OESP, Especial, H8
04 de Mai de 2007
Sustentabilidade chega a edifícios
Setor imobiliário está cada vez mais engajado no conceito; uso racional de água e energia é destaque
Renata Gama
Sustentabilidade é a palavra da ordem no setor imobiliário, e medidas práticas para o uso racional de água e energia elétrica têm surgido nos novos projetos de empreendimentos imobiliários residenciais. A preocupação com a economia dos recursos naturais tem sido estratégia para conquistar novos clientes. É que, mesmo que eles não estejam antenados nas novas tendências de preservação ambiental, as técnicas de redução de consumo nos condomínios permitem que a conta venha mais baixa no fim do mês.
A Setin, por exemplo, vem investindo em sistemas de economia de recursos desde 1994. Criou um conceito chamado Mundo Apto, que se repete em empreendimentos voltados à classe média em seis bairros da capital paulista. No total, serão levantadas 1.260 unidades. "Não é apenas uma torre de apartamentos, mas um conceito. Foi idealizado para ser um produto perene", afirma Guilherme França, diretor comercial da empresa. O projeto significa um marco para a Setin, que com ele conseguiu a obtenção do certificado ISO 14.000.
CUSTO DILUÍDO
Em todos os condomínios que fazem parte do conceito está previsto o reúso da água. Toda água consumida nos lavatórios e chuveiros - chamada de água cinza - é colhida por meio de uma tubulação separada e levada a uma estação de tratamento no subsolo do edifício. "A água passa por um processo de decantação, depois por tratamento biológico à base de cloro e ultravioleta e, por último, filtro de areia", afirma França.
Em seguida, o líquido é reinjetado na tubulação que nutre as caixas de descargas dos banheiros. "Ela é usada somente para essa finalidade", explica França. Isso porque, apesar de tratada, esta água não é potável. Por isso, também é distribuída por canos isolados.
Outra forma de reduzir o consumo da água é a instalação de torneiras e chuveiros que misturam oxigênio. "Eles reduzem a pressão da água", explica França. Com essas medidas, é possível reduzir significativamente o consumo de água nos apartamentos. "Para a Sabesp, o consumo médio em um apartamento de dois dormitórios é de 240 litros por dia. Nos nossos, o consumo médio é de 130 litros", diz França.
O custo de instalação desses recursos não é baixo. Mas se a produção for em grande escala, o gasto se dilui, segundo explica França. "Se a gente fosse aplicar em apenas um prédio, talvez o preço final do apartamento pudesse extrapolar o valor de mercado, mas a escala neutraliza o custo adicional." Os preços dos apartamentos de dois dormitórios lançados na Barra Funda, Cambuci, Ipiranga, Saúde, Vila Alexandria e Santana vão de R$ 135 mil a R$ 187 mil.
A construtora Stan Desenvolvimento Imobiliário também criou uma linha de produtos, chamada Arte & Arquitetura, que prevê o reúso de água. Além de aproveitar a água cinza das torneiras e lavabos para uso em descargas, os edifícios contam com o reaproveitamento da água das chuvas.
No terreno, é instalado um sistema de captação de água que é armazenada, tratada e usada para lavagem das áreas comuns e rega das plantas.
São dois condomínios construídos com o sistema, um no Itaim Bibi - que será entregue este mês -, e outro nos Jardins. "Gera um benefício ecológico de economia de água", afirma Stefan Neuding, diretor da empresa. A expectativa é de redução do consumo em 30%.
Além disso, nos dois empreendimentos serão instalados sistemas de medição individual de água. A Sabesp faz a leitura total do condomínio e a administradora faz a divisão proporcional ao consumo, de acordo com o que apontam os relógios de medição.
Para ele, o custo adicional desses recursos pouco onera a construção. "É insignificante o aumento. Traz muito mais benefício do que gasto", afirma. Essa é uma forma de conscientizar o morador. "O consumidor ainda não está muito preocupado com o impacto na natureza, mas quando ele vê que essas medidas reduzem o custo mensal do condomínio, acha legal."
A Tecnisa não instala sistemas de reúso de água em seus condomínios, alegando que a técnica ainda não está regulamentada no Brasil. "Não existe uma autorização formal que defina os responsáveis em caso de contaminação", afirma Fábio Villas Boas, diretor-técnico da empresa. Mas todos os empreendimentos da empresa contam com medição individual e redutores de pressão nas torneiras e chuveiros.
Sistemas econômicos
Reuso de água das torneiras - A denominada "água cinza" é captada das torneiras dos lavabos e dos ralos dos chuveiros, para ser armazenada dentro de estações de tratamento biológico. Depois, retorna para o uso das caixas de privadas
Reuso de água das chuvas - A água é captada e armazenada, passa por tratamento e depois retorna para o uso. Essa água é usada para lavagem das áreas comuns dos edifícios e rega das plantas
Torneiras e chuveiros - As peças metálicas dos chuveiros instaladas promovem uma mistura de ar e água, de forma que a pressão é reduzida, mas sem comprometer a eficiência dos banhos e das lavagens.
