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Sinop Dia 1 - A primeira operação de apreensão a gente nunca esquece

O eco - http://www.oeco.com.br
Autor: Karina Toledo
30 de Out de 2012

A segunda-feira começa às 8h na sede do Ibama em Sinop, onde fica o controle da Operação Soberania Nacional. Viaturas do órgão se acumulam nas proximidades do prédio térreo na área central da cidade, trazendo cerca de 50 agentes do órgão, lotados em várias regiões do Brasil, convocados para essa operação. Eles estão prontos para sair a campo.

No interior do prédio, a sala de comando da Operação Soberania Nacional lembra uma operação de guerra: mapas, gráficos, tabelas e ofícios de comunicação interna nas paredes, entra e sai constante de homens e mulheres carregando papeis, gente com olhos fixos nas telas de computadores exibindo mapas variados. São os mapas dos polígonos onde ocorrem os focos de degradação da mata detectados pelo satélite, através do sistema Deter (Detecção de Desmatamento em Tempo Real), do INPE.

A boa qualidade das imagens permite aos analistas verificar qual a causa da degradação: corte raso, corte seletivo, queimada ou desmatamento por correntão. E ainda se há plantio de soja, milho, algodão ou pastagem.

Lá fora, ouve-se o barulho do helicóptero do Ibama decolando. O pássaro de metal parte para aferir uma área suspeita e voltar com informações sobre as melhores rotas para que as equipes em terra tentem fazer os flagrantes. Essa operação se repete diariamente.

No fim da manhã, reunião para passar as últimas orientações. A saída a campo é determinada para as 14 horas. O calor na região é intenso, com temperaturas acima de 30 graus centígrados e pouco ou nenhum vento. No clima abafado da Amazônia, a sensação é de 40 graus.

Nossa viagem começa pela rodovia MT-225 e vai até o município de Feliz Natal, a 120 km de Sinop. Ao longo do caminho, passamos por vários caminhões transportando toras ou subprodutos da madeira e avistamos muitas, muitas serrarias, com pilhas de toras impressionantes a sua frente. Feliz Natal tem cerca de 200 madeireiras registradas, 90 em operação.

Passada a área urbana da pequena cidade, acaba o asfalto. Agora, a poeira judia dos olhos e gruda na pele cheia de suor. A Floresta Amazônica finalmente dá suas caras, ainda esparsa, dentro das reservas legais das fazendas, obrigadas na Amazônia a conservar 80% da mata nativa. Avistamos também plantações que se estendem até sumir no horizonte.

Finalmente, surge soberana a floresta. Árvores altas e encorpadas, fazendo-nos imaginar quanta vida não abriga. Mas a destruição também é aparente. Áreas queimadas estão à vista. Lá, a floresta chamuscada ainda guarda troncos finos e compridos, sem copas. Os aglomerados formados por lenha da madeira derrubada, as chamadas leiras, aguardam o fogo para darem lugar a plantações. Essas áreas, quando ilegais, são embargadas e monitoradas pelos agentes do Ibama. Nelas, a presença de um trator já pode ser suficiente para outra autuação.

O comboio faz várias paradas, checa mapas, a equipe para os veículos, se reúne nos acostamentos, volta aos carros e penetra em estradas vicinais que variam de paisagens que vão da plantação de soja à mata fechada.

A área onde estão os focos de desmatamento tem 2 mil hectares, cada hectare equivale a um campo de futebol. O helicóptero não pode sobrevoar a área específica para evitar alertar os infratores.

Há agentes armados, alguns com armas de grosso calibre, pois sempre existe risco de conflito. O Ibama pode aprender tratores e equipamentos vitais para os desmatadores, e eles podem reagir para retomá-los, seja bloqueando estradas ou destruindo pontes de madeira.

Encontramos tudo muito quieto. Normalmente deveria haver tráfego caminhões carregados de toras. É possível que o comboio do Ibama tenha sido avistado. Ou o helicóptero foi visto e um alerta por rádio amador tenha chegado antes dos agentes. É a chamada contra-inteligência: ao mesmo tempo que os agentes se equipam, os infratores utilizam-se de diversas artimanhas.

Enfim, uma equipe mais à frente intercepta um caminhão na estrada, carregado de toras. Mas a documentação está ok e o veículo é liberado.

