O Globo, O País, p. 6
07 de Dez de 2007
Sem futuro
Presente à 13o Conferência da Convenção de Mudança Climática das Nações Unidas, o Brasil marca sua posição no encontro em Bali com posições que visam muito mais a um acerto de contas com o passado do que à consagração de regras eficazes para enfrentar os graves problemas ambientais do presente. Com isso, o país corre o risco de subscrever proposições que deixam sob risco o futuro do planeta.
0 governo brasileiro não aceita a fixação de metas de redução das emissões de gases que provocam o enfeito estufa, e também se recusa a concordar com a inclusão dos desmatamentos no cálculo dos novos limites poluidores a serem estabelecidos no documento que substituirá o protocolo de Kioto.
0 argumento se baseia em estéril revanchismo: o aquecimento é decorrente da queima de combustíveis fósseis pelas nações industrializadas, que, por decorrência, devem ser punidas. Portanto, a conta dos danos ambientais que ameaçam o mundo deveria ser espetada tão-somente no contencioso dos países desenvolvidos.
Verdadeiro ou não, tal pressuposto não pode mascarar a realidade: o planeta enfrenta uma crise com catastróficas potencialidades, que jogaria na mesma vala da destruição países ricos e pobres. Em vez de se voltar contra o passado, urge que o Brasil se alinhe com uma política pragmática que salvaguarde o mundo com instrumentos capazes de evitar trágicas conseqüências para a Humanidade.
Ademais, deve-se observar que a expiação dos países industrializados, no que diz respeito aos agravos históricos contra o meio ambiente, pode ser resolvida com o estabelecimento de multas proporcionais aos danos provocados. É possível, por exemplo, cobrar das nações desenvolvidas aportes financeiros que financiem programas de preservação ambiental no bloco emergente.
De resto, não é confortável para a imagem do país alinhar-se a países como a China, que sustenta seu crescimento com uma matriz energética suja, como as termoelétricas a carvão, e também é contra o estabelecimento de metas. 0 gigante asiático é atualmente o maior poluidor do mundo, e ano que vem deve ultrapassar os EUA especificamente como o maior emissor do planeta de gases de efeito estufa.
Não atende, portanto, à gravidade e à dimensão da crise mundial a posição do Brasil. É imperativo que o governo brasileiro abandone uma visão que põe o mundo sob o risco de sucumbir a tragédias ambientais, e deixe para endurecer o discurso contra as nações industrializadas naquilo que realmente contribua para superar a crise - como, por exemplo, cobrar dos EUA a subscrição ao protocolo de Kioto.
O Globo, 07/12/2007, O País, p. 6
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