OESP, Vida, p. A34
15 de Mar de 2008
SP lista maiores emissões de CO2
Indústria libera 38 milhões de toneladas do gás-estufa por ano; nomes de empresas serão informados em 30 dias
Cristina Amorim
Cem empresas concentram praticamente toda a emissão de CO2, o mais potente gás do efeito estufa, que sai da indústria paulista, calculado em 38 milhões de toneladas por ano. Cinco, apenas, respondem por 60% do volume total, segundo dados divulgados ontem pela Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo, em um evento no Parque do Ibirapuera.
As cinco são: uma siderúrgica, três refinarias e uma petroquímica. Os nomes e a localização não foram divulgados. O secretário Xico Graziano promete o anúncio em até 30 dias, com a presença de seu antecessor, José Goldemberg - quem originalmente sugeriu a compilação dos dados no ano passado, quando já estava fora do cargo.
A emissão é dividida entre a queima de combustível, para alimentar a planta industrial, e a produção em si. Neste ponto, Graziano afirma que a notícia é positiva: o uso de fontes renováveis é de 77%.
Quem mais emite são justamente aqueles cuja natureza do negócio pressupõe uma taxa alta de emissão de CO2, devido à matéria-prima (como petróleo, um combustível fóssil) ou ao processo de produção (que tem o gás como subproduto). Em primeiro está a indústria de aço e ferro-gusa, que responde por 39% das emissões. Depois está a indústria petroquímica, com 25%.
A informação vem do próprio setor, especificamente de 329 empresas convidadas pela secretaria a participarem do inventário de emissão industrial do Estado - 42 não responderam e têm 15 dias para fazê-lo, antes do anúncio dos nomes.
Os dados são coletados no site da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) e fornecidos pelo próprio empresariado. O cálculo segue metodologia empregada pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).
IMPACTO
O diretor do conselho de meio ambiente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Nelson Pereira dos Reis, nega que a entidade tenha auxiliado a secretaria no levantamento, como afirmou Graziano. Ele considera que o anúncio "dá uma conotação de condenação" e "quando se faz a conta (do total das emissões nacionais) e compara com a emissão das cem empresas, a gente vê que é nada".
A principal fonte de emissão brasileira é a conversão dos solos, especialmente o desmatamento na Amazônia e no cerrado - só de CO2, foram 776 bilhões de toneladas em 1994, segundo o único inventário nacional de emissões. Em São Paulo, o setor de transporte paulista ultrapassou a indústria e hoje é a primeira contribuição do Estado para o agravamento do efeito estufa: são 43 milhões de toneladas por ano de CO2.
APLICAÇÃO
O secretário do Meio Ambiente diz que pretende conversar com o setor para reduzir o volume de emissões. Ele refuta a criação de incentivos fiscais para que a indústria invista em um processo "mais limpo". "Os empresários sempre querem isenção fiscal para fazer a lição de casa. Temos de encontrar outros mecanismos que não onerem o contribuinte", disse. "Talvez para a geração de tecnologia o governo tenha de contribuir. Mas não na questão tributária."
A Fiesp, por sua vez, diz ter planos de incentivar metas - voluntárias - de corte das emissões industriais de gases-estufa, mas não tem prazo para colocar a idéia em prática. Reis afirma que a indústria de São Paulo realmente não precisaria de incentivos fiscais, uma vez que a redução seria uma conseqüência do investimento em eficiência energética e produtiva.
Segundo o diretor de campanhas do Greenpeace, Marcelo Furtado, presente no evento, alguns setores podem reduzir suas emissões com o investimento em eficiência energética e em novas tecnologias, mas em outros o corte seria limitado pelo tipo de produto. "Agora cabe uma reflexão política: que tipo de indústria o Estado quer, e o País quer?"
OESP, 15/03/2008, Vida, p. A34
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