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Supertufão sacode COP-19

O Globo, Ciência, p. 29
12 de Nov de 2013

Supertufão sacode COP-19
Delegado filipino anuncia greve de fome em solidariedade aos dez mil mortos pelo Haiyan

MARIA CLARA SERRA
maria.serra@oglobo.com.br

RIO - A 19ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro da Organização das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-19) começou ontem em Varsóvia, na Polônia, em meio a uma polêmica envolvendo um evento internacional da indústria do carvão que acontecerá na mesma cidade justamente na semana decisiva de reuniões. No entanto, o grande foco do primeiro dia foram as Filipinas. Abalado pelo supertufão Haiyan, que pode ter feito mais de dez mil vítimas no país, Naderev Sano, delegado filipino na conferência, anunciou uma greve de fome até que "se vislumbrem resultados positivos".
A consternação que o emocionado discurso de Sano criou pode servir para sacudir as estruturas da conferência e fazer com que os mais de 190 países participantes se unam para criar as bases para o segundo período de compromissos do Protocolo de Kioto, a ser assinado na COP-21, em Paris.
- No ano passado eu estava na COP-18, em Doha, e descrevia para todos a tragédia do tufão Bopha, que matara mais de mil dos meus conterrâneos. Agora, tenho novamente que trazer notícias terríveis, com o Haiyan tirando a vida de pelo menos dez mil filipinos - disse Sano. - As mudanças climáticas significam que supertufões não serão mais eventos únicos a cada século. Temos que aceitar essa transformação e tentar nos preparar, pois estamos vendo essas tragédias anualmente.
O Haiyan é o terceiro tufão de nível 5, o maior da categoria, a atingir o país somente este ano. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) já havia alertado que a velocidade máxima do vento dos ciclones tropicais iria aumentar. Segundo a Organização Mundial de Meteorologia, os ciclones tropicais mataram quase 170 mil pessoas entre 2000 e 2010 e afetaram mais de 250 milhões, causando prejuízo econômico de US$ 380 bilhões.
Ainda há muitas discussões sobre o efeitos das mudanças do clima em eventos extremos, mas o fato é que eles estão aumentando e a proximidade da tragédia nas Filipinas com a COP-19 pode elevar o caráter de urgência do acordo global.
- Na abertura, muitas pessoas estavam falando sobre o tufão nas Filipinas e todos estavam emocionados. Isso pode ser bom para pressionar os negociadores - afirma Mark Lutes, especialista em Mudanças Climáticas do WWF-Brasil que acompanha as negociações na Polônia. - É claro que eles são profissionais e já chegam aqui com as propostas e estratégias, mas isso aumenta a pressão pública e política para que a conferência produza algum resultado.
Apesar de a conferência de Varsóvia ser vista apenas como uma preparação de terreno para a reunião de Paris, em 2015, e que selará as bases para o novo acordo global de redução da emissão de Gases do Efeito Estufa (GEE) que começa a valer em 2020, ela é estratégica. Isso porque muitos temem que se os principais pontos de embate entre os países não começarem a ser solucionados, em 2015 não haverá tempo suficiente para fechar um texto consensual.
- Uma das coisas mais importantes é a criação de um cronograma específico para resolução de certas questões, como o esforço que cada país fará e quando eles vão colocar suas cartas na mesa para que as metas e propostas sejam analisadas - avalia Lutes. - Outra coisa importante é aumentar a ambição das reduções para antes de 2020, pois na semana passada o Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) produziu novo relatório que mostra que para que a elevação da temperatura do mundo não passe de 2 graus Celsius precisamos reduzir as emissões em 14% até 2020.
Obstáculos para um acordo global
Os desafios, no entanto, são muitos. O primeiro é a pressão de setores como o petróleo para que as mudanças necessárias não saiam do papel. A falta de um mecanismo que estabeleça uma divisão obrigatória para o Fundo Verde do Clima e a discussão entre as "Responsabilidades comuns, porém diferenciadas", defendida pelo Brasil e que há anos tem colocado países desenvolvidos e em desenvolvimento em campos opostos, são as questões que mais geram discordância entre os países.
- Esses são os motivos pelos quais os Estados Unidos se recusaram a assinar o Protocolo de Kioto e que contribuem para que o mundo não chegue a um acordo - explica André Ferretti, coordenador-geral do Observatório do Clima (OC) que também está na Polônia para a conferência. - Não podemos mais empurrar com a barriga, pois uma não ação trará prejuízos para todos.
Se não bastassem todos esses fatores, a 19ª conferência acontece na Polônia, que tem mais de 90% de sua matriz energética dependente do carvão. Para piorar, o país organizou uma Cúpula do Carvão para a semana que vem, período tido como decisivo para a COP. Além disso, Christiana Figueres, chefe da Convenção do Clima da ONU, confirmou presença no evento, revoltando ambientalistas.

O Globo, 12/11/2013, Ciência, p. 29

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