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SP precisa de 48,5 km de corredores verdes, mostra estudo da USP

OESP, Metrópole, p. C1, C3
23 de Abr de 2011

SP precisa de 48,5 km de corredores verdes, mostra estudo da USP

Felipe Frazão

São Paulo precisa de pelo menos 48,5 quilômetros de corredores verdes urbanos - ruas e avenidas com árvores de grande porte plantadas em sequência, em calçadas ou canteiros centrais das vias. É o que aponta pesquisa da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ-USP). A malha proposta no estudo iria do Parque Villa-Lobos, em Pinheiros, zona oeste, até o Tatuapé, na zona leste.
A gestora ambiental Juliana Amorim da Costa, de 25 anos, autora do projeto apresentado no fim do ano passado como dissertação de mestrado em Ciências na Pós-graduação em Recursos Florestais, ainda sugere o plantio de espécies típicas, como a sibipiruna (de até 25 metros de altura) e a tipuana (de até 15 metros). "Nesses espaços ainda poderiam ser criadas áreas de lazer para a população", defende.
Os corredores foram planejados para ligar áreas verdes (parques e praças, por exemplo), naturais ou criadas pelo homem, já existentes na capital paulista. A pesquisadora não estabeleceu um roteiro com precisão de ruas, mas disse que é possível imaginar um caminho aproximado.
A rota surgiu do cruzamento de informações e dados geográficos, como a maior declividade do terreno e o menor índice de cobertura vegetal, obtidos a partir da análise de imagens de alta resolução registradas por satélites (veja a proposta na página C3).
Pelo estudo, os bairros paulistanos com mais urgência no plantio de árvores são Água Rasa, Mooca e Bela Vista. Foram levados em conta apenas os bairros localizados nas áreas das Subprefeituras da Mooca, da Sé e de Pinheiros, por apresentarem, segundo a investigação de campo realizada por Juliana, características diferentes em cobertura vegetal. Mooca e Sé, além de estarem na região central, fazem parte da mancha vermelha do Atlas Ambiental do Município de São Paulo, onde há pouca ou nenhuma vegetação. Na zona oeste, Pinheiros, por sua vez, tem parques amplos e ruas mais arborizadas.
Ilhas de calor. Caso as árvores fossem plantadas hoje, os efeitos benéficos da presença delas - capacidade de reter água da chuva e amenizar fenômenos climáticos como as ilhas de calor - ainda demorariam de quatro a cinco anos para serem percebidos pela população.
Esse é o tempo médio de crescimento para as espécies chegarem à fase adulta, segundo informações da Divisão de Arborização da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (Depave2).
"A grande vantagem dessa arborização de porte no meio da malha urbana é que você traz benefícios para toda a cidade e não fica concentrado somente em alguns pontos", afirma o arquiteto paisagista Paulo Pellegrino, vice-coordenador do Lab-Verde da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

Plantio cresceu, mas centro é carente
SP ganhou 541 mil árvores em 2010, mas maioria da vegetação está nas extremidades

