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Tartaruguinhas a salvo

CB, Brasil, p. 8
15 de Abr de 2006

Tartaruguinhas a salvo
Projeto Quelônios da Amazônia conseguiu tirar animais aquáticos do risco de extinção. Na próxima sexta-feira, 35 mil filhotes voltarão ao habitat, depois de serem preservados da seca que assolou a região

HÉRCULES BARROS

No próximo dia 21 de abril, o município de Afuá, no Pará, receberá turistas para um espetáculo inusitado. Eles vão acompanhar a soltura de 35 mil tartarugas da Amazônia. Devolvidas à natureza na Ilha dos Camaleões, os animais vão se juntar a outros 15 mil filhotes de tartarugas aquáticas que começaram vida nova no Lago Pracuúba, no município de mesmo nome, no Amapá. Os quelônios - como são chamados tartarugas, jabutis, tracajás e cágados - nasceram de ovos resgatados no início do semestre passado durante a seca na Amazônia, a pior em quatro décadas. A ação emergencial para salvar os animais não é uma novidade para a população da Região Norte.
Desde o final dos anos 1970, existem iniciativas de preservação da espécie na região. A necessidade de manter a fonte de subsistência fez os ribeirinhos se mobilizarem em torno da preservação, que garante a soltura de milhares de tartaruguinhas a cada ano. Os filhotes à espera de liberdade são crias de projetos de preservação ambiental mantidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) na Amazônia.
Os quelônios amapaenses a serem emancipados na próxima sexta-feira são da espécie tracajá e estavam sob os cuidados do projeto Quelônios da Amazônia, do Centro de Conservação e Manejo de Répteis e Anfíbios (RAN).
A iniciativa ajuda a recompor o estoque natural de tartarugas no estado. "Quando adultas, muitas vão reproduzir a espécie e outras servirão de alimento para animais e para os próprios ribeirinhos", explica o gerente-executivo do Ibama no Amapá, Edivan Barros de Andrade.
O desafio agora é fazer com que a população local perceba a importância de incorporar ao projeto apelo turístico e de desenvolvimento sustentável.
"Queremos atrair parceiros e recursos, como faz o Projeto Tamar, de preservação de tartarugas marinhas", afirma Edivan.
Sucesso
Os ovos das tracajás são recolhidos nos "berçários" naturais e levados para incubação em áreas protegidas até a quebra da casca do ovo pelos filhotes, após 50 dias da desova. Depois, os pequenos são mantidos em tanques onde recebem alimentação e cuidados até ficarem com o casco duro o suficiente para se protegerem da ação de predadores. Cerca de 30% deles são destinados a criadouros comerciais com o objetivo de estimular a reprodução em cativeiro e evitar a caça predatória.
O projeto Quelônios da Amazônia inclui também a identificação e preservação das áreas de alimentação e desova dos animais. Em 25 anos, o projeto contabiliza a proteção de mais de 600 mil filhotes. "Temos conseguido fazer um trabalho de êxito", orgulha-se Edivan. A espécie saiu da lista de animais ameaçados de extinção na região.
No Pará e no Amazonas, outros 80 mil ovos foram recolhidos por técnicos, voluntários e ribeirinhos do projeto Pé-de-Pincha, nome inspirado na cor da pata dos animais. O trabalho é uma parceria da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) com o Programa das Nações Unidas pelo Desenvolvimento (Pnud). A iniciativa foi dos moradores do município de Terra Santa (PA), que, em 1999, se uniram aos pesquisadores da Faculdade de Ciências Agrária da UFAM para impedir o desaparecimento dos quelônios.
A espécie é fonte importante de alimento para o pessoal da região.
O estoque natural vem diminuindo desde que aumentou a comercialização nas grandes cidades.
"Os ribeirinhos se mudam para os centros urbanos e tornam seus hábitos populares", afirma Paulo Andrade, coordenador do projeto.
Infertilidade
O Pé-de- Pincha tem registrado 69 pontos de criadores preservado, com o envolvimento de seis municípios: Terra Santa, Oriximiná e Juruti, no Pará, e Nhamundá, Parintins e Barreirinha, no Amazonas. Desde 2004, o projeto conta também com o apoio do Programa de Apoio ao Manejo dos Recursos Naturais da Várzea (ProVárzea), do Ibama.
Em 2005, os participantes do Pé-de-Pincha anteciparam em 30 dias a caça aos ninhos e foram a campo no início de setembro, por causa da seca na Amazônia. "Não constatamos baixa de filhotes, mas o número de ovos inférteis aumentou quatro vezes em comparação com os outros anos", afirma Paulo.
Segundo o especialista, a perda de ovos por infertilidade, que normalmente é de menos de 1%, no ano passado, foi de 5%. "Os animais fizeram grandes deslocamentos em busca de água, o que pode ter afetado o acasalamento", acredita.
A temporada de soltura dos filhotes do Pé-de-Pincha começou em 24 de fevereiro. Cerca de 70 mil tartarugas já foram libertadas.
Segundo Paulo, outros 10 mil, encontrados por moradores da região no período da seca, devem ser liberados até 24 de abril.

INICIATIVA POPULAR

O Projeto Pé-de-Pincha começou em 1999, por iniciativa dos moradores do município de Terra Santa (PA), que alertaram pesquisadores da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) sobre o desaparecimento dos quelônios. Juntamente com os cientistas, o Ibama desenvolveu o projeto, que levou esse nome em homenagem aos pequenos tracajás, que deixam na areia marcas parecidas com tampinhas de refrigerante, conhecidas como "pinchas" na região. Atualmente, 3.400 pessoas de 68 comunidades da várzea estão diretamente envolvidas no projeto. Além de Terra Santa, seis municípios participam do Pé-de-Pincha.Outras 20 mil pessoas apóiam o trabalho indiretamente nas prefeituras, associações ambientalistas, fundações privadas e órgãos governamentais.

CB, 15/04/2006, Brasil, p. 8

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