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Setor energético precisa de mais transparência

O Globo, Amanhã, p. 23
Autor: BREVA, Javier García
09 de Jul de 2013

Setor energético precisa de mais transparência
Informações vazadas por WikiLeaks revelam insegurança e falta de controle mundial na geopolítica de petróleo, gás e energia nuclear

Javier García Breva Do El Pais
Presidente da Fundación Renovables

Neste caso, não para contar fofocas, mas para mostrar a insegurança em torno da geopolítica do petróleo, gás e energia nuclear. As empresas de gás que tanto prejudicam a segurança europeia, a falta de controle na energia nuclear e pesquisa de urânio, os números inflados do petróleo, os riscos em torno de oleodutos e rotas de abastecimento e o desastre da cúpula de Copenhague sobre mudança climática são algumas das revelações destes documentos do Departamento de Estado dos EUA para confirmar e ratificar os riscos de manter um sistema energético 100% dependente de fontes de energia que não podemos controlar totalmente - nem seus custos, nem seus preços ou riscos.
O Wikileaks também nos mostra a força com que o ministro do petróleo da Arábia Saudita apoiou a energia solar para evitar a má imagem dos países produtores de petróleo que se opunham à redução das emissões na cúpula de Copenhague. O mesmo discurso duplo usado para a energia renovável também se aplica à luta contra as alterações climáticas. O preço de CO2 vai se multiplicar até 2020, e seu impacto sobre a economia irá aumentar a partir de 2012, quando os direitos de emissão não se repartirão gratuitamente, mesmo que apenas um décimo das empresas leve isso em conta.
Está cada vez mais evidente que a passividade custará caro. A poluição do ar já provoca mais mortes do que as estradas e funciona como uma nova epidemia invisível com custos crescentes. Todos os anos, é comum ver os fenômenos cada vez mais extremos do clima e dos mares. A Agência de Meteorologia espanhola anunciou um aumento de 6 graus Celsius na temperatura nos próximos 60 anos, quando o risco permitido é de apenas 2 graus. Alguém já calculou o custo econômico e de bem-estar de uma mudança tão dramática? Nenhum governo pensa a longo prazo, e apesar da evidências crescentes, ouvimos um discurso complacente ou que simplesmente ignora os riscos das mudanças climáticas. Os resultados da cúpula de Cancun escondem uma nova falta de transparência e a mesma ganância que está na raiz da crise financeira de 2008.
A crise teve origem na elevação dos preços do petróleo, no verão de 2004, que acabou elevando junto as taxas de juros e arruinando as hipotecas subprime. Seis anos depois, o petróleo volta a ficar mais caro.
Dessa vez, já devíamos estar atentos. Todo mundo parece saber o custo das energias renováveis, mas ninguém sabe o custo real dos combustíveis fósseis e da energia nuclear a médio e longo prazos. Manter o máximo da opacidade serve apenas para que o atual modelo de energia não mude, mesmo ao preço de esconder o enorme projeto de lei que deixaremos aos futuros consumidores em termos de dependência energética, aumento do consumo de energia e emissões de CO2.
Urge resolver essas contradições: não se pode defender a criação de empregos através da economia verde, com uma regulação que os destrói e terceiriza a indústria nacional de renováveis; não se pode defender as energias renováveis em discursos e impor, ao mesmo tempo, um maior consumo de carvão e gás. É necessário passar de uma cultura que promove maior consumo de energia de combustíveis fósseis para uma que é baseada na economia de energia e das emissões de CO2.
Não se trata de criar novos impostos, mas de dar incentivos fiscais para reciclagem de resíduos e, assim, promover o uso racional de energia. Foi o que conseguimos anos atrás com a cultura da água. Façamos o mesmo com a energia. Essa é a proposta de corresponsabilidade da Fundación Renovables, porque essa nova cultura de energia não corresponde exclusivamente ao consumidor de energia elétrica, mas a todos os consumidores de energia, nas empresas, nos transportes, nos lares e cidades. É uma questão de equidade e de transparência, a mesma que nos faz crer firmemente que a sociedade civil ainda não morreu.

O Globo, 09/07/2013, Amanhã, p. 23

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