ilustrar seus trabalhos com imagens de alguma espécie ou ambiente específicos, preferem o olhar minucioso e o punho preciso de um desenhista ao retrato tecnológico de uma lente fotográfica. O resultado são ilustrações belíssimas e impressionantemente detalhadas, que retratam cada folha, cada ranhura, cada pêlo e cada antena da biodiversidade em sua exata proporção.
"O desenho é sempre mais preciso que a foto", justifica o pesquisador Gustavo de Melo, especialista em crustáceos do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, que utiliza desenhos para ilustrar todas as suas publicações. "Você enxerga detalhes, minúcias, que muitas vezes não consegue enxergar numa fotografia."
"A foto também é uma ilustração, mas você nunca consegue focar todas as características de uma espécie", diz a ilustradora Rosa Maria Alves Pereira, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que neste mês deu início a três cursos de extensão em ilustração científica, nas áreas de botânica, medicina e insetos. "A máquina não substitui o olho humano, não tem a sensibilidade e a percepção do artista", compara Rosa.
"A principal característica do desenho científico é ser o mais fiel possível ao bicho verdadeiro", destaca o ilustrador Jaime Somera, do Departamento de Zoologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro. "É preciso muita atenção, muita concentração. Você muda o formato de alguma coisa e pode acabar caindo numa outra espécie."
"Não há espaço para criatividade", completa Rejane Rosa, ilustradora científica do Museu de Ciências Naturais da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul há 28 anos. Ela conta que desenha cada parte do espécime individualmente, a partir de observações minuciosas com a lupa. "Vou focando cada pedacinho e desenhando cada um separadamente", explica. "É o tipo de detalhamento que você não consegue numa fotografia."
O desenho também permite registrar a espécie na posição ideal, possibilitando visualizar o maior número de características e fazer comparações de maneira mais sistemática. "Você consegue uma postura mais fotogênica", diz o desenhista Augusto Áquila Romano da Silva, que entrou para o ramo científico a convite de sua irmã, Patrícia, quando ela fazia mestrado no Museu de Zoologia da USP. "No começo foi tão difícil que quase desisti", conta. "Hoje, entre desenhar uma pessoa e uma formiga, prefiro a formiga."
Fora alguns cursos de extensão, palestras e seminários, não há formação acadêmica específica para o desenho científico. Os ilustradores são desenhistas de outras áreas, publicitários ou arquitetos que descobrem o mercado e acabam se especializando na arte científica.
Ilustrações precisas são essenciais para a descrição e a documentação de espécies. A diferença entre uma e outra pode ser tão sutil quanto a posição de um espinho, o formato de um membro ou uma leve variação de coloração. "Se um caranguejo tem dez espinhos, não adianta só desenhar dez espinhos; tem que ter a distância exata entre cada um", explica Melo.
Alguns pesquisadores também fazem os próprios desenhos, como no caso do entomólogo João Camargo, especialista em abelhas da USP de Ribeirão Preto. "Desenho a gente nasce sabendo, não tem de aprender", diz. "A ilustração é uma linguagem na forma de imagem, na qual você sintetiza uma informação."
As ilustrações podem ser feitas em nanquim, aquarela ou acrílico, preto e branco ou coloridas, dependendo da necessidade do pesquisador. Muitas são feitas apenas em nanquim por uma questão de custo, já que a cor encarece a publicação - a não ser que a coloração seja indispensável para a identificação da espécie.
Macaco da Amazônia só existe no papel
Sagüi pintado em 1944 nunca foi visto solto
No caso do Tamarin fuscicollis cruzlimai, um tipo de sagüi da Amazônia, a ilustração científica não é apenas uma referência artística, mas o único registro existente da espécie. Ninguém nunca viu o bicho na natureza nem há nenhum exemplar preservado em nenhum museu do País. Tudo o que se sabe sobre ele é o que foi pintado e descrito pelo naturalista Eladio da Cruz Lima em 1944, no livro Macacos da Amazônia.
A história é curiosa e enigmática. Uma das pranchas da obra mostra quatro macacos do gênero Tamarin, incluindo dois da espécie Tamarin fuscicollis. A cor do pêlo dos dois macacos é diferente, e Cruz Lima atribuiu essa diferença ao fato de um animal ser jovem e o outro, adulto.
Com o passar do tempo, porém, observações na natureza mostraram que não havia diferença de coloração entre jovens e adultos da espécie: um é exatamente igual ao outro. Até que, em 1977, o especialista Philip Hershkovitz, curador de mamíferos do Field Museum de Chicago, fez uma revisão minuciosa da situação e reclassificou o animal jovem pintado por Cruz Lima como uma nova espécie, batizada de Tamarin fuscicollis cruzlimai.
Ela é oficialmente reconhecida como uma espécie de macaco da Amazônia, mas, por enquanto, só existe no papel. "Até hoje a distribuição do cruzlimai não é conhecida, pois ninguém conseguiu ainda localizá-lo na natureza", diz o primatólogo José de Souza Silva Jr., do Museu Paraense Emílio Goeldi.
O exemplar original do animal, no qual Cruz Lima baseou sua pintura, fazia parte da exposição permanente do museu, mas foi perdido entre 1945 e 1955 - "um dos períodos em que o governo abandonou as instituições brasileiras", afirma Silva Jr. "Quando cheguei ao museu, em 1987, uma das primeiras providências que tomei foi fazer uma busca para ver se o bicho tinha sido mesmo perdido, mas não encontrei nada."
Cruz Lima morreu em 1943, antes da publicação da obra. Com base apenas no desenho, é possível teorizar que o animal era um exemplar "mutante" de Tamarin fuscicollis ou que pertencia realmente a uma espécie diferente, escondida até hoje em alguma região inexplorada da Amazônia. "É perfeitamente factível que ele exista", diz o especialista Mario de Vivo, do Museu de Zoologia da USP. "Não acho que o Cruz Lima pintaria algo que ele não viu."
Silva Jr. também confia no trabalho do naturalista. "O Eladio era um especialista e nunca se enganou sobre nada, a não ser por coisas que não eram conhecidas na época", diz. "Acredito que o enigma do cruzlimai vai ser solucionado logo logo, mas por enquanto o que se sabe sobre ele é a imagem produzida pelo Eladio."
Um último detalhe: por uma regra de nomenclatura, o gênero Tamarin é hoje conhecido como Saguinus. Segundo Silva Jr., portanto, o nome oficial da espécie é Saguinus fuscicollis cruzlimai. H. E.
OESP, 27/08/2006, Vida, p. A26
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