O Globo, Economia, p. 33
Autor: VOGEL, Jason
28 de Mai de 2010
Sistema ainda tem muito a evoluir
Jason Vogel
Carlos Ghosn, presidente mundial da Renault-Nissan, vem sendo um dos maiores incentivadores da produção de carros 100% elétricos na Europa, no Japão e em Israel. No ano passado, o todo-poderoso capitão de indústria foi perguntado sobre a chegada de seus elétricos no Brasil. Deu de ombros e resumiu que aqui o foco do automóvel ecologicamente correto é diferente, já que temos fartura de álcool e outros biocombustíveis.
Carros 100% elétricos estão evoluindo bastante, mas terão de superar grandes problemas antes de se tornarem interessantes no uso diário. Sua autonomia ainda é pequena (algo grave em um país de grandes distâncias), o tempo necessário para recarga continua longo, e os pacotes de baterias são caros e pesados.
Como têm custos altos de produção, os elétricos precisam de incentivos dos cofres públicos para serem economicamente viáveis.
Nos EUA, por exemplo, os compradores de elétricos recebem até US$ 7.500 em créditos fiscais.
As baterias modernas estão sendo desenvolvidas para serem recarregadas cada vez mais rapidamente - mas aí surge outra questão: se os carros elétricos dominassem o cenário, como nossa rede atual poderia fornecer tanta energia em horários de pico?
Para ultrapassar esses problemas que há um século emperram os carros 100% elétricos é que surgiram os híbridos, nos anos 90, como o Toyota Prius.
Na cidade, em baixas velocidades, um ou mais motores elétricos movem o carro. Quando se precisa de mais potência, um motor convencional a explosão (que pode ser a álcool, diesel, GNV ou gasolina) entra em ação. Além disso, também recarrega as baterias, resolvendo o velho problema da autonomia.
O consumo é reduzido (principalmente em percursos pequenos), mas, outra vez, o busílis é o custo: os híbridos são muito mais caros de se produzir que os automóveis convencionais.
Há ainda carros 100% elétricos que carregam um gerador a gasolina ou diesel no porta-malas, como o Chevrolet Volt. Símbolo da nova General Motors que tenta vencer a crise, o modelo será lançado em breve nos EUA, onde deverá custar mais de US$ 30 mil (já incluindo na conta o incentivo de US$ 7.500 do governo) - isso em um país onde sedãs médios como o Honda Civic custam menos de US$ 20 mil.
Para efeito imediato, muito mais eficiente (na redução de emissões), prático e economicamente viável seria investir em transportes coletivos elétricos.
A Light já fazia isso há cem anos.
Para ver uma rede moderna, é só dar um pulinho em Lisboa ou Amsterdã e conhecer os modernos sistemas de bondes.
Jason Vogel é editor do CarroEtc
O Globo, 28/05/2010, Economia, p. 33
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