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Santo de casa...

Correio do Litoral - http://correiodolitoral.com
Autor: Werney Serafini
07 de Out de 2010

A sabedoria popular é pródiga em ditados. Alguns do tipo, "santo de casa não faz milagres", "casa de ferreiro, espeto de pau", "a galinha do vizinho põe ovos maiores" e outros, servem para predestinar o pessimismo às iniciativas caseiras.

Itapoá, na opinião de muitos, não tem motivos para atrair turistas. E as causas são várias: a precária (e que já foi pior) infraestrutura da cidade, o abastecimento de água insuficiente, os apagões de energia elétrica e, principalmente a falta de atrativos e entretenimentos para os visitantes.

Mesmo assim, no final do ano, em janeiro e no carnaval, eles aqui chegam aos milhares tomando conta da praia. Vários acabam se queixando das precariedades, alguns, radicalmente, até dizendo: "Itapoá, nunca mais! Entretanto, o que se vê, todo final e início de ano, é o fluxo constante e sempre crescente. Não se tem notícia de temporada com pouca gente. Por quê?

Quase sempre, a resposta é dada com exemplos de fora, santos de outras paragens porque, segundo o dito, os de casa não fazem milagres mesmo. Um dos citados é Bonito, em Mato Grosso do Sul, "case" de sucesso em destino turístico permanente.

Mas, Bonito é Bonito e Itapoá é Itapoá. Um no meio oeste brasileiro, o outro no litoral norte da Santa e Bela Catarina. Nem sequer são próximos. No entanto, têm semelhanças, pois, os dois, foram aquinhoados com um patrimônio natural repleto de atrativos invejáveis. Cada qual é claro, com as suas peculiaridades.

Para quem não sabe Bonito não chegou ao que é por mera obra do acaso. Foi necessária ação enérgica de um promotor do Ministério Público que fez cumprir as leis ambientais de proteção das áreas de preservação permanente das margens dos rios. Fazendeiros conscientes aderiram espontaneamente às ações de preservação. Outros, renitentes, por força da lei.

Ambiente preservado, rios saudáveis, límpidos, profusão de peixes, flora e fauna diversa, transformaram-se no atrativo que fez Bonito conhecido nacionalmente. A sociedade e os empreendedores liderados pelo poder público, implantaram, gradativamente, a estrutura indispensável para desenvolver o turismo na cidade. E Bonito é o que é hoje, cidade brasileira referencia em turismo de natureza.

Itapoá é diferente? Certamente que não. Situada à beira mar, tem praias banhadas por águas quentes e não poluídas, porém, no verão apresenta locais impróprios para os banhistas.

Tem o rio Saí-Mirim, excelente para a prática de canoagem, com o curso preservado, porém, com trechos assoreados e margens ocupadas indevidamente. Seu território abriga um dos últimos remanescentes da floresta atlântica de planícies costeiras no sul do país, porém, não tem unidades de conservação públicas.

Detentora de fantástica avifauna, referência internacional na observação de aves, tem espécies endêmicas, ameaçadas de extinção a exemplo da Maria Catarinense, porém, carentes de áreas protegidas. E ainda, está inserida no entorno da Baía da Babitonga que reúne condições excepcionais para o turismo náutico e que, infelizmente, também tem os seus poréns.

Portanto, o patrimônio natural de Itapoá é uma realidade. Tanto quanto em Bonito. Porém, aqui, existem os diversos poréns. Poucos empreendedores têm consciência ou estão sensibilizados para a importância econômica desse recurso natural. A Reserva Volta Velha, por exemplo, recebe há anos pesquisadores, cientistas, turistas e, notadamente, observadores de aves do mundo inteiro, não apenas no verão, mas durante todo o ano.

Há poucos dias, um evento exitoso veio comprovar a potencialidade dos atrativos naturais de Itapoá. Um grupo local, aficionado por MotoCross organizou o III Encontro de Trilheiros.

O atrativo, uma trilha com mais de 60 quilômetros de extensão nas áreas naturais do município. Itapoá recebeu cerca de 2.000 pessoas e perto de 1.000 motos, sucesso incomum para os padrões locais. Hotéis e restaurantes foram surpreendidos com a intensa movimentação na baixa estação.

Então? O que está faltando? Talvez o entendimento daquilo que se faz necessário. Dar prioridade a questão ambiental aliada ao desenvolvimento de atividades em áreas naturais, como alternativa para o turismo fora da temporada. Uma atitude do Poder Público assumindo a decisão política de priorizar o turismo, estimulando e organizando criativamente os empreendedores e profissionais da cidade a se capacitarem para esse investimento.

Assim como o santo de Bonito, o de Itapoá também pode fazer acontecer, mas para isso é preciso vontade, fé, competência, ação, persistência e capacidade de mobilização. Não basta ascender uma vela e ficar esperando pelo milagre...

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