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Seca ameaça oito mil índios no Amazonas

O Globo, O País, p. 11
15 de out de 2005

Seca ameaça oito mil índios no Amazonas
Com rios secos, pelo menos sete tribos não têm como pescar e comida já acabou na área dos sateré-maué

A fome ameaça cerca de oito mil índios que moram em áreas de influência das calhas de rios que estão secos no Amazonas. Em Manaus, a Funai alertou ontem que os sateré-maué já passam fome. Além deles, pelo menos mais seis tribos estão ameaçadas. Os mura, mundurucus, parintintins, porá, apurinã e tenharim também estão afetados pela seca.

- Não há como pescar - diz o administrador substituto da Funai em Manaus, Edgar Fernandes Rodrigues.
O receio é que, com o baixo nível dos rios, o consumo de água suja provoque doenças como diarréias e irritações na pele. Alguns casos isolados já foram relatados à Funai, mas nada alarmante ainda, segundo o órgão.

General vai articular ação federal no Amazonas
Por determinação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Jorge Félix, seguiu ontem para o Amazonas para articular medidas emergenciais. Félix pretende fazer um sobrevôo nas áreas mais afetadas para ter um quadro mais atualizado da situação.

Em Manaus, ele deverá se reunir com o governador Eduardo Braga para acertar medidas do governo federal no estado. Félix seguiu para Manaus depois de reunião com o presidente em exercício, José Alencar, na qual foram analisadas ações do Palácio do Planalto no Amazonas.

As tribos ameaçadas pela falta de alimentos estão localizadas em regiões onde a seca é mais intensa, como o Vale do Javari, o Alto Rio Negro, o Alto Solimões e o Baixo Amazonas. A expectativa é que elas sejam atendidas pela força-tarefa do governo e das Forças Armadas no início da semana que vem. Tribos que estão localizadas próximo às fronteiras com o Peru e a Colômbia são as que têm o acesso mais difícil, por isso devem ser priorizadas.
Outra preocupação da Funai é em relação ao isolamento dos índios. Não há como fazer o transporte em caso de atendimentos de emergência.

- Precisamos dispor de outros veículos que não sejam barcos - diz Rodrigues.
Ontem o governo amazonense anunciou que vai aumentar o número de cestas básicas. Em vez de 50 mil, serão distribuídas 122 mil, sendo 50 mil sendo cedidas pela União e 72 mil pelo estado. A intenção é atender a 132 mil famílias, incluindo as comunidades indígenas, que não devem ser as primeiras a receber as cestas. A prioridade será para os moradores das zonas rurais de Anamã, Anori, Caapiranga, Manaquiri, Careiro da Várzea e Careiro Castanho.

Forças Armadas esperam verba para combustível
Balsas e aviões irão fazer o transporte dos alimentos e remédios a essas comunidades. Mas ainda há um empecilho. As Forças Armadas ainda dependem da liberação de recursos para a compra de combustível, o que pode atrasar a remessa dos produtos para as localidades mais distantes.

O estado de calamidade pública foi decretado há cinco dias pelo governo amazonense, mas as comunidades isoladas ainda não foram atendidas por causa da dificuldade de acesso.
- Começamos a instalar núcleos nos principais municípios. Vamos atacar primeiro o início do Rio Solimões. Cada cidade terá sua própria estrutura para receber ou por balsas ou por via aérea as cestas e remédios. Em comunidades menores a distribuição será feita por helicópteros - explicou o coordenador da Defesa Civil, Roberto Rocha.
A Secretaria de Saúde já recebeu diversas remessas de remédios contra a malária, doenças respiratórias e de pele para reforçar o estoque. Todos os produtos foram comprados sem licitação como permite a lei em situação de emergência. Foram gastos R$2,5 milhões. O Ministério da Saúde anunciou que vai enviar kits de remédios para atender às vítimas da seca. Serão 2,8 toneladas de remédios.

- As comunidades estão estocando comida e água, esperando a ajuda. A outra alternativa é andar por vários dias até chegar a outras localidades - diz o prefeito de Caapiranga, Antonio Marques.

Chuvas no Acre podem ajudar Amazonas
As chuvas que há três dias começaram a cair no Acre podem ajudar a minimizar a seca no Amazonas. É o que acredita o secretário de Meio Ambiente do Acre, Edgard de Deus. Isso porque, segundo ele, muitos dos rios que banham as comunidades no Amazonas tem sua foz no Acre.

- Não tenho dúvida quanto a isso. Se começa a chover nas cabeceiras dos rios, como já vêm acontecendo, o volume das águas tende a subir. E isso pode afetar os rios no Amazonas. Mas é necessário que chova por lá também - disse o secretário.

Alguns dos rios mais importantes do Acre, como o Acre e o Purus, deságuam no Rio Amazonas. E o setor de meteorologia prevê mais chuvas no Acre. Ontem não foi detectado nenhum foco de calor em todo o estado. Nem mesmo na reserva Chico Mendes, uma das áreas que mais vinham sendo castigadas durante o período de seca no estado.

A confiança na volta das chuvas é tanta que o governo acreano liberou as queimadas controladas, que são autorizadas por lei.

O Globo, 15/10/2005, O País, p. 11

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