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Seca na Amazonia

CB, Opiniao, p.24
16 de out de 2005

Seca na Amazônia
Acostumados a terríveis cenas de seca no Nordeste, os brasileiros convivem nos últimos dias com imagens até então inimagináveis. Cientistas ainda avaliam hipóteses em busca de explicações defmitivas para a estiagem que atinge a maior floresta tropical do planeta, a Amazônica, numa intensidade que não se registrava havia mais de 40 anos. Embarcações encalham em bancos de areia nos leitos de afluentes do mais volumoso rio do mundo. Peixes morrem, e em algumas áreas foi preciso proibir a pesca comercial. Populações inteiras ficaram isoladas, dezenas de cidades entraram em estado de emergência ou de alerta.
0 fenômeno já dura dois meses. E, em vez das habituais chuvas torrenciais dessa época do ano, pouca água começou a cair na região na última semana, em volume insuficiente mesmo para tornar novamente transitável a malha hidroviária que serve os 62 municípios do Amazonas, muitos dos quais passaram a depender do auxilio emergencial de aviões e helicópteros das Forças Armadas para receber desde alimentos e remédios até água potável.
Havia, sim, um alerta para risco de seca na Amazônia, mas para daqui a 45 anos. A previsão consta de estudo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) iniciado seis anos atrás e divulgado em maio último. 0 cenário projetado considerava a manutenção do ritmo das queimadas e do aquecimento das águas do Oceano Atlântico. 0 fato é que os satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) identificaram 131,5 mil focos de incêndio na região em 2003 e 135 mil em 2004.
Há previsão de que chuvas fortes voltem a cair sobre a floresta a partir de novembro. As imagens estarrecedoras de agora devem, contudo, servir de advertência, ser guardadas como exemplo da fragilidade de um ecossistema cujo porte monumental o faz parecer mais forte do que certamente é.
A responsabilidade com a preservação se torna ainda maior por ser a Amazônia, com toda a importância que representa para a humanidade, mais do que vítima do descontrole climático mundial. Bem conservada, pode contribuir para amenizar as mesmas alterações da natureza que a atingem. Do contrário, entrará em destrutivo círculo vicioso.
Lastima-se, enfim, que, em nome do ajuste das contas públicas, o governo retenha preciosos recursos de programas e projetos capazes de melhorar as perspectivas futuras da região. Este ano, por exemplo, liberou menos da metade (44,86%) dos recursos autorizados para o Programa de Prevenção e Combate ao Desmatamento, Queimadas e Incêndios Florestais - e apenas 8,76% dos destinados ao Programa Nacional de Florestas e 6,72% do Amazônia Sustentável.

CB, 16/10/2005, p. 24

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