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Seminário da BR 163 em Santarém recebe ministros

Info GTA
30 de Mar de 2004

Seminário da BR 163 em Santarém recebe ministros

Os ministros da Integração Nacional, Ciro Gomes, do Meio Ambiente, Marina Silva, e dos Transportes, Alfredo Nascimento, devem chegar na tarde desta terça feira (30) ao município de Santarém onde acontece o seminário "BR 163: O Desenvolvimento Que Queremos", organizado pela sociedade civil para a discussão do planejamento sustentado das obras e impactos da rodovia que liga Cuiabá, no Mato Grosso, a Santarém, no Pará, cuja pavimentação deve ser o primeiro caso de parceria público-privada na Amazônia.

Liderado pelo IPAM e apoiado por entidades como ISA, GTA, FVPP e outros parceiros, o seminário sintetiza um processo iniciado em 2003 com eventos em Sinop (MT), Itaituba (PA) e na própria Santarém. A pressão da soja sobre a floresta amazônica é sentida como parte de um processo onde grileiros de terras, madeireiros e outros atores sociais avançam sobre áreas ambientais e terras ocupadas por moradores tradicionais que acabam seguindo para a periferia das cidades.

As conclusões do seminário interessam ao Grupo Interministerial Permanente Contra o Desmatamento, que recentemente apresentou entre suas diretrizes os cuidados especiais a serem tomados nessa área, dentro de medidas para transformar o chamado "arco do desmatamento" em área de desenvolvimento consolidado e sustentável. O aumento de fiscalização e controle, o investimento em agricultura familiar e a implantação de agendas 21 locais estão entre essas medidas. O corredor da rodovia BR 163, na verdade, é formado praticamente por áreas protegidas e terras públicas da União.

A construção de um plano de desenvolvimento surgido da mobilização social sobre os interesses populares e ambientais no futuro da região será registrada na manhã de quarta (31) com a presença de representantes da Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Mato Grosso e da Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente do Pará. Também participa no encerramento o Instituto Socioambiental da Prefeitura de Santarém. A intenção dos movimentos sociais é contribuir com as três esferas de governo em propostas de desenvolvimento sustentável para toda a área de influência da obra.

Essa participação da sociedade civil (onde somente a Rede GTA vem mobilizando entidades em três coletivos regionais, do Norte do Mato Grosso, da Transamazônica-Xingu e do Baixo Amazonas)é desde já um marco histórico na implantação de grandes projetos na região. Diferentes setores da sociedade civil e de pesquisadores cooperantes participaram do processo nos três pólos, fortalecendo organizações e o respeito com as comunidades locais na redução dos impactos socioambientais.

A segunda-feira foi ocupada pelos participantes com grupos de trabalho sobre os diversos aspectos do plano. Entre os assuntos centrais em debate estão as estratégidas produtivas e o manejo de recursos naturais (com propostas semelhantes vindas do Pará e do Mato Grosso na ênfase na agricultura familiar diversificada e integrada com órgãos públicos de pesquisa e produção, como nas sementes, no acesso a financiamentos, etc.).

Também o fortalecimento social e cultural das populações locais, com o controle participativo nos conselhos sobre as políticas sociais e a mudança metodológica em todos os níveis da educação formal (a questão ambiental como transversalidade e mais conteúdo regionalizado na grade curricular). Outro ponto discutido está sendo o zoneamento econômico-territorial, que precisa ser apropriado pela sociedade para permitir sua intervenção e controle.

No tema de infra-estrutura e serviços básicos rurais e urbanos, existem consensos como sobre a construção do complexo hidrelétrico do Xingu, que vai ter efeitos tanto no Pará como no Mato Grosso e por isso exige soluções conjuntas. Alguns pontos avançados foram a defesa de recuperação de estradas e vicinais, superando o descaso histórico. Outro ponto claro é a necessidade de eletrificação rural para os produtores familiares. Uma forte crítica desabou sobre o Estudo de Impacto Ambiental apresentado pelo poder público, geralmente pobre e sem potencialidade de detectar os impactos reais da obra - ou seja, sem definir com clareza os prejuízos e benefícios do asfaltamento da BR 163.

Outro ponto importante dos debates é o ordenamento fundiário e o combate à violência no campo, tema de justa indignação de todos os participantes presentes e virtuais. Para esse tema, está sendo levantado que as terras da União e do Instituto de Terras do Pará, nas faixas até 100 quilômetros da rodovia, devem ser priorizadas para a agricultura familiar. Também se faz necessário um levantamento cartorial, por policiais federais, nos municípios de abrangência de áreas de que não envolve processos do Incra. E finalmente demarcar e titular as terras de produção familiar rural, onde protocolos de 2.500 hectares atuais passem para 100 hectares (familiar) e 1.000 hectares (pecuária).

Avançando nesse debate de alto nível de qualidade, fruto de diversos movimentos anteriores (como de debate sobre o planejamento regional da Transamazônica e Xingu), a gestão ambiental, o monitoramento e as áreas protegidas contaram com excelentes propostas. Assumindo seu caráter propositiva e não mais apenas reivindicativo, os movimentos sociais e ambientais deram vitalidade para os debates e apontaram soluções como a criação de novos modelos de assentamentos considerando com relevante importância as questões ambientais e a titulação coletiva (base dos debates nacionais sobre assentamentos na Amazônia), urgente definição de áreas de preservação permanente com atenção especial para áreas indígenas e de remanescentes de quilombos. Entre os casos de invasões de madeireiros e mineradoras, com danos ambientais, chamou-se a atenção para conflitos já existentes em Juruti (ALCOA) e em Oriximiná (Mineradora Rio do Norte). Também a hidrelétrica de Belo Monte ameaça grandes impactos ambientais. Se for viabilizada sem maiores estudos, teme-se o início de outras como de Cachoeira-Porteira, em Oriximiná.

Esses são comentários preliminares e não devem ser interpretados antes do texto final do seminário.

O encontro entre representantes de quatro pólos de debates (Mato Grosso, Altamira, Itaituba e Santarém), ao contrário do que jornais e emissoras ligadas aos interesses exclusivos dos grandes latifundiários tentam fazer crer, não está colocando obstáculos ao desenvolvimento econômico. O encontro, que vai contar também com a presença da presidente da Rede GTA, Maria Araújo de Aquino, está buscando informações suficientes, de forma participativa, para evitar que esse desenvolvimento repita erros do passado e possa contribuir para a sustentabilidade da Amazônia Brasileira.

Colaborando com textos em Santarém: Lígia e Bruno Apel.

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www.socioambiental.org

Info GTA, 30/03/2004

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