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Sobre a má sorte amazonense

OESP, Caderno 2, p. C3
Autor: DAMATTA, Roberto
04 de set de 2019

Sobre a má sorte amazonense
A floresta não homogênea sempre foi vista como um obstáculo para a ambição dos que confiaram na ignorância

Roberto Damatta, O Estado de S.Paulo
04 de setembro de 2019 | 03h00

Compreender que "ser presidente" depois de ter sido capitão e parlamentar num Brasil no qual liberais e patrimonialistas trocam de lugar e todos são legalistas, mandões e familistas, requer paciência bíblica.

Veja-se o caso amazonense. Falar em queimadas numa área na qual "derrubar e queimar" foi parte de uma milenar agricultura sem tomar contato com as obras de gente como Arthur Cezar Ferreira Reis e, principalmente, com o trabalho de Charles Wagley e de Eduardo Galvão, que estudaram a Amazônia, é um erro, já que - desde a Fordlândia e outros empreendimentos - a floresta não homogênea sempre foi vista como um obstáculo para a ambição dos que confiaram na ignorância como um meio para domesticá-la ou destruí-la, como estamos testemunhando.

Os livros Uma Comunidade Amazônica e Santos e Visagens escritos, respectivamente, por Wagley e Galvão no curso de uma investigação pioneira baseada no método que os antropólogos chamam de "observação participante" são imprescindíveis. Eles mostram como o estudioso, paradoxalmente, combina o olhar distanciado da observação com a visada íntima da participação. Algo difícil sem cometer os enganos constitutivos de toda ponderação humana, essas apreciações sujeitas aos erros somente descobertos depois de um certo tempo. O que foi virtude numa etapa ou lugar, torna-se vício quando lido com outras lentes...

O primitivismo de assumir que os "índios" não cabem no mundo moderno porque têm muita terra e não dão lucro torna-se uma prova de desumanidade diante da devastação que a cobiça como valor produz numa região que, por culpa nossa, é tão imensa quanto desconhecida. E que, ironicamente, não foi incendiada justamente porque foi habitada por povos tribais - pelos "índios".

Quem vai além do limite e tira muito do rio ou da floresta fica azarado ou 'panema'
Com efeito, quando Wagley publicou seu livro, em 1953, sabia-se mais de melanésios, de nativos do noroeste da América do Norte e de sociedades africanas do que sobre o Amazonas. Somente os latifundiários podem ser poucos com muita terra - aos índios, nativos e donos de direito dessas florestas, caberia o ralo da história. Cândido Mariano da Silva Rondon, reitero, foi esquecido e lembrado por Larry Rohter, um jornalista americano que correu o risco de ser expulso do Brasil por uma reportagem que falava dos abusos etílicos de um ex-presidente da República!

Apoiado nesses livros, escrevi sobre uma noção amazônica intrigante. Um caçador ou pescador que vai além de um certo limite e tira muito do rio ou da floresta, acaba ficando azarado ou "panema". Ou seja, o sucesso exagerado leva ao infortúnio: a uma temporada na qual a atividade do intruso é marcada pelo azar.

Alfredo Augusto da Matta, meu ilustre tio-avô paterno, senador e médico pioneiro no estudo e tratamento de doenças tropicais, indexou a expressão no seu Contribuição ao Estudo do Vocabulário Amazonense, publicado em 1931 em Manaus. Se fosse etnólogo iria atinar com o conceito liga ao que a nossa onipotente pós-modernidade tecnológica e consumista desligou: a ideia de limite na relação entre a sociedade com seus interesses e a "natureza" concebida como igualmente viva e dotada de um agenciamento capaz de vingar-se de quem caçava ou pescava mais do que seria preciso para a sua manutenção. E, além disso, não cuidando do destino final da transformação de caça e peixe em comida. Caso esses produtos fossem consumidos por invejosos, a "Mãe" daqueles seres faria com que o abusado ficasse "panema".

É irônico que, justo nessa Amazônia na qual a tradição faz um enlace entre os seres vivos, todos merecedores de compaixão e solidariedade, os agentes do progresso tenham optado pela devastação incontrolada, correndo o risco de ficar "panema". Aqui, como depois aprendi com Eduardo Viveiros de Castro e seus seguidores, a humanidade engloba o que chamamos de "natureza". Meu estudo, um exemplo modesto de análise estrutural, foi publicado na revista francesa de antropologia L'Homme, em 1967, graças à generosidade de Claude Lévi-Strauss, e foi reproduzido no meu primeiro livro, Ensaios de Antropologia Estrutural.

Anotem: qualquer coisa em demasia produz "panema". Tudo tem, como aprendi com um mestre apinajé, o seu contrário.

OESP, 04/09/2019, Caderno 2, p. C3

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