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Sem acordo à vista no G-8

O Globo, Economia, p. 14
07 de Jul de 2008

Sem acordo à vista no G-8
No Japão, Bush não apresenta proposta para alta do petróleo e aquecimento global

O presidente dos EUA, George W. Bush, chegou ontem na ilha de Hokkaido, no Japão, para reunião do G-8 (EUA, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Canadá e Rússia) amanhã e, na quarta-feira, do G-8 com o G-5 (Brasil, China, Índia, África do Sul e México), baixando as expectativas mundiais sobre a possibilidade de que alguma decisão importante em torno dos preços do petróleo ou do aquecimento do planeta seja tomada pelos líderes dos países que respondem por mais de dois terços da população mundial.
Desgastado junto à opinião pública americana (e planetária) e a apenas seis meses do fim de seu mandato - esta é a última reunião do G-8 a que Bush comparece como chefe de Estado americano -, o presidente dos EUA chegou com uma plataforma de combate às altas do petróleo que se resume a tentar ampliar a exploração do produto em áreas protegidas do Alasca e a pedidos para que os países da Opep (cartel que reúne os exportadores) aumentem a produção.
- No futuro, faremos a transição para além dos hidrocarbonetos (petróleo e gás), mas, por hora, estamos num período de transição e precisamos é de mais petróleo - disse ele, deixando os presentes na ilha de Hokkaido com a certeza de que qualquer decisão de peso terá que esperar pelo novo representante na Casa Branca.
Pouca disposição para mexer no dólar
Segundo analistas internacionais, excessivamente comprometido com a indústria petrolífera dos EUA, Bush falha também ao não agir em dois pontos essenciais: medidas para evitar a desvalorização do dólar e estabelecer limites para a emissão de gases pela indústria americana, como propõe o Japão. Quando perguntado sobre possíveis intervenções para conter a queda do dólar - esse é um dos fatores que pressionam a alta do petróleo e também dos alimentos - Bush apenas afirmou que uma melhora na economia dos EUA irá se refletir nas cotações da moeda.
- No que diz respeito ao dólar, os Estados Unidos acreditam numa política de dólar forte e crêem que a força da nossa economia estará refletida no dólar - afirmou Bush, que reconheceu, porém, que a economia americana "não está crescendo de forma robusta como se gostaria".
O tom não foi mais animador sobre o aquecimento global. Bush, de novo, empurrou o problema para os países emergentes: - Serei construtivo. Eu sempre defendi que precisamos de um entendimento comum que pode começar com metas acertadas, mas sou realista o suficiente para dizer a vocês que, se a Índia e a China não dividirem as mesmas aspirações, então não vamos resolver o problema - disse ele, que fez 62 anos ontem.
Pior para o primeiro-ministro japonês Yasuo Fukuda, que pretendia coroar o encontro do qual está sendo anfitrião com um acordo - ou esboço de acordo - sobre ações a serem tomadas nos mais importantes assuntos da reunião: inflação, clima, petróleo e alimentos. Não há consenso nem mesmo em torno do impacto do uso de milho, nos EUA, e outros grãos, na Europa, para a produção de biocombustíveis, o que vem afetando a oferta de alimentos e aumentando seus preços.
Apesar de este impacto ser mais do que sabido entre os países ricos, não há disposição efetiva para estabelecer limites no uso dos alimentos como fonte para os biocombustíveis, o que beneficiaria enormemente o Brasil, cujo etanol de cana-de-açúcar não afeta os preços dos alimentos. E não é à toa que uma das maiores bandeiras do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que chega amanhã em Hokkaido, será buscar um consenso sobre o tema.
Ontem, em sua benção semanal, o Papa Bento XVI exortou o G-8 a cumprir suas promessas de ajuda aos países pobres, neste momento em que essas nações sofrem com a alta de preços de alimentos e energia.

Líderes costuram ajuda para compensar alta de alimentos
Países pobres teriam dinheiro a fundo perdido

Diante da relutância dos países ricos em mexer na questão do petróleo, os esforços em Hokkaido, no Japão, parecem convergir para o problema da alta nos preços dos alimentos (e da conseqüente inflação mundial). Hoje, um grupo de sete países africanos convidados para a reunião do G-8 vai cobrar mais ajuda financeira e mais oferta de alimentos para as nações pobres, especialmente de Ásia, África e América Central, onde acontecem protestos populares e crises políticas.

O projeto que começa a ser esboçado em Hokkaido, segundo diplomatas, buscará resolver o problema em três flancos. A primeira medida prevê o apoio financeiro, provavelmente a fundo perdido, para ajudar os 50 países mais afetados pela fome a comprar alimentos em caráter emergencial. Também está em discussão a criação de uma espécie de superestoque, com grãos fornecidos por cada país de acordo com cotas a serem fixadas futuramente. Esta é uma sugestão do Japão, país com o maior estoque de arroz hoje no mundo.

E, finalmente, está sendo esboçado um fundo de US$10 bilhões, a ser gerenciado pelo Banco Mundial ou pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), para ajudar os países a resolver gargalos na produção de grãos e no transporte de alimentos, este último afetado pelos altos preços do petróleo.

A chanceler alemã Angela Merkel enviou uma mensagem aos líderes do G-8 pedindo uma ação urgente contra a crise. Um grupo de trabalho liderado por especialistas alemães chegou à conclusão de que os 30 países mais pobres do mundo vão precisar de US$20 bilhões para a compra de alimentos. O governo da Alemanha já se comprometeu a destinar US$750 milhões para a ajuda emergencial.

"A crise dos alimentos ameaça a democratização, desestabiliza os países e leva a problemas de segurança internacional", disse Merkel na carta enviada aos líderes e reproduzida na revista alemã "Der Spiegel".

Segundo o Banco Mundial, a crise dos alimentos já empurrou cem milhões de pessoas de volta para baixo da linha da pobreza. Caso o encontro entre o G-8 e o G-5 avance, a idéia é criar um grupo de trabalho especial para executar o plano de combate à falta de alimentos, que os especialistas atribuem não apenas ao crescimento econômico mundial, mas também à falta de investimentos na expansão da produção agrícola.

- As crises do petróleo e dos alimentos estão tendo um impacto negativo na economia mundial - disse o premier japonês Yasuo Fukuda.

O Globo, 07/07/2008, Economia, p. 14

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