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SP já depende mais do Guarapiranga

OESP, Metrópole, p. A15
10 de Mar de 2015

SP já depende mais do Guarapiranga
Represa produziu 460 litros/s a mais do que o Cantareira em fevereiro e ultrapassou número de pessoas abastecidas em 200 mil

Fabio Leite - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Após quatro décadas de existência - e um ano da pior seca da história -, o Cantareira perdeu o lugar como maior produtor de água de São Paulo para o Guarapiranga. Em fevereiro, a represa situada na zona sul da capital paulista conseguiu produzir 460 litros por segundo a mais do que o manancial em crise e passou a atender cerca de 5,8 milhões de pessoas, 200 mil a mais do que o Cantareira, de acordo com a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp).
Antes da crise, o sistema inaugurado em 1973 produzia cerca de 31.770 litros por segundo e era responsável por abastecer 8,8 milhões de pessoas na Grande São Paulo, ou 47% da população da região e mais de 70% da capital. À época, o Guarapiranga, que começou a operar em 1929, atendia uma população de aproximadamente 4 milhões, menos de um quarto do total, principalmente na zona sul paulistana.
Conforme dados da Sabesp, no mês passado a produção do Cantareira chegou a 14.030 litros por segundo, 56% a menos do que em fevereiro de 2014, quando a companhia iniciou as ações de enfrentamento da crise, declarada no dia 27 de janeiro. A redução de 17.740 litros por segundo seria suficiente para abastecer cerca de 5,3 milhões de pessoas durante o mês, em condições normais.
O Guarapiranga, por sua vez, não foi afetado pela seca e manteve-se em nível de segurança durante todo o período da crise. Nesta segunda, o manancial chegou a 69,3% da capacidade, após alta de 1,6 ponto porcentual.
Zona sul. O avanço do Guarapiranga sobre a região antes abastecida pelo Cantareira começou em bairros da zona sul da capital, como o Brooklin, e mais recentemente chegou até a região da Avenida Paulista, na parte central do Município, e Pinheiros, na zona oeste, sempre segundo a companhia estadual. Esses bairros, com clientes mais de classe média e alta, consomem mais água do que os bairros da periferia.
De acordo com a empresa estatal, até meados do ano passado, cada 1 mil litros por segundo eram suficientes para abastecer cerca de 300 mil pessoas. Agora, afirma, a mesma quantidade atende 400 mil pessoas, em média, na região metropolitana. "Como a Sabesp fornece água por menos tempo, com a redução da pressão e o fechamento da rede, ela diminui a quantidade de água por habitante por dia. Desta forma, esse metro cúbico (mil litros) consegue abastecer mais gente hoje", explica o engenheiro hidráulico José Roberto Kachel.
Em toda a região metropolitana, a produção de água caiu 21.400 litros por segundo, o que daria para atender 6,3 milhões em condições normais e 8,5 milhões de pessoas atualmente. Esses números só puderam ser alcançados graças à economia de água pela população, que chegou a 6 mil l/s em fevereiro, e, principalmente, à redução da pressão e ao fechamento da rede durante grande parte do dia, medida que provoca longos cortes no abastecimento e, segundo o presidente da Sabesp, Jerson Kelman, "não é um racionamento sistemático".
A redução na produção do Cantareira ao menor patamar em fevereiro e as chuvas mais de 60% acima da média histórica permitiram que o nível do manancial voltasse a subir após 21 meses consecutivos de queda. Com a combinação, o sistema subiu 6,6 pontos porcentuais e recuperou a segunda cota do volume morto.

Secretário compara situação de crise a uma 'guerra'

Uma autoridade do governo do Estado voltou a comparar a crise hídrica em São Paulo a uma guerra. Em entrevista ontem ao programa Roda Viva, da TV Cultura, o secretário de Saneamento e Recursos Hídricos, Benedito Braga, afirmou que é "importante entender que estamos vivendo uma situação de guerra, de difícil previsibilidade". Em janeiro, antes de assumir como presidente da Sabesp, Jerson Kelman havia dito que as obras anunciadas a médio prazo pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB) para aumentar a oferta de água na Grande São Paulo deveriam ser tratadas como "ações de guerra".

Mesmo com multa, 19% gastam mais água

Mesmo com a aplicação de multa, 19% dos consumidores aumentaram o consumo de água em fevereiro, segundo a Sabesp. A sobretaxa, que entrou em vigor em janeiro e passou a valer nas contas de fevereiro, leva em consideração o consumo mensal que ultrapassa a média do período entre fevereiro de 2013 e janeiro de 2014.
A sobretaxa é de 40% sobre o total da tarifa para aumento de consumo de até 20% da média. O acréscimo sobe para 100% se o consumo for superior a 20%. Segundo a Sabesp, dos clientes que ultrapassaram a meta de consumo de água, 7% gastaram menos de 10 metros cúbicos e não "foram enquadrados".
No programa de bônus, que completou um ano também no mês passado, a companhia diz que houve adesão de 81% dos clientes, dos quais 71% ganharam o bônus. A faixa de 30%, oferecida para redução de consumo maior do que 20% foi atingida por 60% dos consumidores.
Coordenadora da Rede das Águas da ONG SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro disse que os dados de aumento de consumo de água são preocupantes. "Está grande. As pessoas, infelizmente, têm achado que, porque está chovendo, a situação voltou ao normal. É uma falsa sensação de conforto."
Malu diz ainda que o número pode ter relação com o fim do período de festas e de férias. "Tem de ver se as pessoas realmente aumentaram o consumo ou se estavam de férias e voltaram para casa. Pode ser uma tendência de ter relaxado (por causa das chuvas), pode ser um problema técnico de medição, como o ar no hidrômetro, ou a economia mascarada por causa das férias. É período atípico." A coordenadora afirma ainda que é preciso manter os hábitos de economia.

OESP, 10/03/215, Metrópole, p. A15

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