O Globo, Opinião, p. 7
Autor: HUHNE, Chris
29 de Nov de 2011
A tarefa em Durban
Chris Huhne
Há um ano, em meio a pessimismo, as negociações de clima da ONU começaram em Cancún. Após a decepção de Copenhague, a negociação parecia estar na berlinda. As expectativas eram baixas, mas dessa amargura surgiu consenso: o mundo concordou em manter o aquecimento global abaixo dos 2" C.
Isso tem significado. O mundo não alcança acordos facilmente. Temos poucos pactos de fato globais e apenas uma organização mundial. Nesta semana, a ONU está reunida em Durban, África do Sul, para discutir um tratado global de clima.
Infelizmente, para muitos países, o período é difícil. A Europa enfrenta crise de proporções basilares e os Estados Unidos preocupam-se com emprego e crescimento. O Oriente Médio e o Norte da África estão imersos na reforma política.
Ano passado, nosso foco era manter a turnê na estrada: se há diálogo, ainda há opções; mas o tempo se esgota. Conforme destacou a Agência Internacional de Energia, a oportunidade de combater a mudança do clima é medida em anos, não mais em décadas. A ciência nos diz que devemos diminuir emissões globais até 2020, ou enfrentar sérias consequências.
Em Cancún, começamos a estabelecer uma arquitetura global para monitorar emissões e apoiar países em desenvolvimento a atacar as mudanças climáticas. Mas as perguntas mais fundamentais permaneceram sem resposta. Aonde estamos indo? Estamos na direção de um acordo jurídico, que vincule grandes emissores a metas de redução, ou promessas de ações voluntárias pelos países?
Minha resposta é: um acordo que inclua todas as grandes economias é essencial. O Reino Unido permanece apoiando um acordo jurídico, sob os auspícios da ONU. Nenhum problema mundial - seja a corrida armamentista ou conflitos comerciais - foi resolvido por meio de promessas políticas.
No atual cenário, isso não acontecerá de imediato. Durban não será nosso momento de eureca, mas podemos sinalizar que esse é o objetivo.
Já há um acordo legalmente vinculante: o Protocolo de Quioto. Em 1997, 37 grandes economias, incluindo Japão, Rússia, Canadá, Austrália e União Europeia (UE), formalmente se comprometeram a cortar emissões.
A UE já ultrapassou sua meta. O primeiro período de compromisso de Quioto expira no próximo ano, e Japão, Rússia e Canadá não aderirão a um segundo período.
A UE, por outro lado, quer justamente isso. Mas se aderir sozinha - sem compromissos comparáveis de grandes emissores, como os EUA, e de países emergentes, como Brasil, China e Índia
- não atingiremos muito. A UE, responsável apenas por 12% das emissões globais, ficaria sozinha em uma estrutura global. Isso não basta.
As grandes economias precisam se comprometer com uma estrutura jurídica ampla e com a finalização das negociações até 2015. Não é apenas o que nós queremos, mas o que a maioria dos países em desenvolvimento também quer, inclusive países insulares vulneráveis e os mais pobres.
Quioto provê regras-base para gerir o clima em processo de desestabilização. Aprendemos com a crise financeira que regras adequadas podem prevenir a contaminação dos riscos. Por isso, Durban não deve acabar com Quioto, mas sim sinalizar o compromisso com uma causa.
Regras funcionam. Recente pesquisa sobre grandes companhias globais mostrou que 83% das lideranças empresariais achavam que um acordo multilateral é do que se precisa para combater a mudança do clima; contudo, apenas 18% acreditavam que esse acordo seria possível. Empresas querem segurança; pessoas, ação. Apenas a política está para trás.
Devemos, por fim, demonstrar liderança. No próximo ano, pressionarei por mais ambição na meta da UE: uma redução de 30% até 2020. Isso ajudará a erguer nossas perspectivas.
Não será um caminho fácil, mas penso que seja o único meio viável de atingir nossos objetivos. Milton Friedman disse, certa vez: "Nossa função básica é manter boas ideias vivas até que o politicamente impossível se torne politicamente inevitável." É uma boa descrição da tarefa à nossa espera em Durban.
Chris Huhne é ministro de Mudanças Climáticas e Energia do Reino Unido.
O Globo, 29/11/2011, Opinião, p. 7
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.