Pelas marcas de pneus no solo os agentes percebem movimentação recente em uma estrada de uma fazenda ladeada por soja de um lado e floresta do outro. É um labirinto, só possível de entender ou navegar com experiência de mateiro ou com um aparelho GPS.

As estradas vicinais normais, em áreas com plano de manejo, costumam ser retas. Adentramos um caminho curvilíneo e irregular, o que costuma indicar irregularidade. Vemos restos de madeira serrada e tocos espalhados. Viaturas que seguiam separadas se reencontram em uma encruzilhada. Os agentes conversam, mapas à mão, falam nos rádios e a busca segue. A luz do dia vai acabando e os mosquitos começam a incomodar. Há risco de se contrair malária e leishmaniose.

A aflição vai aumentando depois de tanto tempo dentro do carro. Nenhum sinal das outras equipes. Parece impossível checar todas as bifurcações existentes na mata, algumas bloqueadas por troncos caídos deixados para trás pelos desmatadores.

É claro que a área está sendo degradada, mas nada de gente ou tratores. Atoleiros tornam a busca mais lenta. As estradas vão se afunilando e virando picadas, as galhadas arranham a lataria dos carros. O agente que vai na caçamba da caminhonete bate com a mão no teto da cabine. O motorista freia, ele salta com a arma em punho e caminha pela picada. Está lá o trator abandonado, depois de abrir caminho até ali. Mais um trator, de porte menor, está a cerca de 30 adiante, oculto pela mata, vindo de outra direção.

18h34. Chega a noite e acendemos lanternas e os faróis dos carros. Pelo rádio, comunica-se o achado e chegam mais viaturas. Há também informação de que, no mesmo polígono, foram feitas outras apreensões.

As equipes se dividem: uns ficam e farão pouso na mata para guardar o maquinário apreendido e evitar que os desmatadores retornem e desapareçam com os tratores. Outros continuam as buscas por mais maquinário.

O procedimento a seguir é tirar as máquinas da mata e aguardar a chegada da carreta do Ibama. Ela transportará os tratores ao pátio do órgão em Sinop, onde já há dezenas deles e uma carreta carregada de palanques de madeira ilegal.

É também lá o novo heliporto do helicóptero do órgão, após a sabotagem do mês passado.

Renê Luis de Oliveira, chefe de Divisão de Controle e Fiscalização do Ibama de MT, faz o resumo do dia:

- Tivemos indicativos via Detecção de Desmatamento em Tempo Real (DETER) de uma modificação na cobertura vegetal nessa região e, através do serviço de inteligência, verificamos que é ilegal por não ter licenciamento. Em campo, percebemos os indícios do crime ambiental: toras às margens das estradas e os dois tratores utilizados para arrastar a madeira de dentro da mata formando as esplanadas (aglomerados de toras que facilitam o carregamento das mesmas nos caminhões).

-Toda a área percorrida foi mapeada durante o trajeto e o pedaço degradado nesse trecho será devidamente quantificado. O proprietário foi identificado e será autuado pelo desmate e pela extração da madeira, que não é autorizada, além de que a área será toda embargada e sofrerá processo administrativo e se necessário uma ação civil pública.

As equipes se separaram. Alguns voltarão à cidade, enquanto outros grupos ficarão para o plantão em meio à mata. Renê explica porque essa guerra não acaba:

- Essa madeira financia o desmate a corte raso. Aqui no entorno vimos áreas abertas, com soja plantada. Se não houver ação constante do poder público nessa região, provavelmente daqui a cinco anos ela estará devastada. Essa madeira ilegal é vendida, possibilitando a contratação de máquinas e pessoal para dar continuidade ao processo, para deixar o solo exposto para a plantação de soja, na degradação total a floresta. É a sua consumação final. E isso tudo poderia ser feito de forma legal, o que é obrigação do proprietário, mas não".

Já é quase meia-noite. O trabalho prosseguirá pela madrugada para a equipe que ficou de guarda. Ainda deve haver mais máquinas em meio à mata. Fomos para o hotel. Na quarta-feira, devemos sobrevoar a região, localizada a leste do Parque Indígena do Xingu. A expectativa é grande.

Nota: na manhã dessa terça (30), soubemos que o saldo da operação, que varou a noite, terminou com a apreensão de 4 tratores e um caminhão.

http://www.oeco.com.br/direto-do-nortao/26606-a-primeira-operacao-de-ap…

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