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Surto de diarréia mata duas crianças indígenas

O Globo, O País, p. 10
30 de jan de 2007

Surto de diarréia mata duas crianças indígenas
Nas aldeias de Rondônia. 42 índios foram hospitalizados desde dezembro; médico culpa desmatamento

Soraya Aggege

Um surto de diarréia matou pelo menos duas crianças indígenas nos primeiros 20 dias do ano em Guajará-Mirim, Rondônia. Um total de 42 tiveram que ser hospitalizadas, 12 delas da aldeia onde ocorreram as mortes, a Lage Velho, da etnia Oro-Wari' (Pakáa-Nova), que reúne apenas 250 pessoas.

O índice de desnutrição infantil na região já varia entre 33% e 40%, segundo o Conselho Missionário Indigenista (Cimi). Um dos possíveis motivos é o aumento do desmatamento da floresta amazônica em Rondônia, que estaria aumentando a desnutrição indígena, com a redução da caça, e também os casos de malária.

- Estou aqui há 24 anos.
Nunca vi tantos indígenas doentes, com malária, nem morrendo por diarréia. Mas não foram feitos sequer exames nas fezes e não há combate à malária. E muitos morrem também por falta de socorro - afirma o médico francês Gilles Marie Catheau, missionário do Cimi na região.

Segundo o médico, só na última segunda-feira ele constatou dez casos de malária na aldeia.

Os casos de óbito por diarréia se devem à desnutrição e à debilidade física dos índios por processos infecciosos da malária e também da gripe, que atinge os indígenas de Rondônia, um dos estados mais devastados na Amazônia Legal, segundo recente pesquisa do IBGE.

- A caça está a cada dia mais reduzida na região, por causa das fazendas e do desmatamento. Com isso, a malária e a desnutrição aumentam. Os índios se alimentam da pesca e de castanhas.
Outra suspeita é sobre o poço de água que abastece a aldeia.
- Aparentemente, a origem do surto é um rotavírus - disse Catheau.

Surto começou em dezembro, com 39 casos
Embora a maior incidência de casos aconteça na aldeia Lage Velho, quase todas as 30 aldeias base de Guajará-Mirim estão sendo assoladas nos últimos meses por malária, gripe e desinterias. O pico, inédito, segundo o Cimi, ocorre desde dezembro, quando ocorreram 39 hospitalizações. As duas mortes ocorreram dia 7 e dia 15 deste mês. Primeiro morreu uma garota de 3 anos. Depois, uma menina de três meses, filha do cacique Valdito Oro Wari', que é agente indígena do programa de Saúde da Família Indígena, da Funasa. Segundo ele, a menina teve febre à noite e amanheceu com vômitos e diarréia. O socorro médico da Casa de Saúde Indígena chegou no final da tarde, quando a criança já estava morta, segundo o cacique. 0 posto de saúde da região está desativado e faltam medicamentos.

Funasa culpa 'hábitos culturais' Para entidade, pesca e extração da castanha aumentam número de casos

Funasa, responsável pelo atendimento aos povos indígenas, informou que até a próxima semana enviará uma equipe à aldeia Lage Velho para verificar a possibilidade de contaminação do poço. Também prometeu que na próxima semana será iniciada a construção de um posto de saúde perto da aldeia. A Funasa negou a ocorrência de surtos de malária, atribuindo os casos à sazonalidade, e justificou que os problemas dos indígenas estão relacionados também "aos seus hábitos culturais", como a extração da castanha e a pesca.

Quanto ao óbito da menor de 3 meses, filha do cacique Valdito Oro Wari, a Funasa abriu sindicância para analisar se houve negligência ou alguma falha no atendimento.

"A aldeia Lage Velho é uma aldeia próxima ao Rio Ribeirão, criadouro de anofelinos - transmissores de malária. Algumas características culturais como a extração da castanha e pesca, prática comum entre os indígenas daquela aldeia, acabam contribuindo para o alto índice de casos", diz a nota da Funasa, que mesmo assim nega a existência de qualquer "surto de malária" na região.

O Globo, 30/01/2007, O País, p. 10

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