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Sem acordo

O Globo, Ciência, p. 32
16 de dez de 2008

Sem acordo
Conferência do clima não chega a metas globais

Catarina Alencastro

Ficou mesmo para 2009 o desafio de construir um acordo capaz de combater o aquecimento global. A 14ª Conferência do Clima da ONU, realizada em Poznan, na Polônia, terminou na noite de sábado sem avanços significativos para reduzir as emissões de gases do efeito estufa. Representantes dos 187 países reunidos deixaram praticamente tudo para ser resolvido em Copenhague, na Dinamarca, no ano que vem, a última conferência para se chegar a um novo acordo capaz de substituir Kioto.

Enquanto boa parte dos delegados espera a posse de Barack Obama para que o novo presidente dos EUA assuma as negociações, alguns países ricos condicionaram sua ajuda a países pobres. Ainda assim, alguns acordos menores poderão beneficiar as nações em desenvolvimento. Na avaliação do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, o encontro mereceu nota quatro.

- Eu hoje daria nota 4. Isso mostra o tamanho do nosso desafio para chegar em Copenhague com uma proposta para salvar o planeta. Do jeito que está, o planeta vai para o brejo.

Para ele, apesar de o encontro não ter trazido grandes resultados no estabelecimento de metas de reduções, houve avanço em algumas áreas. A grande conquista, diz Minc, foi o documento de intenção, assinado por 45 países, para troca de tecnologia antiaquecimento global. A proposta foi elogiada pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e pelos ministros de Noruega e Alemanha.

Minc explicou que Brasil não apenas se beneficiaria de uma aliança tecnológica como essa, como também poderia ajudar países da América do Sul, compartilhando a tecnologia do etanol, sem quebrar patente.

- Essas iniciativas já vêm ocorrendo, o problema é que há resistência dos países ricos na questão de patentes. Eles querem ser reembolsados por essa transferência - complementou o diretor-executivo do Greenpeace, Marcelo Furtado.

Ele lembrou que já há um entendimento nesse sentido na área de energia entre Brasil, China e Índia.

Enquanto o Brasil ensinaria sobre etanol, a Índia transferiria seus conhecimentos em energia solar, e, a China, em energia eólica.

O ministro do Meio Ambiente comemorou ainda a futura criação de um fundo de adaptação, que deverá sair do papel somente na próxima rodada do fórum. O plano é que 2% dos investimentos do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), instrumento de incentivo financeiro para abater emissões de CO2, alimentem um cofre para projetos que minimizariam tragédias causadas pela mudança climática.

Minc disse que a Alemanha garantiu investir C 5 bilhões, nos próximos dez anos, para redução de efeitos do aquecimento em países em desenvolvimento. Ele espera que "pelo menos C 1 bilhão venha para o Brasil".

O Fundo Amazônia, criado para incentivar projetos de combate ao desmatamento, foi apresentado pelo Brasil na Polônia para atrair o compromisso de alguns países no mecanismo de Redução de Emissões para o Desmatamento e Degradação (REDD), cujo objetivo é compensar produtores pela não derrubada da mata. Mas o REDD também só deverá ser oficializado em Copenhague.

A questão das metas de redução de gases-estufa decepcionou. Enquanto o Brasil foi aplaudido por apresentar metas de reduzir o desmatamento em até 70% em nove anos, a Europa ficou no compromisso de cortar 20% nos próximos 12 anos.

- Mesmo se conseguíssemos deter hoje o aumento das emissões, as temperaturas globais aumentarão, em média, 2 graus Celsius - alertou o cientista francês Philippe Ciais.

O Globo, 16/12/2008, Ciência, p. 32

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