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Sobre peixes, cavalos e gente gorda

OESP, Aliás, p. J6
05 de Nov de 2006

Sobre peixes, cavalos e gente gorda
Uma série de verdades inconvenientes revelam a que ponto pode chegar o estrago provocado pelo aquecimento global

Sérgio Augusto

Vieram de enxurrada: uma notícia atrás da outra. Todas interligadas. Todas péssimas. O aquecimento global pode reduzir a economia mundial em 20% nos próximos 50 anos. A pesca predatória pode acabar com toda a fauna e flora dos oceanos antes de 2060. Os cavalos selvagens do litoral holandês estão sendo encurralados, ilhados e afogados pela elevação do nível do mar, provocada pelo efeito estufa. O vinho não é apenas bom para o coração, mas o mais eficaz remédio contra o envelhecimento e diversas deficiências orgânicas.

Ora, direis, a última notícia é alvissareira. É e não é. Ao prometer que o consumo, em doses elevadas, do resveratrol (a substância natural encontrada no vinho tinto) pode substituir com ganhos qualquer regime alimentar, a equipe da Escola de Medicina de Harvard responsável pela pesquisa liberou o consumo conspícuo de gorduras, carboidratos e tudo mais que engorde o ser humano. Tomado no vinho ou, daqui a algum tempo, em comprimidos, o resveratrol promete assegurar aos obesos uma vida tão saudável e longa como a dos que são magros ou mantêm uma alimentação frugal. Gordos e comilões poderão continuar balofos, onívoros e glutões. Isso é um perigo. Os obesos afetam o equilíbrio ecológico do planeta. Essa foi outra má notícia da semana passada.

Sabia-se que eles ocupam mais espaço, são um problema de saúde pública e, porque fazem mais cocô, sobrecarregam os esgotos. Um casal de pesquisadores acaba de revelar, na revista The Engineering Economist, que as pessoas adiposas são co-responsáveis pelo aquecimento global. Elas gastam mais gasolina e, por conseguinte, aumentam a carga de CO2 (dióxido de carbono) na atmosfera terrestre. Só os americanos ganharam, em média, mais cinco quilos na década passada, o que resultou num consumo adicional de 3,785 bilhões de litros de gasolina (em carros particulares) e mais 1,325 bilhão de litros de combustível (em aviões). Vale dizer, um acréscimo de 3,8 milhões de toneladas de CO2 na camada de ozônio.

Nesse ritmo, os ursos polares (e não só os ursos polares) vão desaparecer, o mar vai mesmo virar sertão (e, finalmente, deserto), não sem antes fazer do filme O Dia Depois de Amanhã uma profética fantasia. Tomar medidas para conter a emissão de gases do efeito estufa sai bem mais em conta (1% do PIB mundial) do que deixar tudo como está (20% do mesmo PIB). Mas como mudar a cabeça do big business? E a consciência dos líderes políticos dos países que mais contribuem para o aquecimento global?

Bush não assinou o Protocolo de Kyoto, péssimo exemplo seguido pela China e a Índia, há dias invocadas pelo secretário do Tesouro da Austrália para justificar a recusa daquele país a também subscrevê-lo. Se a eleição de Al Gore não tivesse sido garfada, teríamos hoje na presidência dos EUA um lutador incansável contra os efeitos do aquecimento global, não um preposto da indústria de petróleo e outros poluentes, empenhado em desautorizar ou mesmo censurar (como fez com um relatório do respeitado climatologista James Hansen) quem acredita que o desastre climático é uma realidade, um fato indiscutível, cientificamente comprovado todos os dias.

Enquanto Bush se desmoraliza política, moral, ecológica e militarmente, Gore percorre o mundo com Uma Verdade Inconveniente, documentário de grande impacto persuasivo, um autêntico e oportuno agit-prop ecológico, que entre nós estreou na sexta-feira. A verdade inconveniente é que as mudanças climáticas causadas pela elevação da temperatura no planeta não são um fenômeno natural, um castigo divino, mas fruto da ação predatória do homem, que mais convém prevenir, desde já, do que remediar. Até os redatores da revista The Economist, que até pouco tempo atrás fechavam com os cientistas ditos céticos, para os quais a tese do aquecimento global não passa de uma paranóia alarmista, já se convenceram do contrário. Nem esperaram pelo Relatório Stern, divulgado há 10 dias e o mais sério aval dado por autoridades econômicas à questão ambiental. Seu coordenador, Sir Nicholas Stern, foi economista-chefe Banco Mundial.

Com o título de "A Economia da Mudança Climática", o relatório consumiu 16 meses de estudos e foi encomendado pelo governo britânico, mais uma prova de que o governo de Tony Blair parece mesmo disposto a dar uma ou mais lições ao governo Bush. Além de patrocinar o relatório e conseguir que a Inglaterra diminuísse suas emissões de CO2, Blair nomeou Al Gore consultor para assuntos de aquecimento global.

No mesmo período, os EUA aumentaram suas emissões em 15,8%. Constrangimento zero na Casa Branca. Lá, o guru da questão ambiental continua sendo o escritor Michael Crichton, que dedicou seu último romance, Estado de Medo, à causa dos céticos. Nele, o aquecimento global é uma balela promovida por ecoterroristas high-tech, exímios na fabricação de desastres ambientais. Apesar de ser um livro de ficção, conquistou este ano o prêmio para obras jornalísticas da Associação Americana dos Petrólogos. Explica-se: interessa à turma do combustível fóssil vender como verdade (jornalística) uma obra de ficção especulativa, e intelectualmente indecorosa.

A grande ou única novidade do Relatório Stern é trazer a mirada e o aporte de economistas para constatações feitas por experts do meio ambiente. A certa altura esbarramos nesta observação: "A mudança climática oferece um desafio singular à economia: é a maior e mais extensa falha da economia de mercado já vista". Apóstolos da desregulamentação, tremei! Turiferários do laissez-faire, guardai os vossos turíbulos! Se custa menos para uma empresa jogar lixo tóxico num rio do que cumprir as regras de proteção ambiental, alguma coisa está errada, e o laxismo do mercado tem culpa no cartório.

"A economia global não carece de um reajuste", comentou Andrew Leonard, na revista eletrônica Salon, "mas de uma revisão na filosofia do crescimento ilimitado". Precisamos de uma filosofia que pense mais na saúde do planeta, no futuro do homem, dos bichos e das plantas, do que no lucro imediato e desenfreado - que, a partir de certo ponto, beira o irresponsável e o criminoso.

Eis a razão porque certos conservadores com tanto afinco se dedicam a desqualificar as discussões sobre aquecimento global, quando não atribuem as calamidades climáticas que vez por outra nos surpreendem à maquinação de ambientalistas e outros fiscais da insânia industrial - como fez Michael Crichton. Mas eles estão perdendo, e é bom que assim seja. Do contrário, todos perderemos, inclusive eles. E também, é claro, os obesos.

OESP, 05/11/2006, Aliás, p. J6

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