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A soja e o desmatamento da Amazônia

GM, Opinião, p. A3
Autor: MELO, Fernando Homem de
21 de jun de 2005

A soja e o desmatamento da Amazônia

A planta chegou ao Mato Grosso porque é um caso de extraordinário sucesso. A divulgação pelo Ministério do Meio Ambiente da área desmatada na região amazônica, de 2,6 milhões de hectares, provocou reações extremamente negativas, iradas e ideológicas na mídia brasileira e, principalmente, na mídia internacional por parte de jornalistas, autoridades públicas, ambientalistas extremados e representantes de ONGs. As reações maiores foram com relação à floresta (meio ambiente), à soja, à pecuária e contra o empresário e governador de Mato Grosso, Blairo Maggi. Vejamos alguns exemplos: de John Sauven, líder do Greenpeace (IstoÉ Dinheiro, 1/6/2005): "Eles estão transformando a floresta tropical em pastagens. É asqueroso". Na mesma revista, Peter Mandelson, comissário europeu de comércio, salientou a característica da floresta amazônica como um "bem público" e a necessidade de se evitar sua destruição. Ainda no exterior, os jornalistas Michael McCarthy e Andrew Buncombe publicaram no jornal Independent, reproduzido na Folha de S. Paulo de 21 de maio passado, o artigo "Aumento no desmate segue explosão da soja". Será? Nele, eles afirmam: "O homem que mais do que qualquer outro representa as forças que estão fazendo isso acontecer é Blairo Maggi, o fazendeiro milionário e político irredutível que preside a explosão brasileira na produção de soja. Ele é conhecido no Brasil como o "rei da soja". Pode o sucesso empresarial em uma difícil região de fronteira ser desmoralizado a esse ponto? Quais os interesses envolvidos nessa desmoralização? O Corriere Della Sera afirmou que "a Amazônia está morrendo". Será? Entre nós não foi diferente. Expressões como a "monocultura da soja" e, mesmo, a "praga da soja" apareceram em nossa mídia escrita. Mesmo o premiado jornalista Marcelo Leite da Folha de S. Paulo, após viajar à Novo Progresso, Alta Floresta e Vila Rica a convite do Greenpeace, escreveu: "Em Novo Progresso, mesmo sem pousar é fácil perceber que só contam por ali duas atividades econômicas: gado e madeira. Com a soja que viceja mais para o sul, completam o trio infernal de commodities que está levando o desmatamento da Amazônia a níveis recordes". (Folha de S. Paulo 19 de maio de 2005). Por que infernal? Em absoluto, sem defender o desmatamento ilegal, seja da floresta, seja do cerrado/zona de transição, quem atenderá às demandas, interna e externa, de pobres e ricos, de carne bovina e móveis? E as oportunidades de renda e emprego? Aliás, isso nos leva a um dos pontos deste artigo. Ao divulgar dados brutos de desmatamento na Amazônia, o Ministério do Meio Ambiente pode estar, pelo menos em parte, provocando essas reações iradas e ideológicas, talvez preconceituosas. Cabem, nesse contexto, as perguntas: a) qual foi o desmatamento na floresta amazônica e, complementarmente, na zona de transição (cerradão)?; b) qual foi o desmatamento legal e o ilegal? Isso porque a atividade econômica é legalmente permitida em partes variáveis dessas regiões. Por exemplo, na mesma Folha de S. Paulo de 19 de maio o governador Blairo Maggi afirma que seu governo autuou 94% dos desmatamentos ilegais. Mais ainda, ele disse: "Aqui no estado 790 mil hectares foram desmatados (ano passado) de forma irregular em pequenas propriedades. Ocorreu na região noroeste de Mato Grosso, onde há grande invasão de quem vem de Rondônia e do Amazonas". E a soja? É culpada, é monocultura? O recente e competente trabalho de A. S. Pessoa Brandão, Gervásio Castro de Rezende e Roberta W. da Costa Marques, "Crescimento Agrícola no Período 1999-2004, Explosão da Área Plantada com Soja e Meio Ambiente no Brasil" (Ipea, Texto para Discussão n 1.062) concluiu o seguinte: "Ao sugerir que essa expansão da área com soja se tenha dado, preponderantemente, através desse mecanismo de conversão de pastagens, e não através de incorporação – no mesmo período – de áreas virgens (seja de cerrado, seja de floresta amazônica), este trabalho pretende mostrar que as possibilidades de expansão da produção de soja no Brasil são muito amplas, e não se deve temer que, dessa expansão, surja uma nova ameaça à preservação do meio ambiente, seja no cerrado, seja na Amazônia. Na realidade, esse trabalho vai mais longe e propõe não haver razões para se temer que a expansão de área com a soja ameace a política ambiental brasileira". Portanto, nada contra o asfaltamento da BR-163. E o programa Avança Brasil, onde está? O atual governo tem o Plano de Desenvolvimento Sustentável para a área da BR-163 (Cuiabá-Santarém). Para concluir. Blairo Maggi faz parte de uma família de pioneiros no sentido mais positivo da palavra, isto é, empreendedores em condições adversas. Muitas outras famílias migraram da região Sul nos anos 70 e 80: as famílias, entre outras, Sachetti, Vuaden, Pivetta (Otaviano Pivetta, ex-prefeito da cidade modelo de Lucas do Rio Verde) são aqui lembradas em nome de todas as outras que desbravaram e estão desbravando os cerrados/cerradão em difíceis condições e com precária infra-estrutura. A soja chegou a Mato Grosso porque na história da agropecuária brasileira ela é um caso de extraordinário sucesso (não é monocultura), que merece todo o respeito dos brasileiros urbanos. No triênio 1961/63 o Brasil plantou apenas 298 mil hectares com soja. Agora em 2005 seriam 22.319 mil hectares. Graças a esses pioneiros, aos governos e à Embrapa. É isso ruim ou bom para o Brasil e o seu povo? Cuidado com as tentativas, internas e externas, de desmoralização dessa atividade! Poderemos sair como perdedores.

Fernando Homem de Melo - Professor da FEA-USP.

GM, 21/06/2005, Opinião, p. A2

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