OESP, Nacional, p. A10
08 de Mai de 2008
Supremo critica Justiça do Pará no caso Dorothy
Absolvição de fazendeiro, que fora condenado em 2007, pode prejudicar imagem do País, diz ministro
Felipe Recondo e Moacir Assunção
Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) criticaram ontem a absolvição do fazendeiro Vitalmiro Bastos Moura, o Bida, na 2ª Vara do Júri de Belém. Acusado de ser mandante do assassinato da missionária Dorothy Stang, ocorrido em fevereiro de 2005, ele foi absolvido terça-feira, durante o segundo julgamento a que foi submetido. Em maio de 2007, fora condenado a 30 anos de prisão.
Celso de Mello, o mais antigo ministro do Supremo, afirmou, em Brasília, que esse conflito de decisões pode prejudicar a imagem do País. "É evidente também que, considerado o resultado anterior, isso pode transmitir, não apenas ao País, mas à comunidade internacional, uma sensação de que os direitos básicos da pessoa não tenham sido respeitados."
Celso de Mello acha que a decisão de absolver Bida pode denotar que os jurados não teriam analisado adequadamente as provas. O ministro Marco Aurélio Mello concorda. "De duas uma: ou a culpa não estava formada antes (no primeiro julgamento) e a decisão estava errada ou a decisão estava certa e esta segunda está errada."
Dorothy, de 73 anos, foi atingida por nove tiros em uma emboscada em Anapu (PA). Dois anos depois, Bida, Rayfran das Neves Sales, o Fogoió, Clodoaldo Carlos Batista e Amair Feijoli da Cunha foram condenados pelo crime. Como as penas de Bida e Rayfran ultrapassavam os 20 anos, eles tiveram direito ao segundo julgamento.
Marco Aurélio propôs o fim da regra. "Não vejo por que colocarmos em dúvida uma decisão judicial considerado o número de anos impostos em termos de pena. Esse duplo julgamento é inconcebível. Não há razão suficiente para esta norma, a não ser gerar essa perplexidade."
Na terça-feira, os jurados entenderam que não havia provas suficientes contra Bida. O depoimento de Rayfran pesou na absolvição: ele garantiu que planejou e executou o crime sozinho. E foi condenado a 28 anos de prisão.
DESACORDO
A Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência também criticou a absolvição, em nota assinada pelo ministro Paulo Vannuchi. "A secretaria, sem interromper sua postura de permanente respeito perante todas as instâncias do Judiciário, vem expressar veemente desacordo com a decisão. Ela reforça o sentimento de impunidade e se torna vetor de estímulo à criminalidade e à violência."
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) avisou em São Paulo que vai pedir cópia do processo à sua regional paraense, para verificar a possibilidade de pedir novo julgamento e ter um conselheiro da OAB como representante da acusação. Além disso, segundo o presidente Luiz Flávio Borges D'Urso, o caso será enviado ao Conselho Federal da Ordem, em Brasília.
Irmão reage: 'O que vou contar nos Estados Unidos?'
Moacir Assunção
O irmão da freira Dorothy Stang, David Stang, não conseguiu disfarçar sua indignação ao comentar a absolvição do fazendeiro Vitalmiro Bastos Moura, o Bida. "Como isso foi acontecer? Os argumentos do doutor Edson Souza foram melhores que os da primeira vez", disse, referindo-se ao promotor Edson Souza. "O que vou contar para meus irmãos, sobrinhos e outras pessoas interessadas no caso, nos Estados Unidos?", questionou, emocionado.
Com ar de choro, a irmã Júlia Depweg - americana e da Congregação Notre Dame, como Dorothy - disse que a absolvição chocou os religiosos e amigos da freira. "Eles mataram mais uma vez a irmã Dorothy com essa decisão", lamentou.
Com uma camiseta com a foto da irmã, David disse que Bida e os aliados saíram do julgamento rindo e comemorando. David e Júlia estiveram em São Paulo para pedir apoio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e da Assembléia na luta contra a impunidade no Pará.
Segundo Júlia, há quatro freiras da Congregação Notre Dame em Anapu e, embora não estejam sendo ameaçadas diretamente, o padre da paróquia tem recebido ameaças de morte. "A situação continua muito complicada. Três bispos da região estão jurados de morte pelos madeireiros e fazendeiros, há um enorme desmatamento em toda a área e uma grande sensação de impunidade, principalmente depois da absolvição do Bida", contou.
David disse que ama o Brasil, assim como sua irmã também amava, mas afirmou que não há como entender a absolvição do acusado de ser mandante do crime. "Até mesmo o promotor me disse que tem gente ligando para a casa dele para ameaçá-lo. Como ele pode fazer um bom trabalho se sua família corre riscos?" Edson Souza anunciou na própria terça-feira que vai recorrer da absolvição.
A deputada estadual Ana Perugini (PT) disse que a Assembléia paulista vai apoiar a luta contra a impunidade no Pará. Amanhã será inaugurado em Hortolândia, na região de Campinas, um parque em homenagem a Dorothy, que dedicou boa parte da vida à defesa do povo de Anapu (PA).
OESP, 08/05/2008, Nacional, p. A10
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