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Sinal de alerta para mercados

O Globo, Razão Social, p. 8-9
27 de Mar de 2012

Sinal de alerta para mercados

Amelia Gonzalez
amelia@oglobo.com.br
Enviada Especial

MANAUS - Em 2030 a população mundial vai precisar de mais 50% de alimentos do que precisa hoje; de mais 40% de energia do que precisa hoje e de mais 30% de água do que consome hoje, tudo ao mesmo tempo. Para dar conta disso e caminhar para um desenvolvimento verdadeiramente sustentável, é preciso que os mercados sejam mais transparentes e que suas ações levem em conta não só o capital econômico mas também o capital humano e o ecológico. Quem faz o alerta e propõe as soluções é Gro Brundtland, ex-primeira ministra da Noruega, responsável pelo relatório Nosso Futuro Comum, de 1987. Possivelmente também a pessoa que tem mais condições de analisar o desenvolvimento mundial, já que esteve diretamente envolvida em todas as conferências do meio ambiente da ONU desde a primeira, realizada em Estocolmo, em 1972.
Ela foi convidada pelo Lide, grupo de empresários organizadores do concorrido terceiro Forum Mundial de Sustentabilidade realizado em Manaus de 22 a 24 de março, para fazer a palestra de abertura do evento. Embora seu discurso tenha sido bastante equilibrado, já que ela assumiu que houve progressos nas questões mundiais de sustentabilidade, Brundtland também não poupou críticas:
- Minha vinda aqui a Manaus inspirou-me para refletir sobre o quanto nosso mundo tem mudado desde 1972. Fizemos progressos, sim. Basta dizer que quando estive no Brasil com os membros da Comissão Brundtland em 1985, Cubatão era exemplo de um lugar muito poluído e o governador do Amazonas não era conhecido como um amigo do meio ambiente. Hoje, Cubatão é um exemplo de como as crises podem ser transformadoras. Mas ainda há problemas, e não são poucos: as economias hoje estão balançando, os ecossistemas estão frágeis e ainda há muita desigualdade entre os países - disse ela.
Como representante atual do Painel que a ONU criou para cuidar da Sustentabilidade no mundo, Gro Brundtland faz propostas. A principal delas, capaz de mexer com economias de mercado mundiais, diz respeito à precificação da poluição:
- A poluição não pode mais ser gratuita. E precisamos também criar outra forma de medição de riqueza, além do PIB. Devemos pôr ainda a ciência no centro da sustentabilidade porque estamos vivendo uma era de impactos sem precedentes no planeta.
A ciência deve ser capaz de informar mais aos tomadores de decisões não só os limites de seus próprios territórios: ela tem que atravessar fronteiras, tem que informar sobre os limites planetários. Propomos uma sustentabilidade global que integre o conhecimento. E que todos os países - ricos e pobres - tenham responsabilidade para evitar que a Terra aqueça mais do que 2 graus no fim do século - disse ela.
Eliminar fronteiras é a forma, segundo Brundtland, de enfrentar outro grande desafio mundial: a capacidade limitada de governança global, que se reflete, por exemplo, no fato de que mais de um bilhão de pessoas hoje no mundo não tenham acesso à energia. A ex-primeira ministra ilustrou o cenário de quem vive na escuridão: pessoas que não têm sequer acesso a um transporte para levá-las ao trabalho, nem podem guardar vacinas que salvam vidas.
- É por isso que a energia sustentável vai ser o centro das discussões na Rio+20 (Conferência Mundial de Desenvolvimento Sustentável que vai acontecer no Rio em junho). É possível ao mesmo tempo reduzir o efeito estufa e expandir as fontes renováveis e limpas. Já houve avanços em relação a isso: em 2005 havia 55 países do mundo que usavam energia renovável e em 2011 esse número aumentou para 119 -- disse Brundtland.
Talvez pela proximidade do evento, a Rio+20 foi o tema recorrente nas palestras do Forum. Até porque o coordenador da Conferência, o francês Brice Lalonde, foi um dos palestrantes convidados. Lalonde anunciou que são esperadas 50 mil pessoas de todos os níveis de governos para o evento e que ali não será um forum para se lamentar o que não foi feito nos 20 anos que se passaram, mas sim o que terá que ser feito nos próximos 20 anos:
- Haverá mais um bilhão de pessoas no mundo. Teremos comida, energia e água suficiente para todos?
Como podemos nos organizar melhor diante desse quadro? Cada país vai agir de forma separada ou todos vão agir juntos? É isso que será discutido na Rio+20 e, para mim, o Brasil vai ser o líder desta Conferência porque está investindo na erradicação da pobreza, no empoderamento das mulheres, e esta ênfase no social será forte durante o encontro -- disse ele.
Ainda no primeiro dia do Forum a discussão girou sobre o tema Pagamentos por Ser viços Ambientais (PSA), amplamente defendido por Steve Bass, cientista do International Institute for Environment and Development (IIED), um dos palestrantes, que trouxe o exemplo de Costa Rica. Segundo ele, o país cuida para os fazendeiros não poluírem as águas e florestas, e paga por isso.
Com uma palestra extremamente didática, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi a estrela do segundo dia do Forum. Ele fez uma memória do movimento ambiental no mundo e no Brasil, lembrando que quando tudo começou, na Conferência de Estocolmo em 1972, da qual ele participou, o Brasil tinha medo do movimento ambientalista porque pensava que era contrário ao desenvolvimento:
- A expressão Limites para o Crescimento, criada pelo Clube de Roma, horrorizava os países em desenvolvimento porque na época se pensava que os países desenvolvidos eram contra o nosso desenvolvimento. A grande mudança começou a ocorrer na década de 80, quando se reparou na camada de ozônio. E a Rio-92 foi um marco, porque os líderes vieram dizer: vamos pensar sobre a Terra -- disse Fernando Henrique.
Bem humorado, ele disse que é normal para ex-presidentes fazerem uma espécie de mea culpa depois de algum tempo, e isso não seria diferente com ele.
- Quando eu assumi o governo havia uma desordem financeira muito grande e a minha prioridade era essa, não era o meio ambiente. Mas criei e presidi o Forum de Mudanças Climáticas com o Fabio Feldman. Mas eu não tinha chicote nas mãos para que o governo avançasse mais nessa questão. Esse sentido de urgência que estou pregando hoje aqui não foi vivido porque a urgência na época era outra -- disse ele.
Para Fernando Henrique, as relações entre os ministérios são difíceis, mas "a preocupação com o meio ambiente tem que perpassar o conjunto das ações". Ele lembrou também que é irreal perseguir o crescimento econômico em nome de melhor qualidade de vida para as populações:
- Nós crescemos a 7% na década de 70 sob o regime militar e a pobreza aumentava, foi a década do arrocho salarial. Hoje não crescemos a taxas tão altas e há políticas sociais, que começaram no meu governo e foram continuadas pelo governo do ex-presidente Lula que fizeram melhorar a qualidade de vida da população.
Fernando Henrique Cardoso comentou ainda sobre sua expectativa com relação à Rio+20. Para ele, a melhor colaboração que a Conferência pode dar é fazer a ligação entre a questão ambiental e a questão social, já que o aquecimento global, como se sabe, vai afetar as zonas mais pobres do Brasil e da África.
Questionado sobre a polêmica construção da usina de Belo Monte, Fernando Henrique Cardoso contemporizou. Disse que nunca foi um grande entusiasta desta forma de construir barragens e que já se posicionou várias vezes a favor do desmatamento zero, mas que é preciso entender que um país como o nosso precisa de energia:
- A questão é que tem que investir logo em outras fontes de energia porque senão daqui a pouco vai ser necessário construir nova Belo Monte porque vai entrar de novo na urgência.
Esta opinião do ex-presidente, no entanto, foi , como era de se esperar, frontalmente criticada pelo diretor executivo do Greenpeace, Kumi Naidoo, outro palestrante do Forum. A organização que representa está começando uma campanha pelo Desmatamento Zero (ver box ao lado):
- Hoje, a China já sabe que para se tornar o país mais próspero do futuro vai precisar ganhar a corrida verde:90% dos paineis solares da Europa vem de lá. O Brasil pode fazer parte disso, não precisa de Belo Monte para ter energia, não precisa de tanta destruição.

