O Globo, Ciência, p. 42
30 de Nov de 2010
Só mesmo com ajuda do céu
Clima mata 21 mil em 2010 e ministra pede ajuda aos deuses na Cúpula de Cancún
Catarina Alencastro
Enviada especial Desastres climáticos registrados nos primeiros nove meses deste ano foram responsáveis por 21 mil mortes
- o dobro do número confirmado no mesmo período do ano passado, segundo dados divulgados pela organização humanitária Oxfam. O relatório cita as enchentes no Paquistão, as ondas de calor na Rússia e a elevação do nível do mar em Tuvalu, como exemplos das letais conseqüências das mudanças climáticas. E o futuro não é nada promissor: um outro estudo revela que em 50 anos, o mundo estará 4 graus Celsius mais quente, o que vai impor severas alterações climáticas.
Os dados foram divulgados ontem, dia de abertura da 16ª Convenção da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP-16), em Cancún, no México. A cerimônia de abertura foi marcada por discursos para forçar um novo engajamento dos países em torno de um acordo para conter o aquecimento global. A secretária-executiva da convenção, Christiana Figueres, chegou a apelar para os deuses, pedindo que a deusa maia da Lua, Ixchel, inspire os negociadores dos 194 países que participam do evento.
- Bem-vindos à terra da deusa maia da Lua, Ixchel, que também era deusa da razão, da criatividade e da liderança - afirmou ela. - Que ela inspire a todos vocês, porque hoje (ontem) vocês estão reunidos aqui em Cancún para chegar a uma sólida resposta às mudanças climáticas, usando razão e criatividade.
Estou convencida de que daqui a 20 anos vamos admirar a tapeçaria que nos tecemos juntos e lembrar com carinho de Cancún e da inspiração da deusa Ixchel.
Segundo o documento da Oxfam, as enchentes no Paquistão inundaram um quinto do país, matando 2 mil pessoas e afetando 20 milhões em razão da destruição de casas, escolas, rodovias e cultivos e da disseminação de doenças. Um prejuízo estimado em US$ 9,7 bilhões.
Na Rússia, as temperaturas excederam a média de julho e agosto em 7,8 graus Celsius, o que fez a taxa diária de óbitos em Moscou dobrar, alcançando 700. Pelo menos 26 mil focos de incêndio destruíram um quarto das plantações de trigo, gerando um problema nas exportações.
Os moradores da nação insular Tuvalu no Pacífico, onde a elevação do nível do mar é de 5 a 6 milímetros ao ano, enfrentam cada vez mais dificuldades para manter cultivos, uma vez que a água salobra está invadindo as plantações.
E o futuro será muito pior, como apontam dados climáticos. As crianças de hoje vão alcançar a velhice num mundo 4 graus Celsius mais quente, onde certezas climáticas que valeram para os últimos dez mil anos não serão mais referência. Secas, enchentes e migrações em massa serão parte da vida diária já a partir de 2060. Será provavelmente a década a partir da qual, pela primeira vez desde o fim da Idade do Gelo, a Humanidade terá que lidar com um clima global bastante instável e imprevisível. As previsões fazem parte de uma série de estudos científicos publicados ontem sobre o mundo 4 graus Celsius mais quente.
As negociações em Cancún ainda giram em torno de tentar manter a elevação das temperaturas em, no máximo, 2 graus Celsius. Segundo muitos cientistas, no entanto, as atuais tendências revelam que um aumento de 3 a 4 graus é "muito mais provável".
A maior preocupação é que uma elevação de 4 graus Celsius na temperatura média global - uma diferença tão grande quanto a que separa o clima atual daquele registrado na última Idade do Gelo - geraria transformações dramáticas no mundo, levando a secas, colapso da agricultura em regiões semiáridas e a um catastrófico aumento do nível do mar em áreas costeiras.
O anfitrião da COP-16, o presidente mexicano Felipe Calderon, fez um apelo para que os negociadores cheguem a um acordo para mudar os rumos da crise climática. Ele disse que as futuras gerações irão cobrar, caso eles falhem em alcançar um resultado.
- Será uma tragédia que nossa incapacidade nos leve a falhar - afirmou, citando que em seu país só este ano 60 pessoas morreram por desastres causados pelo aquecimento da Terra.
