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Autor: Gabrielle Chagas
18 de Fev de 2019
A secretária Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Sandra Terena, pediu nesta segunda-feira (18), em São Carlos (SP), que a agressão ao ajudante de serralheiro indígena, que teve o braço direito amputado após ser espancado por três homens, seja investigado como crime étnico-racial.
Ela esteve na cidade nesta segunda-feira (18) para acompanhar o caso e entregou ao delegado do 2o DP, Walkmar Silva Negré, uma denúncia recebida pelo Disque 100 (Disque Direitos Humanos).
"Pelo que ele [delegado] nos passou, ele não tinha essa informação, mas como foi nos passado um áudio da vítima em que ele relata que sofreu agressão verbal com frases do tipo 'indígena não merecia viver' a gente encaminhou um documento ao delegado com esse recorte étnico-racial", afirmou.
Insegurança
A secretária também visitou a vítima na Santa Casa, onde está internada desde 25 de janeiro. Nesta segunda, o indígena de 39 anos foi transferido para um quarto individual.
Segundo o hospital, há um pedido de transferência do paciente para um hospital tenha um atendimento mais próximo da cultura indígena. O pedido foi confirmado pela secretária.
"É um pedido da família e a gente vai, dentro do possível, fazer essa interlocução para que isso aconteça porque vai fazer com que eles se sintam melhores acolhidos", afirmou.
Em um áudio obtido pelo G1 o indígena relatou como foi a agressão no dia 18 de janeiro e diz temer pela sua vida. "Eles falavam que iam acabar comigo, minha família também", disse.
Sandra Terena disse que conversou com a administração do hospital para viabilizar a transferência do ajudante e para um local do interesse da família.
O hospital disse que está fornecendo toda a segurança possível ao paciente e solicitou que ele fizesse uma lista das pessoas com permissão para visitá-lo.
Relato sobre a violência
A gravação foi feita na sexta-feira (15) pelo professor de sociologia e fundador da ONG Associação Veracidade, Djalma Nery Ferreira Neto, e cedida ao G1. Ele está acompanhando o caso e dando assistência para a família, que está com medo e preferiu não falar sobre o assunto.
O crime aconteceu no dia 18 de janeiro, mas só foi registrado na terça-feira (12) após uma denúncia anônima. O ajudante de serralheiro relatou que no dia da agressão, após o trabalho, foi a um bar com um homem, que ele conhecia e cujo nome já foi informado para a polícia. No local, ocorreu uma discussão entre eles e o homem acusou o ajudante de ter furtado R$ 100.
O homem foi embora e o ajudante de serralheiro foi em seguida em seu carro. O homem o encontrou em um semáforo e pediu carona. Ele entrou no carro e pegou a chave.
"No que ele pegou, ele veio para cima, tentei me defender e dei um soco nele. Aí ele falou: 'então é assim que você quer? Então tá bom'. Fui no banco do carona e ele dirigindo", disse.
Logo depois, eles se encontraram com um amigo do homem. "Aí pegaram e me levaram lá em casa. Eu estava com a chave mas não abri a porta. A intenção era roubar o carro, eles queriam ferramenta e tudo. Queriam de tudo quanto é jeito", relatou.
Ele afirma que eles saíram da casa e foram para uma mata no Jardim Zavaglia. "Eles falaram: 'o negócio é o seguinte ou você me dá o carro e as coisas ou a gente vai te matar'. Eles pararam o carro no escuro e começou primeiro a me bater. Eles começaram a me espancar e me espancar. Aí ele deu uma paulada na minha cabeça, fiquei desacordado e quando acordei de repente já estava com uma parte [do braço] para o lado de fora [do carro]. Um me sufocando, um segurando e um batendo a porta no braço", disse.
Ameaças de morte
O ajudante também relatou que era ameaçado de morte durante a agressão.
"[Diziam:] 'a gente vai te matar. Você é um a menos para nós, você não faz diferença nenhuma'. Eles ainda falaram que o corpo eles iam jogar no meio do mato e no carro ia dar um sumiço".
Mesmo ferido, ele relata que foi embora dirigindo e não procurou socorro. "Na segunda eu tomei remédio, na terça em diante que começou a doer o braço. Fui direto na UPA e depois fui encaminhado para a Santa Casa e fiquei aqui internado, desde o dia 24", afirmou.
Ele ainda disse que mentiu no hospital sobre o que tinha acontecido por medo. "Eles falavam que iam acabar comigo, minha família também, tanto que eu vim para Santa Casa e nem falei o motivo, falei que caí do cavalo".
O braço direito acabou sendo amputado por conta da gravidade das lesões. Ele ainda deverá passar por uma outra cirurgia, segundo a assessoria da Santa Casa.
"É meu único meio de ganha pão, eu trabalhava com ele e agora eu não tenho mais. A vida continua, mas não é mais a mesma coisa. Tudo muda completamente, muda o jeito de ver, o jeito de ser, o jeito de agir. Também não sei se o pedaço aqui vai dar para por uma prótese", afirmou.
O ajudante de serralheiro ainda está preocupado com sua segurança e da família. "A minha preocupação é minha família ser exposta. É uma coisa de risco né. Do jeito que fizeram uma vez eles podem pegar de novo né. Eu tenho muito medo. Não me sinto protegido", disse.
Investigação
A Polícia Civil está investigando o caso e informou que ainda não têm indícios de crime étnico-racial. Ele também falou sobre a possível apuração de tortura.
"O crime será investigado como lesão corporal. Se no transcorrer das investigações houver algum caso a respeito de tortura aí é enquadrado nesse crime, mas inicialmente é lesão corporal", afirmou ao G1 o delegado seccional de São Carlos, Rogério Fakhany Vita durante a tarde, antes do encontro com a secretária.
Ainda segundo o delegado, os suspeitos estão sendo investigados e, assim que forem localizados, serão ouvidos.
https://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2019/02/18/secretaria…
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