O Globo, Ciencia e Vida, p.22
14 de Jun de 2004
Segredos do frio e do vento
Roberta Jansen
Caracterizado por uma ocupação demográfica desordenada e a destruição do meio ambiente, o litoral brasileiro preserva praticamente intacto um ecossistema muito pouco conhecido: as areias do Albardão. A região se localiza no extremo sul do país, mais precisamente na faixa litorânea que se estende por 220 quilômetros da Praia do Rio Grande ao Chuí.
]A dificuldade de acesso e o clima inóspito tornaram o local pouco atraente à ocupação humana e propício à biodiversidade. A região abriga de insetos a aves de grande porte, passando por pingüins e lobos-marinhos. A vegetação predominante é rasteira, mas flores como a margarida-das-dunas e plantas medicinais, como macela e carqueja, dão um colorido especial à área. Ao todo, as dunas e praias da pequena região abrigam nada menos que 300 diferentes espécies.
Trata-se de um dos ecossistemas brasileiros mais bem preservados constata o diretor do Museu Oceanográfico da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Lauro Barcellos.
Junto com outros dois especialistas da UFRGS, Ulrich Seeliger e César Vieira Cordazzo, Barcellos acaba de lançar Areias do Albardão, um guia ecológico ilustrado do litoral no extremo sul do Brasil (Editora Ecoscientia, R$ 20). Com mais de 300 imagens, o livro apresenta a história geológica e biológica da região desde a pré-história. E apresenta um panorama da atual biodiversidade e das singulares paisagens da área.
O clima é muito frio (a temperatura chega facilmente a zero grau Celsius no inverno) e há ventos e correntes oceânicas muito fortes detalha Barcellos. Isso sempre dificultou a ocupação humana e garantiu a preservação da fauna e da flora.
Para sobreviverem às condições climáticas adversas da região, as plantas e animais do Albardão apresentam adaptações singulares, que despertam a curiosidade de especialistas.
Trata-se de um local de difícil sobrevivência e, por isso, os animais e plantas da região apresentam características relacionadas a essa peculiaridade ambiental explica Barcellos. Os animais, por exemplo, são dotados de mecanismos fisiológicos que lhes permitem resistir à salinidade e aos ventos.
A paisagem é marcada por dunas e marismas (terrenos alagadiços à beira do mar) recobertos de vegetação rasteira ou de porte pequeno, ideais para resistir aos fortes ventos.
Além disso, as plantas têm glândulas capazes de secretar de seu organismo o excesso de sal. As plantas também têm mecanismos que permitem suportar a desidratação provocada pelo sal detalha o especialista da UFRGS.
É o caso da margarida-das-dunas, cujas folhas são revestidas de pêlos que evitam a perda excessiva de água.
Popularizar o conhecimento sobre a região, diz Barcellos, tem um objetivo estratégico: ajudar a mantê-la preservada.
A ocupação necessita de ordenação imediata, precisamos de um plano de manejo adequado aponta o especialista. Já constatamos uma quantidade grande de lixo na costa e redes de pesca abandonadas no mar, sem falar em tonéis com produtos químicos.
O Globo, 14/06/2004, p. 22
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