O Globo, Ciência, p. 28
Autor: DE BOER, Yvo
04 de Fev de 2010
Sem acordo do clima no México
Para Yvo de Boer, a próxima conferência climática pode terminar como a de Copenhague
Ele comandou a Conferência do Clima da ONU, a COP-15, em Copenhague, em dezembro, um dos encontros que mais mobilizou líderes e a opinião pública do mundo. Apostou alto num grande acordo que não aconteceu, por conta da batalha entre grandes emissores, como China e EUA. Em entrevista exclusiva, o secretário-executivo da Convenção da ONU sobre o Clima, Yvo de Boer, diz que não aposta num novo acordo no próximo encontro sobre clima, no México, em novembro: "Só aposto quando sei que vou ganhar". De Boer avalia os acertos e os erros de Copenhague e diz que os países em desenvolvimento estavam certos ao não ceder às nações ricas.
Deborah Berlinck Correspondente
Davos, Suíça
O Globo: A percepção geral é de que Copenhague foi um fracasso. Que erros não devem ser repetidos no México?
Yvo De Boer: Se tivessem me perguntado um dia depois de Copenhague se o encontro foi um fracasso, eu teria dito sim. Hoje, digo que não. Embora um acordo com força de lei não tenha sido alcançado, 120 chefes de Estado vieram a Copenhague, e 25 ou 30 deles, incluindo os presidentes Lula e Obama, representantes de pequenas ilhas e de países africanos, chegaram a um acordo político. Acho que devemos usar este acordo político para revigorar as negociações.
Mas o acordo político de Copenhague não tem metas para cortar em 50% as emissões em 2050 e nem uma data em que os países se comprometem a chegar a um acordo vinculante mais tarde.
De Boer: A razão pela qual não temos uma meta de corte de 50% é porque não ficou claro para os países em desenvolvimento qual seria a parte deles nesta meta e como isso iria impactar no crescimento econômico. Havia vontade de todos os países industrializados em concordarem com uma meta de cortes de 80% até a metade do século (2050). Isso é uma declaração política. Este compromisso pode não ter sido escrito num acordo legal, mas um acordo legal tem um enorme valor e temos que trabalhar para obtê-lo.
Parte do problema não foi ter tantos chefes de Estado presentes?
De Boer: Não acho que este foi um problema. Mas acho que era preciso haver mais comunicação do pequeno grupo que estava negociando com os outros 90 chefes de estado que não participaram dessas conversações.
O senhor vai querer trazer para o México um número tão grande de chefes de Estado? Ou seria melhor um grupo mais reduzido?
De Boer: Não sei se muitos chefes de Estado vão querer ir ao México. Mas acho que foi bom eles terem ido a Copenhague. Isso demonstrou que havia um compromisso político com a questão das mudanças climáticas. Por outro lado, a presença deles criou uma enorme pressão no processo de negociação. Acho que, para o México, precisamos de algo mais tranquilo, com menos pressão, para deixar as pessoas trabalharem.
Muita gente está acusando a China pela fracasso em chegar a um acordo. Outro acusam os EUA. Qual a sua avaliação?
De Boer: Acho que cada um dos países naquela sala trabalhou muito para chegar a um acordo. Mas quando você fala de uma meta de cortes de 50% nas emissões para o mundo todo, isso quer dizer que você só pode ter um certo nível de emissões. E se 60%,70% ou 80% deste montante já está sendo consumido pelos países industrializados, só sobram 20% para os países em desenvolvimento. Isso significa um limite no seu crescimento econômico e na ações para a erradicação da pobreza.
Então China, Brasil e Índia têm razão quando dizem que países ricos não estavam dispostos a cortar mais suas emissões?
De Boer: Sim, têm razão. Está absolutamente claro que os compromissos que temos dos países industrializados não são bons o bastante. Está claro que a economia mundial não pode continuar a crescer com o atual modelo econômico. As coisas têm que mudar.
O que o senhor tem ouvido das empresas que já investiram em tecnologia limpa?
De Boer: O sinal que obtive é que elas continuam comprometidas como antes de Copenhague, mas estão preocupadas porque os governos não estão sendo claros.
O senhor apostaria num acordo com força legal até o fim do ano, no México?
De Boer: Só aposto se sei que vou ganhar. O importante é que houve muita pressão em Copenhague. Agora as pessoas devem fazer o balanço, refletir e não devemos colocar pressão no processo de negociação neste momento. Não quero prever o quão longe vamos chegar no México
O Globo, 04/02/2010, Ciência, p. 28
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