OESP, Metrópole, p. A15
27 de Dez de 2015
Santos já se prepara para avanço do mar
Município precisará investir R$ 238 mi em medidas de adaptação para evitar prejuízos de mais de R$ 1 bi com uma subida do oceano de até 80 cm
Fábio de Castro - O Estado de S. Paulo
Com as mudanças climáticas, o oceano subirá de 45 a 80 centímetros até 2100, avançando até 80 metros sobre as praias da cidade de Santos, no litoral paulista. Em diversos pontos, o mar invadirá periodicamente 25% da área urbana - causando prejuízos bilionários -, enquanto a operação no maior porto do Brasil se tornará inviável. Para enfrentar esse cenário catastrófico, previsto por dois diferentes projetos de pesquisa, a prefeitura da cidade e a comunidade científica já começaram a traçar planos para as grandes obras de adaptação que se farão necessárias.
Cada um dos estudos considerou diferentes cenários climáticos e usou modelos distintos para calcular os efeitos da elevação do mar na cidade paulista. Um deles prevê que a elevação da maré atingirá no mínimo 18 centímetros até 2050 e poderá chegar a 45 centímetros até 2100. Com isso, Santos precisará investir R$ 238 milhões em medidas de adaptação para evitar prejuízos de mais de R$ 1 bilhão nas duas áreas mais vulneráveis da cidade: a Ponta da Praia - bairro valorizado que já sofre com o avanço da maré - e a zona noroeste, área de baixa renda, longe das praias, mas alagável e cercada de mangues.
"Esses valores foram calculados com base no valor venal das propriedades que serão atingidas. Mas o estudo não incluiu os impactos no porto e na infraestrutura urbana. Por isso, o valor real do prejuízo será imensamente maior que R$ 1 bilhão", disse o cientista José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), coordenador geral do estudo - que também envolve instituições como a Universidade de São Paulo, (USP), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
O estudo faz parte do Projeto Metropole (em inglês), uma iniciativa internacional que diagnosticou os impactos da elevação da maré em três cidades - Santos, Broward (Estados Unidos) e Selsey (Inglaterra). "No Brasil, Santos foi escolhida porque é a cidade litorânea que possui os dados históricos mais completos sobre as variações das marés e o georreferenciamento mais preciso entre as cidades litorâneas", disse.
Depois de uma fase de avaliação detalhada dos impactos, os cientistas apresentaram publicamente os resultados e, no início de dezembro, coletaram sugestões de adaptação de representantes da sociedade civil de Santos. As propostas foram processadas nos Estados Unidos, para avaliação da viabilidade técnica e quantificação dos valores das obras. "A prefeitura encampou o projeto, porque ele vai auxiliar a cidade a criar um plano de adaptação às mudanças climáticas", disse Marengo. Para ele, a necessidade de obras de adaptação é uma realidade inevitável - e os estudo feitos em Santos serão o modelo para outras cidades litorâneas. "Não é preciso esperar que o clima mude para ver o que já está acontecendo. A população de Santos já percebe o problema quando as ressacas inundam a avenida da praia. Por isso alguns prédios têm garagens subterrâneas com comportas", afirmou.
Plano de adaptação. Segundo o prefeito de Santos, Paulo Alexandre Barbosa (PSDB), as propostas escolhidas incluem a modernização das comportas dos canais, a recuperação do mangue, o aumento artificial da faixa de areia das praias e a construção de muros de proteção em trechos da orla. "Todas as ações terão base em informações técnicas, mas a discussão será profunda. Ouviremos a população e não aplicaremos a opinião isolada de nenhum técnico, autoridade ou instituição", disse Barbosa.
De acordo com ele, o projeto é o embrião de um plano para enfrentar a elevação da maré. No início de dezembro, um decreto criou a Comissão de Adaptação à Mudança do Clima. "Levamos a sério o diagnóstico feito pelos cientistas e sabemos que as mudanças climáticas são inevitáveis. Confiamos no planejamento para desenvolver soluções técnicas. No prazo de um ano, teremos um plano para que Santos possa se adaptar", declarou.
Inundação dos mangues poderá bloquear o porto de Santos
Fábio de Castro - O Estado de S.Paulo
A elevação do nível do mar afogará 50% da vegetação dos manguezais no entorno de Santos até 2100, fazendo com que sedimentos finos sejam liberados em grande quantidade, o que provocará o assoreamento do estuário do porto, inviabilizando as operações. A previsão é do engenheiro Paolo Alfredini, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, que liderou um estudo sobre os impactos costeiros, para um relatório da extinta Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.
Segundo o modelo de Alfredini, até 2100 o mar subirá 80 centímetros em Santos e a cidade precisará de grandes obras de adaptação para salvar as operações portuárias. Além do assoreamento, a subida do mar reduzirá o espaço entre o cais e a água - de 1,6 metro na época da construção para 48 centímetros em 2100. "Com isso, uma simples ressaca será suficiente para inundar o cais", afirmou.
A principal recomendação do pesquisador é a construção de dois molhes - maciços de pedra revestidos de blocos de concreto - com cinco quilômetros. "Eles confinariam as correntes de maré, aumentando a velocidade da água no canal. Isso ajudaria a limpá-lo, evitando o assoreamento com a areia do mangue", explicou Alfredini.
Além de proteger o porto, os molhes também ajudariam a reduzir o impacto da elevação do nível do mar na cidade. Considerando a inclinação das praias de Santos, segundo Alfredini, cada centímetro de elevação do mar acarreta a perda de um metro de praia. "Isso significa um avanço de 80 metros até 2100. Com os molhes, a areia seria barrada e, em vez de assorear o estuário, ela engrossaria as praias, que são a primeira linha de defesa da cidade." A construção dos molhes custaria cerca de R$ 400 milhões, segundo ele.
De acordo com Alfredini, a erosão das praias já é acentuada na cidade e a combinação da elevação do nível do mar com chuvas intensas, maré alta, e tempestades que aumentam o tamanho das ondas causará inundações frequentes. "As ressacas na cidade já são bem agressivas, fazendo o mar ultrapassar as muretas, invadir a avenida beira-mar e as garagens de prédios."
Orla. O problema, segundo ele, foi agravado pela urbanização da praia, feita entre 1920 e 1940. "Os jardins da orla sitiaram a praia, engessando a paisagem. A grande área de vegetação de restinga que defendia a cidade foi substituída pela avenida e pelos jardins."
Para solucionar o problema da orla, Alfredini propõe a remoção dos jardins e a construção de dunas artificiais, ou de um dique. "A longo prazo, por volta de 2050, é provável que Santos precise construir uma barreira móvel de comportas, como a de Veneza, na Itália, ou a do Porto de Roterdã, na Holanda. A elevação da borda do cais também será fundamental", disse Alfredini.
OESP, 27/12/2015, Metrópole, p. A15
http://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,santos-ja-se-prepara-para-…
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