OESP, Economia, p. B3
21 de Abr de 2008
'Subsídios milionários são como uma droga'
Para Lula, as maiores vítimas desse tipo de benefício são os produtores agrícolas dos países mais pobres
Tânia Monteiro, ACRA
No discurso de abertura da 12ª Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad), em Gana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comparou os subsídios pagos pelos países desenvolvidos aos agricultores a uma droga.
"Os subsídios milionários pagos pelos tesouros dos países ricos são como uma droga que entorpece e vicia seus próprios produtores, mas cujas maiores vítimas são os agricultores das nações mais pobres", afirmou Lula, em discurso lido ao lado do secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, que endossou suas teses.
Lula avisou que "é preciso estar alerta contra a tentação de países ricos de acentuar suas práticas protecionistas" e considerou "igualmente prejudiciais (aos países pobres) as iniciativas de perpetuar relações de dependência através da criação de entraves à expansão do comércio Sul-Sul".
Dando prosseguimento à cruzada que iniciou na Europa, na semana passada, de resposta aos ataques dos países desenvolvidos aos biocombustíveis, o presidente reiterou que "não há contradição entre a busca de fontes alternativas de energia e o desenvolvimento de padrões agrícolas que garantam a segurança alimentar". O presidente acrescentou que as estatísticas estavam aí para atestar a sua certeza, já que "os níveis de desnutrição no Brasil caíram ao mesmo tempo em que aumentou a produção e o uso do etanol, contribuindo para reduzir as emissões de CO2".
Lula tratou do tema por duas vezes ontem, em discursos, e na conversa com Ban Ki-Moon. Repetirá o discurso nas falas de hoje, quando se despedirá da Unctad e retornará ao Brasil, depois de três dias em Gana.
Ontem pela manhã, ao inaugurar a sede da Embrapa em Gana, que beneficiará com pesquisa todos os países africanos, Lula se confessou surpreso com a quantidade de adversários aos biocombustíveis, pois se trata de um "combustível verde", menos poluente, gerador de emprego e de desenvolvimento para os países pobres. "Eu imaginava que não iríamos ter muitos adversários no mundo desenvolvido", observou. "Afinal de contas, o mundo todo está de acordo que é preciso reduzir o aquecimento do planeta e a emissão do CO2."
Lula acusou os países desenvolvidos de "falta de sensibilidade" por sobretaxem o etanol brasileiro, mas não fazerem o mesmo com o petróleo, que ultrapassou a US$ 100 o barril (já se aproxima de US$ 120) e tem impacto no preço dos alimentos.
Lula disse ainda que só quer alertar que os países emergentes e pobres "têm a solução" para o problema do aquecimento global e uma fonte alternativa ao petróleo. Ressaltou ainda que, embora o Brasil seja hoje um grande produtor de petróleo, não abandonará o projeto dos biocombustíveis.
Lembrou, por exemplo, que Gana já está produzindo 150 milhões de metros cúbicos de etanol e a produção dos próximos dez anos está toda vendida para a Suécia. Essa experiência, comentou, poderia ser repetida por outros países africanos.
DOHA
No discurso na Unctad, Lula ressaltou a importância do G-20 e afirmou ser uma "tarefa inadiável" alcançar êxito nas negociações da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). "O sistema multilateral de comércio deve contribuir - e contribuir já - para um desenvolvimento eqüitativo, baseado em regras não-discriminatórias", afirmou Lula.
Ao destacar que o intercâmbio entre os países do Sul diminuiu sua dependência em relação aos países do Norte, Lula disse que, com isso, o Brasil reduziu a vulnerabilidade de sua economia .
OESP, 21/04/2008, Economia, p. B3
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