A repórter viajou à convite dos organizadores do Fórum

Um milhão pelo desmatamento zero

Greenpeace lançou hoje sua campanha que visa a recolher 1,4 milhão de assinaturas de eleitores brasileiros a favor do Desmatamento Zero no Brasil. A ideia é formatar uma lei de iniciativa popular, e para isso é preciso, segundo o presidente nacional da organização, Paulo Adário, 1% dos eleitores, o que está previsto na Constituição brasileira. O presidente mundial do Greenpeace, Kumi Naidoo, esteve presente à cerimônia de lançamento, durante o Forum Mundial de Sustentabilidade, realizado semana passada em Manaus, onde também foi apresentado à imprensa o novo navio da organização, Rainbow Warrior, o primeiro construído especificamente para ser usado pela organização e totalmente de maneira sustentável.
O africano Naidoo aproveitou a coletiva de imprensa para criticar duramente o Rascunho Zero, documento escrito por organizadores da Rio+20 como texto para discussão na Conferênciado Desenvolvimento Sustentável que vai acontecer no Rio em junho. Para ele, o documento deveria se chamar "menos cinco":
- O Rascunho Zero deveria ser Rascunho Menos Cinco, já que não atenta para a urgência das ações. Nós queremos é que este nível de urgência seja interiorizado no documento - disse ele.
Segundo Paulo Adário, a campanha para o recolhimento das assinaturas, que terá vídeos de atores famosos , como Marcos Palmeira e Camila Pitanga, é uma tentativa de acabar com o divórcio que se percebe entre a sociedade civil e seus representantes políticos:
- Percebemos esse divórcio, por exemplo, durante os debates para o novo Código Florestal.
O recolhimento das assinaturas será feito por voluntários de por instituições que apoiam o Greenpeace. A expectativa é que até novembro de 2013, ano e mês das próximas eleições para presidente, já seja possível ter as assinaturas para levar a cabo a ideia de se criar a lei e fazê-la passar a valer a partir da próxima administração.
O novo navio do Greenpeace vai percorrer algumas cidades do país e vai chegar ao Rio em junho. A organização pretende fazer dentro dele alguns eventos, entre eles um seminário para pôr o tema do desmatamento em debate.

O Globo, 27/03/2012, Razão Social, p. 8-9

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