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‘Se as pessoas soubessem o que acontece com os animais, haveria indignação pública’, afirma ambientalista Krithi Karanth

Um só Planeta - umsoplaneta.globo.com
Autor: Giulia El Houssami, de redação Marie Claire
07 de Mai de 2026

Aos dois anos, Krithi Karanth ficou frente a frente com um leopardo pela primeira vez, em plena selva. Filha de um biólogo renomado, a jovem cresceu nos Gates Ocidentais, cordilheira no sul da Índia, habituada desde cedo à vida em meio à natureza. O que começou como um vínculo afetivo se transformou em propósito durante o mestrado na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, onde desenvolveu seu primeiro projeto de conservação ambiental. Hoje, após mais de duas décadas de atuação, ela acaba de receber o título de Rolex National Geographic Explorer of the Year 2026.

A iniciativa, fruto de uma parceria entre a Rolex e a National Geographic, reconhece líderes que desenvolvem soluções para desafios ambientais globais e inspiram caminhos para um futuro mais sustentável.

"Eu não gosto da palavra equilíbrio, nem da palavra coexistência", afirmou Krithi durante uma roundtable internacional da qual Marie Claire participou representando o Brasil. Para ela, a relação entre comunidades e fauna selvagem é instável: envolve medo, risco, perdas materiais e, em alguns casos, ferimentos ou mortes. Por isso, Karanth prefere falar em adaptação.

"Não se trata de algo pontual. É preciso reforçar continuamente, ao longo da infância e também da vida adulta, para que as pessoas mantenham essa preocupação com a natureza", afirma.

Em alguns países, onde animais selvagens, nem sempre permanecem dentro de áreas protegidas, esse desafio é cotidiano. Eles atravessam campos agrícolas, parques e regiões habitadas, aproximando-se de pessoas que também dependem daquele território para viver.

Ainda assim, Karanth observa que muitas comunidades lidam com esses encontros de forma menos hostil do que outras - reflexo, segundo ela, de uma relação cultural mais antiga com os animais.

"Há muitas religiões e culturas animistas em jogo, inclusive na Índia hoje, um cenário parecido com o Brasil. Há muitas camadas envolvidas: religião, cultura, alimentação. Toda essa complexidade faz com que determinadas culturas os valorizem de maneiras diferentes, porque os vemos como poderosos, como seres que compartilham a terra conosco", explica.

Foi justamente por acreditar que a forma como as comunidades se relacionam com os animais influencia diretamente sua capacidade de lidar com a vida selvagem que Karanth criou a Wild Shaale. A iniciativa educacional, voltada a crianças que vivem próximas a áreas de preservação, começou em 2018 e já impactou cerca de 72 mil jovens em 39 reservas na Índia.

Quando questionada por Marie Claire Brasil como os programas de conservação podem servir de modelos ajustáveis para outras regiões do planeta, ela reflete que os princípios ecológicos são os mesmos, basta considerar o contexto local.

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"O que muita gente não percebe sobre a conservação é que ela simplesmente leva tempo. Quando você trabalha desde a base e constrói comunidade, você estabelece confiança com atores locais que fazem a diferença."

Para Karanth, essa mobilização comunitária também depende de ampliar a circulação de histórias sobre caça furtiva, tráfico de animais silvestres e perda de habitats, problemas ainda urgentes no cenário global. A conservacionista reflete que, com o avanço da internet e redes sociais, se tornou mais difícil rastrear a rede de comercialização que sustenta negócios ilegais no meio ambiente.

"Não há narrativa suficiente sobre isso. Haveria muito mais indignação pública se as pessoas soubessem do que, de fato, está acontecendo com os animais. Vemos isso quando organizações de defesa de direitos animais expõem essas situações envolvendo gatos, cães e animais de estimação, as pessoas ficam muito emocionadas e querem agir."

Por fim, ela ainda reconhece que para um futuro mais sustentável, em adaptação com as necessidades de seres humanos e animais, depende também da ampliação de vozes independentes, apesar dos riscos. "Temos visto a perseguição a esses profissionais por escreverem e reportarem histórias que não agradam determinadas corporações ou governos. Na conservação, assim como no jornalismo, a capacidade de se manter independente é essencial para garantir que os fatos venham à tona e que a verdade prevaleça."

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