CB, Opiniao, p.15
Autor: TORTELLI, Altemir
21 de Mar de 2005
Soja mina de ouro ou buraco sem fundo?
Altemir Tortelli
Coordenador geral da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul, membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e do Consea
Os agricultores familiares do Sul do país foram forçados pela seca a acordar de um sonho de várias gerações reavivado nos últimos anos: o de enriquecer com a soja. Não há como negar que o produto tem sido o filão de ouro da agricultura brasileira. Um dos responsáveis pelos sucessivos superávits na balança comercial. Mas a que preço? O Brasil inteiro acompanhou nos últimos dias o agravamento da seca na região Sul e os prejuízos nas lavouras. Quase 600 municípios entraram em situação de emergência.
E por que isso está acontecendo? A história começa na década de 70, com a Revolução Verde, a mecanização intensa, o uso de insumos químicos e o estímulo às culturas de exportação, em especial a soja. O modelo da monocultura tornou-se um dos motores não só da falência e da exclusão, mas do empobrecimento dos agricultores, da concentração das terras e da degradação do meio ambiente. Na década de 50, o agricultor do Sul produzia milho, mandioca, trigo, feijão, criava seu rebanho e metade da sua terra era coberta pela mata. A propriedade assumia múltiplas funções, garantindo a sobrevivência da família e, o que é melhor, preservando as fontes de água, os rios e a cobertura de mata.
A soja conseguiu desmontar tudo isso. Grande parte dos agricultores familiares caiu no conto do enriquecimento fácil, adotou a monocultura e passou a comprar na cidade o que antes produzia. Mas os beneficiados foram apenas os grandes empresários agrícolas e os complexos agroindustriais. Os agricultores familiares que aderiram a esse modelo de produção se endividaram com os financiamentos para comprar trator, insumos, calcário etc. O sonho de ficar rico teve efeito contrário o empobrecimento.
Há cinco anos, associando a tecnologia dos transgênicos ao aumento do preço da soja no mercado internacional, o modelo da monocultura inaugurou um novo ciclo muito mais forte e nocivo. Com a crise da safra americana, o aumento da procura de soja na Europa e o novo mercado da China, o preço do produto dobrou. O agricultor familiar, que na década de 80 havia retomado um sistema mais diversificado de produção, caiu novamente no conto do milagre. E desta vez ele veio com atrativo especial: a semente transgênica, que as empresas vendedoras apregoavam ter alta produtividade, menor custo e ser livre de pragas. O agricultor só teria que comprar as primeiras sacas e, depois, ele mesmo reproduziria as sementes.
Com tantas vantagens, muitos acabaram com o que ainda restava de mata em sua propriedade para plantar soja. E hoje se arrependem. A Monsanto começou cobrando R$ 0,60 por saca de 60kg. Em apenas um ano dobrou o valor, exigindo R$ 1,20. E o pior é que numa situação adversa, como a estiagem, a soja transgênica se revelou muito mais frágil. Quem anda 100 quilômetros pelas estradas do Rio Grande do Sul, hoje, não vê mata. É só soja! Será que os 42 graus de temperatura registrados neste verão no estado não têm nada a ver com o estrago causado pela monocultura? Tenho certeza que sim. E o mesmo desequilíbrio poderá acontecer na Amazônia, onde a soja avança agressivamente.
A 1ª Conferência do Fórum Sobre Soja Sustentável é ótima oportunidade de mostrar ao Brasil e ao mundo as conseqüências da monocultura para o ser humano e o meio ambiente. O modelo dominante de cultivo da soja não tem sustentabilidade. Não resolveu o problema da fome nem mesmo aqui no Brasil. A Conferência reúne em Foz do Iguaçu agricultores, empresários, comerciantes, consumidores e instituições internacionais. É necessário que a discussão sobre soja abra espaço para um debate mais amplo sobre um modelo agrícola e agrário sustentável.
Temos que falar ao mundo sobre a urgência de preservarmos a Amazônia e o cerrado, mas também sobre a importância de um modelo de desenvolvimento sustentável que inclua os anseios, os direitos e os deveres da sociedade. O Brasil precisa produzir soja sim, mas de qualidade, respeitando o meio-ambiente e assegurando uma renda justa ao produtor. E o mundo deve compreender que para suprir sua demanda por alimentos de qualidade, o modelo de desenvolvimento tem que ser outro.
CB, 21/03/2005, p. 15
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