Felipe Frazão

Com o Programa de Arborização Urbana, lançado em 2005, a Prefeitura de São Paulo tomou o trabalho de contratação de equipes de plantio e recuperação, antes de responsabilidade das subprefeituras. Desde então, segundo a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, o plantio passou de 38.855 árvores em 2005 para 541.043 no ano passado. Mas os especialistas alertam que não basta plantar aleatoriamente: é preciso um plano que privilegie a mancha urbana e ligue áreas remanescentes de mata nativa.
Para Cecília Herzog, presidente do Instituto de Pesquisas em Infraestrutura Verde e Ecologia Urbana (Inverde), é essencial um manejo preventivo contra a desarborização. "Tem de existir um plano de substituição das árvores. Se numa rua elas estão prestes a morrer, deve-se procurar outros pontos de plantio para novas árvores."
"Parece que fazer avenidas e piscinões é sempre mais importante. A vegetação é tão importante quanto", diz Paulo Pellegrino, do Lab-Verde da USP. "A cidade perdeu vegetação. As árvores foram substituídas por espécies de pequeno porte."
O presidente da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana (SBAU), José Ricardo Martins da Silva, diz que as prefeituras têm de manter um corpo técnico preparado para manter as árvores urbanas, com podas frequentes. É um custo alto, mas "um investimento positivo."
Mapa. Segundo o Atlas Ambiental de São Paulo, de 2002, 48% da área da cidade é "carente em arborização e áreas verdes". A Secretaria do Verde e do Meio Ambiente afirma que 40% do território de São Paulo é coberto por vegetação. No entanto, grande parte está nos extremos do município, como em Parelheiros e Marsilac, na zona sul, e na Serra da Cantareira, na zona norte. Para os especialistas, o ideal seria que 30% da malha urbana tivesse cobertura de copas de árvores.
A secretaria informa que criou um grupo de trabalho para análise, estudo e a criação do programa de arborização dos corredores de veículos, para diminuir a poluição sonora. Nos distritos Sé e República está em andamento um levantamento do equipamento viário, parte do Programa de Reabilitação da Área Central da Cidade (Procentro). As vias que forem identificadas como mais carentes de cobertura vegetal vão entrar no Plano de Arborização Urbana.

Três perguntas para ..

José Ricardo Martins da Silva, Presidente da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana

1.Por que faltam áreas verdes nas metrópoles brasileiras?

As cidades não são o meio natural do desenvolvimento de árvores. Não é em todo lugar que há condições de plantar árvores, por conta do porte da árvore em relação ao espaço físico, da largura das calçadas, interferência das redes elétricas, e edificações construídas sem recuo.

2. A arborização urbana consegue fazer a manutenção da biodiversidade dentro das cidades?

Consegue se você tem áreas com maior expressividade recompostas com vegetação nativa - parques, reservas, a chamada floresta urbana. Há espaços para pássaros e até para pequenos mamíferos, como marsupiais, micos, preguiças e saguis.

3. Como a arborização em calçadas e vias de locomoção afeta a população urbana?

O benefício maior é a amplitude térmica. Há uma diferença de temperatura de 8oC ou mais. As árvores podem reduzir a poluição atmosférica e há a beleza cênica. O verde é repousante, tranquilizante, faz bem psicologicamente ao ser humano.

Cobertura vegetal ajuda a conter as enchentes de SP

Felipe Frazão

O relatório final da pesquisa da USP conclui que a quantidade de árvores influencia nas condições climáticas dos bairros, como o conforto térmico proporcionado pelas copas e a umidade do ar. "Há funções estéticas, recreativas e ecológicas, como o aumento da permeabilidade do solo, que reduz os pontos de alagamento", diz a autora Juliana Amorim.
O professor Paulo Pellegrino, do Lab-Verde da USP, relata que as copas de árvores altas se juntam acima da fiação elétrica e formam um dossel, capaz de reter água e retardar o impacto da chuva no chão, além de amenizar as temperaturas sob a sombra. "Trata-se de uma cobertura vegetal importantíssima e muito viável, porque o espaço aéreo está ocioso. Qualquer coisa que ajude a cidade a suportar as chuvas é muito útil."
"A árvore só atinge o potencial máximo de drenagem pelo tronco e raízes se não estiver num canteiro fechado com cimento até a base. E o solo precisa ser permeável", afirma a paisagista Cecília Herzog, do Inverde.

LÁ TEM...
Boston (EUA)
Corredores verdes para reduzir a poluição surgiram no século 19.
Stuttgart (Alemanha)
Plano semelhante foi criado por causa da industrialização.
Lisboa (Portugal)
A capital portuguesa tem avenidas com parques lineares.
Maringá (PR)
Planos diretores previam expansão com plantio de árvores.
Porto Alegre (RS)
Tipuanas da década de 1930, jacarandás e epífetas integram o patrimônio natural e ecológico.

OESP, 23/04/2011, Metrópole, p. C1, C3

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110423/not_imp709719,0.php
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110423/not_imp709733,0.php
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110423/not_imp709734,0.php

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