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Será que já começou?

Veja, Geral, p. 78-79
02 de Ago de 2006

Será que já começou?
Temperaturas muito altas no Brasil, na Europa e nos EUA podem ser a mais recente cilada do aquecimento global

Leoleli Camargo

Uma onda de calor acima do normal varreu a Europa e os Estados Unidos nas últimas duas semanas, provocando centenas de mortes, dizimando plantações e disparando um novo alerta sobre as rápidas mudanças que ocorrem no clima da Terra. Os ingleses assistiram perplexos ao termômetro bater na casa dos 36,5 graus, a temperatura mais alta registrada no mês de julho no país desde 1911. Na Holanda, 200 pessoas - idosos em sua maioria - sucumbiram aos efeitos do calor. O temor dos europeus é que se repita a maré quente verificada em 2003, que deixou um saldo de 32.000 mortos, 15.000 deles só na França. Na semana passada, com a temperatura batendo nos 39 graus em Paris, o governo francês decidiu se precaver e convocou estudantes de medicina e médicos aposentados para fazer plantões nos hospitais. Nos Estados Unidos, em regiões da Califórnia e em Nova York, as temperaturas chegaram à casa dos 40 graus, causando uma centena de mortes e provocando blecautes por causa da sobrecarga no consumo da energia usada pelos sistemas de refrigeração. No Brasil, os habitantes da Região Sudeste também foram surpreendidos pelo calor excessivo - e fora de hora. Em pleno inverno, São Paulo registrou temperaturas superiores a 30,2 graus. Isso não acontecia no mês de julho desde que começaram as medições do clima na cidade, há 63 anos.

Em todas as regiões do globo afetadas, a explicação para a onda de calor é a mesma. Segundo os meteorologistas, as massas de ar frio que deveriam amenizar o verão no Hemisfério Norte e esfriar o inverno no Brasil foram desviadas por sistemas de alta pressão, que funcionam como bloqueios atmosféricos. Esses fenômenos sempre existiram e são ocorrências próprias da dinâmica do clima. Nas últimas décadas, porém, vêm se tornando mais freqüentes e intensos. Um levantamento feito pela Universidade de East Anglia, na Inglaterra, mostrou que, nos últimos quarenta anos, a maior parte da Europa vive verões e invernos mais quentes. Diz o meteorologista Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais: "Ainda não conseguimos determinar com precisão por que os bloqueios de ar frio estão ocorrendo com freqüência maior. Mas é grande a probabilidade de que por trás deles esteja o aquecimento global provocado pelo homem".

O aquecimento global, causado pelos gases tóxicos produzidos por fábricas, automóveis e termelétricas, não é mais uma vaga ameaça ao futuro do planeta. Ele se tornou realidade. Está por trás dos furacões cada vez mais devastadores, das inundações, do derretimento das calotas polares e do avanço das áreas desérticas. Um estudo recente da Nasa, a agência espacial americana, confirma que a temperatura média na Terra no último século subiu 1 grau, mais da metade disso nos últimos trinta anos. Um grau parece pouco, mas é o bastante para provocar transtornos no clima e alterar o equilíbrio das forças que regem a natureza.

As perspectivas para a evolução do clima no planeta não são animadoras. Um relatório da ONU estima um aumento na temperatura média da Terra entre 2 e 4,5 graus até 2050. Os resultados podem ser catastróficos para o meio ambiente e para os seres humanos. Segundo os estudiosos da ONU, à medida que as temperaturas sobem no mundo, os riscos de ondas de calor extremo aumentam. O número de mortes relacionadas às altas temperaturas deve dobrar nos próximos vinte anos. "Simulações feitas por programas de computador indicam que, em 2050, verões quentes como o de 2003 serão freqüentes na Europa", disse a VEJA a climatologista Clare Goodess, da Universidade de East Anglia.

As ondas de calor costumam produzir muitas vítimas porque o corpo humano é programado para funcionar numa temperatura interna constante de 37 graus - e não tolera grandes variações. Sob temperatura externa muito elevada, os vasos sanguíneos das camadas superficiais da pele se dilatam e o corpo aciona os mecanismos do suor. Ambos os processos resfriam o organismo e impedem seu superaquecimento. Se o organismo perde a capacidade de regular a temperatura corporal - o que ocorre com mais freqüência em bebês, pessoas idosas, com pressão alta ou cardiopatias -, a hipertermia pode levar à morte em poucos minutos por parada cardíaca ou danos causados ao cérebro. O socorro tem de ser imediato, o que nem sempre é possível quando populações inteiras ficam expostas a ondas de calor como as que se têm abatido sobre a Europa e os Estados Unidos.

Veja, 02/08/2006, Geral, p. 78-79

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