CB, Opinião, p. 21
Autor: FÉLIX, Joana D'Arc Bicalho
18 de Dez de 2009
Sustentabilidade é: mais prática e menos discurso
Joana D'Arc Bicalho Félix
Mestre em planejamento ambiental e doutoranda em economia
A insustentabilidade do modelo atual de desenvolvimento tornou-se tema de discussão nas mais diversas esferas da sociedade. Neste momento, mais um encontro demonstra a relevância das questões ambientais, num cenário mundial. A 15ª Conferência das Partes, da ONU, exibe as tentativas e dificuldades na convergência de prioridades, ideias e ações efetivas em benefício da saúde ambiental e social da Terra. Em Copenhague, busca-se solução para os principais assuntos que envolvem o aquecimento global, o que, traduzindo, diz respeito ao destino da civilização humana.
A preocupação maior, entretanto, é com o excesso de discurso e a pouca efetividade prática no que diz respeito às ações em prol da vida humana na Terra. Não que se tenha feito pouco. Ao contrário. Se levarmos em conta que apenas há poucos anos, na história do planeta, dialogamos sobre as questões ambientais, podemos considerar que avançamos em termos de propostas, acordos, regulamentações e legislação sobre os impactos do atual modelo de desenvolvimento.
Os anos 1960 e 1970 viram surgir grandes organizações ambientalistas internacionais: WWF, Amigos da Terra, Greenpeace. E, com elas, o nascimento de importante mudança de valores na sociedade civil. Vinte e sete países mandaram representantes à Conferência de Estocolmo, em 1972, promovida pela ONU, tendo sido a primeira sobre desenvolvimento e meio ambiente, e que gerou um documento com 26 princípios em relação às principais questões de destruição do planeta.
Naquele ano, o Clube de Roma publicava o relatório Os limites do crescimento, que alertava sobre o caos futuro se não houvesse modificações nos modelos de desenvolvimento econômico praticados. Em 1974, a Holanda realizava o I Congresso Internacional de Ecologia, alertando sobre a redução da camada de ozônio e suas consequências. Em 1975, foi publicada a Carta de Belgrado, documento que marcou a evolução do ambientalismo em todo o mundo.
Na década de 1980, houve ênfase nos aspectos de obtenção de matéria-prima, processos de produção e descarte. Na mesma época, foram estabelecidos o Protocolo de Montreal, proibindo os gases CFC (clorofluorcarbono), e a Convenção de Basiléia, regulamentando as exportações e importações de resíduos perigosos entre países. A Constituição brasileira de 1988 foi a primeira de uma nação a possuir um capítulo inteiro sobre meio ambiente (artigo 225), mais um sinal do aumento de consciência sobre o tema.
A Rio 92 conseguiu reunir mais de 170 países e mais de 100 chefes de Estado, ditando uma nova ordem mundial acerca da conservação do planeta, traduzida na união para a busca do equilíbrio entre o crescimento econômico e a conservação e restauração do meio ambiente. Ganhou força o conceito de desenvolvimento sustentável: atender às necessidades do presente, sem comprometer a capacidade de as futuras gerações satisfazerem suas próprias necessidades. Desse evento, surgiu a Agenda 21 global, com 40 capítulos estratégicos que orientam sobre a implantação do desenvolvimento sustentável no planeta.
A busca por uma economia global, que ao mesmo tempo fosse inclusiva, garantindo a sustentabilidade, fez nascer o Pacto Global, que estabeleceu 10 princípios a serem seguidos pelas empresas de todo o mundo, envolvendo meio ambiente; combate à corrupção; direitos humanos e direitos do trabalho.
Já nesta década, chegaram as Metas do Milênio, em que 191 países-membros da ONU, reunidos em Nova York (EUA), se propuseram a convergir forças para propósitos comuns em benefício do Planeta Terra, com metas claras para 2015. E dessa maneira estamos caminhando. Todo ano surgem informações que geram diálogos, debates, encontros, relatórios, indicadores e metas. Dado importante, entretanto, é o curto espaço de tempo que temos para a promoção de ações efetivas, enquanto ainda há esperança de reconstituição dos ecossistemas. O atual momento pede que governo, indústria, comércio e consumidores ampliem a percepção de que preservar a natureza significa sustentabilidade ambiental e social dos processos de crescimento econômico.
É mais que hora de sair do discurso para a prática. O que significa uma mudança de postura já. Cada organismo do planeta necessita incorporar uma nova maneira de se posicionar perante a vida, e assumir a promoção da saúde planetária em casa, no escritório, na urna. Em vários encontros acreditou-se que ainda havia tempo de restauração. É tempo, enfim, de opção pelos dias futuros.
CB, 18/12/2009, Opinião, p. 21
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