Medição individual permite controle do consumo de água
Sistema pode ser instalado em condomínios antigos e promove economia de até 40% no uso, além de ajudar na conscientização
Mesmo nos condomínios antigos é possível adotar medidas para redução do consumo de água. Um dos recursos mais procurados é a instalação de medidores individuais. "O medidor oferece uma forma mais justa de distribuição da conta", afirma a gerente da área de meio ambiente do Grupo Hubert, Nathalie Gretillat.
O sistema consiste em instalar relógios em todos os apartamentos. A Sabesp continua fazendo uma única medição por condomínio. No entanto, a distribuição da água passa a ser controlada pela administração. Com os aparelhos é possível saber o volume de consumo de cada unidade. Na conta do condomínio, vem discriminado o total consumido e o valor.
A instalação do sistema deve ser aprovada em assembléia, com concordância da maioria absoluta dos condôminos. "A maioria costuma ser a favor, mas sempre tem aqueles que são contra", diz Nathalie. Segundo ela, as mais resistentes ao sistema costumam ser as famílias grandes, que sabem que têm um consumo muito alto de água. "São pessoas que no rateio por igual pagam R$100, e quando instalam o medidor a conta sobe para R$ 350 e se vêem obrigadas a mudar seus hábitos", afirma.
A gerente conta que, mesmo com o aumento da consciência ecológica e da necessidade da economia da água, há pessoas que abusam do consumo. "Administramos um condomínio em que o morador da cobertura tinha o costume de esvaziar a piscina e encher novamente toda semana, em vez de tratar a água com cloro." Quando a medição individual foi instalada no prédio, o morador parou com o desperdício.
A economia de consumo aparece a partir do momento em que os condôminos tomam consciência do quanto consomem e passam a economizar. "As pessoas hoje não sabem o quanto gastam de água. Quando colocam o medidor, têm noção do consumo e passam a controlar e identificam vazamentos", afirma Nathalie.
Sem esse recurso fica difícil descobrir problemas na tubulação, os grandes vilões do desperdício de água. "Tivemos casos de apartamentos com até cinco pontos de vazamento", conta Nathalie. Neste condomínio, a conta de água caiu de R$ 11 mil para R$ 5 mil. "Quando a conta é paga pelo condomínio, o vazamento muitas vezes fica correndo e ninguém vê."
A procura pelo sistema tem sido grande. Dos 400 condomínios administrados pelo Grupo Hubert, 40 já optaram pela conversão da medição. Com isso, todos conseguiram diminuir o valor mensal da conta. A redução do consumo depende do perfil do prédio, segundo Nathalie. "Notamos de 10% a 46% de economia."
No entanto, a administradora alerta que a conversão não é viável em qualquer prédio. Como em edifícios antigos onde o abastecimento de água é feito por várias tubulações (prumadas). Se houver mais que três prumadas por unidade, o sistema pode não compensar.
Na hora de instalar, há dois tipos de leitura da conta de água: a visual e a remota. No sistema visual, o relógio é instalado fora de cada apartamento e a leitura é feita mensalmente por algum funcionário do condomínio, normalmente o zelador. Neste caso, a instalação do sistema costuma custar a partir de R$ 200 por prumada.
Na medição remota, é instalado um equipamento com medição digital que colhe e distribui as informações do consumo via internet. Neste caso, a instalação aumenta: de R$ 500 a R$ 700 por prumada.
TORNEIRAS
Menos comum nos condomínios, a troca de torneiras e chuveiros por modelos mais econômicos também é uma alternativa para reduzir o consumo de água. Segundo Nathalie, há empresas especializadas que instalam o sistema por meio de contratos de comodato.
Aquecimento solar economiza 80% de energia
Sistema substitui resistência dos chuveiros, os vilões do consumo
Há várias formas de economizar energia elétrica nos condomínios residenciais. A mais popular é a instalação de sensores de presença nas áreas comuns dos edifícios, como garagens, corredores e halls.
Os empreendimentos da construtora Tecnisa, por exemplo, são entregues com o sistema instalado. "Evita que a luz se acenda quando não há ninguém no ambiente", afirma Fábio Villas Boas, diretor técnico da empresa. Há também os sistemas temporizadores nas partes externas como jardins. A luz acende e apaga conforme a iluminação natural, como nos postes das vias públicas.
Dentro das unidades, a tecnologia que mais ajuda na economia de energia elétrica é o aquecimento solar. O sistema é principalmente usado para substituir a resistência dos chuveiros no aquecimento da água - o maior responsável pelo consumo de energia elétrica dentro de uma casa.
Essa forma de geração de energia, apesar de antiga, ainda não é muito comum entre os residenciais. Ela consiste na instalação de placas capazes de captar a energia solar na superfície dos edifícios e transformá-la em energia térmica.
Os condomínios construídos no conceito Mundo Apto, da construtora Setin, possuem o sistema. "Com isso é possível economizar 80% da energia elétrica usadas nos chuveiros", afirma Guilherme França, diretor comercial da empresa. Dessa forma, é possível oferecer um benefício adicional às unidades que passam a ter também a água das torneiras aquecida.
Em caso de dias muito nublados, em que a captação da luz solar é dificultada, geradores a gás substituem a energia solar e fazem a compensação. O sistema é automático.
OESP, 04/05/2007, Especial, H8
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