O que está em jogo
Acordo difícil: É pouco provável que haja um "Protocolo de Cancún". A esperança é de que avanços mais significativos sejam alcançados na cúpula de Durban, na África do Sul, em 2011. Com essa demora, investimentos em energia renováveis e projetos de compensação pelas emissões de carbono estão sendo cortados porque ninguém sabe qual será a regra. O enfraquecimento do presidente americano, Barack Obama, prejudica. Sua proposta de redução de 17% nos níveis registrados em 2005 dificilmente vai avançar com a recente vitória dos republicanos. Sem um compromisso dos EUA, a China e outros países não devem se movimentar. Só na China, as emissões de CO2 subiram 8% em 2009.
O que esperar: Devem ocorrer avanços para um acordo geral, inclusive no que diz respeito a ajuda para os países pobres enfrentarem as mudanças climáticas. Otimistas acreditam que em Cancún se chegue a um acerto no REDD (sigla em inglês para redução de emissões por desmatamento e degradação de florestas nos países em desenvolvimento), plano que prevê compensações para as nações que reduzam ou parem o desmatamento.
Se nada der certo: Antes da cúpula de Durban ninguém vai admitir fracasso. Caso isso ocorra, muitos países vão registrar na ONU os compromissos já assumidos. Por exemplo: a Europa prometeu cortes de 20% nas emissões até 2020. Porém, esses compromissos não chegam nem perto de limitar o aquecimento global a 2 graus Celsius acima das temperaturas médias de antes da Revolução Industrial, que muitos consideram o máximo para o aquecimento
"seguro".
Pouco interesse: As diferenças nos números de Copenhague e Cancún são evidentes. As autoridades mexicanas esperam até 22 mil pessoas na cúpula, incluindo 9 mil delegados oficiais e jornalistas, ambientalistas, entre outros.
Em Copenhague foram mais de 45 mil delegados e observadores.
Custos: O custo para a ONU, não incluindo despesas de muitos dos delegados, foi de cerca US$ 238 milhões em 2009, e agora são US$ 82 milhões. Em Cancún, o governo mexicano deverá gastar cerca US$ 67,33 milhões. A Dinamarca gastou cerca de US$ 213,3 milhões na reunião de Copenhague. Segundo a ONU, o custo de reuniões menores é de US$ 5 milhões, cada.
A Organização promoveu cinco em 2009 e três em 2010.
Excesso de segurança
Participantes perdem horas em blitzes
O esquema de segurança montado pela organização da COP-16 tem causado transtorno aos participantes, que levam cerca de duas horas para se deslocarem de seus hotéis até o local da convenção, o mega resort Moon Palace. Com receio de conflitos com o crime organizado, os mexicanos montaram um sistema no qual o participante só pode chegar ao Moon Palace por meio dos ônibus e vans alugados pela própria organização.
No Cancun Messe - ainda em construção - foi montado um centro de triagem com detectores de metais. Após a revista, o participante precisa tomar um outro ônibus, que o leva finalmente à convenção. No caminho, os comboios enfrentam engarrafamentos causados por blitzes entre a zona hoteleira e os três locais do evento. O sistema não só é cansativo, como antiecológico, já que os ônibus liberam CO2 por onde passam. Apenas alguns deles são movidos a biocombustível.
O governo mexicano escalou 6 mil policiais para fazer a segurança. É quase um policial por participante. Cidades vizinhas de Cancún, como Tulum, Playa del Carmen e Isla Mujeres também estão sendo patrulhadas. Além disso, como Cancún se situa numa península, a Marinha destacou 700 homens para proteger a costa e mais 300 para patrulhar portos nas cidades vizinhas. No estacionamento do Moon Palace há policiais com armamentos pesados.
A cansativa viagem que os participantes terão que enfrentar todos os dias pelas próximas duas semanas gerou uma reclamação de um jornalista da agência France Press à chanceler mexicana, Patricia Espinosa, na primeira entrevista coletiva. Ela se desculpou, mas disse que o sistema visa garantir a segurança da cúpula. (Catarina Alencastro)
O Globo, 30/11/2010, Ciência, p. 42
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