O Globo, Economia, p. 24
Autor: LEITÃO, Míriam
14 de Out de 2004
Soja polêmica
Miriam Leitão
A soja transgênica já está sendo plantada no Rio Grande do Sul, segundo informou o presidente da Federação da Agricultura do estado, Carlos Speroto. Ele disse que o ministro da Agricultura incentivou-os a isso. Na opinião do professor John Wilkinson, da UFRRJ, este é o pior dos mundos, com os transgênicos ocupando espaço sem regulamentação.
Wilkinson, que pesquisou o "Agronegócio e a tecnologia no contexto da globalização", acha que o assunto deveria ser decidido tendo em vista a demanda e o interesse do consumidor:
- Há uma evidente desconfiança em relação ao mal que os produtos transgênicos podem causar à saúde. A China e a Europa têm barreiras. O produto não pode ser imposto.
- Ele também não pode ser proibido - diz Speroto.
Entrevistei os dois na Globonews e ambos têm bons argumentos. Speroto acha que a soja transgênica é uma realidade, não contamina o meio ambiente, não é prejudicial à saúde e já está sendo plantada. Chama o contrabando de semente - origem da plantação no Rio Grande do Sul - de "comércio de fronteira".
Wilkinson diz que não há qualquer garantia de que os transgênicos não façam mal à saúde, que é grande o risco de contaminação da soja convencional pelos transgênicos, que os ganhos de produtividade são discutíveis e temporários e que é urgente certificar e rotular os produtos transgênicos para dar ao consumidor o direito de escolha.
Speroto afirma que a Organização Mundial de Saúde já informou, em 2003, que a soja transgênica não causa dano à saúde. Wilkinson duvida que ela seja segura:
- Ainda há muita pesquisa a fazer antes de dizer que é segura. Na Europa, todos os transgênicos diretamente levados ao consumo humano foram tirados do mercado. No Canadá, o departamento de trigo avisou à Monsanto que não quer transgênico; mesmo nos EUA, 37% das mulheres disseram que não iam dar transgênico aos seus filhos.
- Isto significa que 63% vão dar - calcula Speroto.
- Democracia é respeitar o direito das minorias, por isso eu sou a favor da rotulagem - diz Wilkinson.
- Queremos isto também: livre opção de plantio, livre opção de consumo - afirma Speroto.
- Os EUA, em todos os acordos internacionais, resistem fortemente à rotulagem - comenta Wilkinson.
- Lá, 95% do produto são transgênicos, então não precisa nem rotular - argumenta Speroto.
Mas será que o Brasil não está perdendo uma oportunidade de abastecer os mercados que não aceitam o produto modificado? O Brasil é supercompetitivo; a Embrapa já desenvolveu cultivares para todos os climas do país e, neles, mantivemos nossa competitividade. Foi o que perguntei a Speroto.
- Mas aí o estado democrático que o professor prega não estará sendo obedecido. Comungo da informação ao consumidor. Mas cada produtor deve poder trabalhar com soja convencional, transgênica ou orgânica - respondeu-me.
Speroto reclama que a margem de ganho do produtor está caindo muito. Wilkinson discorda:
- O transgênico começou nos EUA em 96; de 97 para cá, o Brasil dobrou a produção e aumentou a participação no mercado internacional basicamente com soja convencional. Mostrou competitividade sem transgênicos durante todo o período em que os EUA usaram o transgênico.
O professor diz que o produtor que quer soja convencional acaba sendo contaminado pela produção do vizinho que usa transgênico. Speroto não acredita nisso. Segundo ele, a fecundação é fechada e não há risco de contaminação. O empresário não acredita também que haja risco ao meio ambiente. Garante até que, desde que começou a ser plantada no Rio Grande do Sul, há 80 anos, a soja produziu uma melhora da qualidade do solo:
- Gostaria que a ministra Marina desse a oportunidade a algum produtor de lhe mostrar isso - diz Speroto.
- Riscos tem, isso é evidente. A avaliação do risco ambiental da Monsanto na Bolsa é CCC, a pior que existe. Um relatório da Monsanto aos acionistas de 2002 diz que a contaminação é inevitável. A maior entidade de seguros da Inglaterra se recusa a dar seguro para dano dos transgênicos ao meio ambiente. Portanto, o mundo real, financeiro, já decidiu que há riscos - rebate Wilkinson.
Speroto conta que, no Brasil, uma lei de 95 liberou a soja transgênica. Uma liminar do Greenpeace e do Idec suspendeu a vigência. Recentemente o mérito foi julgado a favor dos produtores, apesar disso, a liminar continua em vigor, o que é totalmente irregular do ponto de vista jurídico. Ele acusa o governo de retardar a definição para empurrar a aprovação da MP 192, que permite a emissão de TDA para a compra de áreas rurais invadidas.
- O produtor já está plantando a safra deste ano e o ministro disse que se fique tranqüilo porque será permitido - afirma o empresário.
- Antes de plantar, o Brasil deveria implantar os protocolos. A produção transgênica no Sul foi feita de forma clandestina, sem controle fitossanitário, sem avaliação de meio ambiente, sem indicar as condições para o cultivo. Agora está indo para o Norte, o Nordeste, o Cerrado. O Brasil poderia ter agricultura diferenciada, aproveitando o mercado de orgânicos e de produto convencional de maior valor agregado e não vai ter - diz Wilkinson.
Independentemente de quem tenha razão, o inegável é que, de novo, o governo errou, por não conseguir sair da mesma ambigüidade com que trata todas as questões controversas.
O Globo, 14/10/2004, Economia, p. 24
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