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Sem pajé, aldeia indígena no AM sofre efeitos da saída de médicos estrangeiros

G1 https://g1.globo.com
Autor: Paulo Paixão
01 de mai de 2019

Às três horas da madrugada o diácono toca o berrante e anuncia que logo tem culto na igreja Hyxkaryana. Aos poucos, eles se acomodam para ouvir a pregação do pastor Oberto Ahyafo que era jovem quando os estrangeiros chegaram. No púlpito, ele ensina o que está escrito na bíblia traduzida nas línguas Hixkaryana e Way Way e explica por que a figura do pajé, o curandeiro das tribos, já não está mais entre os Hixkaryana.

"Antes do evangelho, quando nós não conhecíamos ao Deus de criação, nós praticávamos muitas coisas erradas. Nossos antepassados faziam muitas coisas. A gente chama isso de cultura né?! Só que depois aqueles estrangeiros trouxeram mensagem da verdade. O que é bom, nós continuamos praticando. Remédio de casca de árvore, raízes", disse.

Sem pajelança, os indígenas passaram a acreditar mais na medicina ocidental. O mais recente contato com estrangeiros foi no programa Mais Médicos, quando os cubanos prestavam serviço em áreas indígenas. O médico Arumis Benitez que esteve em Kassaua aguarda o resultado do revalida e ainda mantém esperança de continuar trabalhando no Brasil.

"É muito triste. Sobretudo, para o povo brasileiro. Eu faço o meu trabalho ajudando o povo. Pensei que é um programa que tem fim, sim. Só não pensei que o fim fosse muito rápido. Nós merecemos respeito e o povo brasileiro merece respeito", disse Benitez sobre o programa Mais Médicos.

Antes do rompimento do contrato pelo Governo de Cuba em novembro do ano passado, 13 médicos atendiam nas áreas indígenas sob a jurisdição do DSEI Parintins. O médico Rafael Dutra é um dos remanescentes dessa equipe.

"É triste saber que este acordo foi quebrado e saber que a população indígena vai ficar vulnerável de médicos. Só pedimos que outros profissionais possam suprir essa necessidade. Mas, frente a tal situação, do Governo Cubano, com o Programa, isto deixou muito triste a população indígena", comentou o médico.

No Brasil, 301 dos 529 médicos que atendiam em áreas indígenas eram cubanos, segundo o Ministério da Saúde. O médico Edward Cabrera foi o primeiro especialista a pisar em Kassawá, após décadas de existência da aldeia e evitou que muitos indígenas perdessem a visão.

"A prevenção é essencial. O paciente com uma boa prevenção, evita que se chegue a uma atenção secundária que é em um hospital. Não havia médicos entrando sistematicamente. Depois, começou a ter. Para eles, foi gratificante ter com quem contar", disse Cabrera.

Mesmo sem médicos, os Hyskaryana querem continuar tomando remédios da floresta, melhorar as condições de trabalho dos agentes comunitários de saúde indígena e construir sistemas de saneamento básico, como explica o técnico em saneamento, Pedro Paulo Cruz.

"O posto, em si, não resolve. Mas a questão educativa é muito importante para o trabalho do saneamento. Sem água, a gente não vive. Sem uma água boa, de qualidade, nós não temos saúde", afirmou Cruz.

(*colaboraram Douglas Henrique e Paulo Frazão, da Rede Amazônica)

https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2019/05/01/sem-paje-aldeia-ind…

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