O Globo, O País, p. 14
03 de Mai de 2009
'Se eu acabar, ninguém fará meu trabalho'
Religiosa que defende direito de agricultores em Mato Grosso diz que não desistirá, apesar de dois atentados e ameaças
Entrevista: Leonora Brunetto
Quatro anos depois da morte da missionária americana Dorothy Stang em Anapu, no Pará, uma outra freira ativista de direitos humanos corre o risco de também ter um destino trágico. A irmã Leonora Brunetto, de 63 anos, 40 deles dedicados aos pobres, vive sob ameaça de morte no Norte de Mato Grosso, onde desenvolve um trabalho de conscientização junto a pequenos agricultores e sem-terra. Sem esconder o medo de falar por telefone - pelo qual tem recebido inúmeras ameaças -, ela disse que não vai desistir da sua luta contra fazendeiros que teriam invadido áreas públicas e grilaram terras. "Tenho compromisso com o Evangelho", disse ela, em entrevista exclusiva. "Tento segurar minha vida ao máximo, faço o que eu posso, mas se acontecer, o que eu posso fazer?", diz a freira, sobre as ameaças de morte que vem sofrendo. "Se eu acabar, ninguém vai fazer meu trabalho. E uma a mais ou uma a menos fazendo o meu trabalho faz diferença".
Flávio Freire
São Paulo
O globo: A senhora está sendo ameaçada por conta de conflitos agrários em Mato Grosso?
Leonora Brunetto: A gente não quer dizer, mas é por aí.
Na verdade, não falam coisa com coisa, falam só besteiras.
"Você está?", "Vai ficar bem?", "Espere um pouco, vai chegar a sua vez".
Por que a senhora está sendo ameaçada?
Leonora: Pela situação de trabalho escravo, da destruição das matas, da luta pela agricultura familiar. É difícil falar sobre isso porque meu telefone está sempre clonado. Já fui muito ameaçada. No ano passado, havia parado, mas recomeçou.
Já sofreu algum atentado?
Leonora : Dois, mas pelo amor de Deus, é uma história muito ruim. Passaram a noite rodeando a minha casa e vizinhos me ligaram para dizer que (gente dos fazendeiros) estavam rodando. Ficamos em vigília. Aí, um amigo veio aqui para casa para nos proteger. E nesse mesmo dia, à tarde, o mataram ele.
Como foi o outro atentado?
Leonora: Não posso falar pelo telefone, é difícil falar sobre isso ao telefone.
Agricultores e sem-ter ra também são ameaçados?
Leonora: Para eles, as ameaças chegam de forma direta, passam com caminhonete em cima deles, das motos deles, e também das plantações.
São madeireiros as pessoas que fazem as ameaças?
Leonora: Não. São fazendeiros. Eles não querem a retomada das áreas públicas. O maior problema são áreas griladas da União. Os agricultores estão com o Incra, lutando por assentamento, mas os fazendeiros não querem deixar entrar. Nossa luta é ao lado da CPT (Comissão Pastoral da Terra).
Já foram registradas mortes aí na região de Nova Guarita (divisa de Mato Grosso e Pará)?
Leonora : Aqui em Mato Grosso? Só num acampamento foram sete mortos, entre 2004 e 2006. Em outro foram mortos mais dois.
A senhora está recebendo proteção da Polícia Federal?
Leonora: É, fico meio escondida. Volta e meia eles (fazendeiros) estão me monitorando.
Que tipo de trabalho a senhora faz com esses agricultores?
Leonora: Faço um trabalho de conscientização pelos direitos, pela terra, pela dignidade, pela vida. Os agricultores fazem a segurança, é mais garantido.
A senhora já pensou em abandonar a região?
Leonora: Não vou deixar o povo do jeito que está. Tenho compromisso com o Evangelho, com a continuidade da missão que Jesus começou. O que posso fazer? Estou evitando, quero a minha vida. Tento segurar minha vida ao máximo, mas se acontecer, o que posso fazer? Vou me defender porque a vida é preciosa, e, se eu acabar, ninguém vai fazer meu trabalho.
O Globo, 03/05/2009, O País, p. 14
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