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Santo Antônio 24 horas por dia

O Globo, Economia, p. 27-28
19 de Jul de 2009

Santo Antônio 24 horas por dia
Obras da usina já empregam 5.200, que trabalham em três turnos. Consórcio exigirá indenização se Jirau atrapalhar

Ramona Ordoñez*
Enviada especial
Porto Velho

As obras de construção da usina hidrelétrica de Santo Antônio, no Rio Madeira, em Rondônia, estão em ritmo acelerado. São três turnos de trabalho, com 5.200 trabalhadores envolvidos, revezando-se 24 horas por dia. O grupo empreendedor da usina, o consórcio Santo Antônio Energia - formado por Odebrecht, Andrade Gutierrez, Furnas, Cemig e Fundo de Investimentos e Participações Antônio Energia -, está disposto a exigir ressarcimento de prejuízos, caso fique comprovado, no futuro, que a redução da distância de Jirau, a outra usina do Rio Madeira, causa prejuízos à operação de Santo Antônio.

A disposição de exigir ressarcimento por possíveis prejuízos na operação da usina foi manifestada pelo presidente da Santo Antônio Energia, Roberto Simões, ao falar do início da etapa de concretagem nas obras na última sexta-feira.

- Quando acontecer o problema, e se acontecer, vamos ter que sentar e analisar e ver se, realmente, alguma perda de eficiência que Santo Antônio vier a ter foi causada por Jirau. E então, ao mostrar que foi causada em função da mudança do local de Jirau, com certeza, a responsabilidade é da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) de fazer os devidos ressarcimentos a Santo Antônio - destacou Simões.

O consórcio questionou desde o início o fato de o grupo que venceu o leilão para construir Jirau ter alterado o projeto, reduzindo sua distância em relação à usina de Santo Antônio de 110 quilômetros para 100 quilômetros. O executivo disse não saber se ocorrerá algum problema com Santo Antônio nem qual será sua dimensão, mais deixou claro que o grupo continua com as preocupações:
- Na questão técnica, temos dúvidas se um novo local de Jirau trará impacto ou não. Achamos que pode vir a trazer. A Aneel disse que não, então, se tivermos problemas, ela vai arcar com as responsabilidades.

Independentemente dessas dúvidas, o grupo toca as obras de Santo Antônio em ritmo acelerado. Na última sextafeira, foi iniciada a fase de escavação para a concretagem numa área do lado direito do Rio Madeira, onde será construída a casa de força. O início da concretagem foi antecipado em oito meses em relação ao prazo previsto.

Na casa de força serão instaladas oito das 44 turbinas do tipo bulbo que formarão o conjunto da usina. A estimativa é que sejam lançados nesse local nada menos que 600 mil metros cúbicos de cimento. Paralelamente às obras da casa de força, do lado esquerdo do Rio Madeira o grupo corre acelerado na construção do futuro vertedouro.
'Povoar a Amazônia de hidrelétricas
Apesar de concordar que o país precisa gerar energia, o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Adalberto Val, questiona a intenção do governo de "povoar a Amazônia de hidrelétricas".

Considerando que as recomendações feitas antes do início das obras pelas entidades ambientalistas não foram levadas em consideração, Val diz que agora só resta "reduzir os impactos ambientais", que serão inexoráveis.

Simões explicou que o objetivo da empresa é conseguir antecipar a entrada em operação de Santo Antônio para dezembro de 2011 em vez de maio de 2012, justamente com a operação dessas oito primeiras turbinas. Com isso o grupo poderá vender a energia no mercado livre, uma vez que, a partir de maio de 2012, toda a energia já está contratada.

A usina de Santo Antônio, com 3.150 megawatts (MW) de capacidade, é uma das maiores hidrelétricas em construção no país, com a de Jirau, que terá 3.300MW. As duas são obras prioritárias do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal.

O custo total é de R$ 13,5 bilhões, dos quais R$ 900 milhões serão investidos em projetos socioambientais em Rondônia. O fato de ser uma usina chamada de fio d'água, com um reservatório pequeno e uma área inundada relativamente pequena em relação a sua potência, reduziu, diz Simões, os impactos ambientais e sociais da obra. Segundo o executivo, serão reassentadas cerca de mil famílias ribeirinhas, em casas com água, luz e esgoto. O primeiro reassentamento já foi feito, com 77 famílias. O processo inclui um trabalho social e de educação das pessoas.

O risco de extinção de algumas espécies, como o bagre, que gerou muita polêmica antes do início das obras, está descartado, segundo a empresa. Só que, antes mesmo da concretagem da primeira casa de força da usina, os impactos ambientais começaram a vir à tona.

Em dezembro, o consórcio foi multado em R$ 7,7 milhões pelo Ibama, devido à morte de 11 toneladas de peixes, no local onde estavam sendo construídas as bases da barragem.

Simões contesta os números do Ibama, alegando que foram apenas cinco toneladas de peixes:
- Ao mesmo tempo, foram salvas cerca de 100 toneladas de peixes.

Pela área da usina de Santo Antônio passava a ferrovia MadeiraMamoré, que funcionou de 1912 a 1972. O grupo pretende reconstruir um pequeno trecho da ferrovia, de cerca de sete quilômetros, entre Porto Velho a Santo Antônio, tornando o local um ponto turístico.
(*) A repórter viajou a convite do consórcio Santo Antônio Energia
Colaborou Liana Melo

Pedreiros, marceneiros e motoristas de escavadeiras: todas mulher
Grande volume de mão de obra feminina exigiu banheiros diferenciados

Ramona Ordoñez* Enviada especial

Dezenas de caminhões escavadeiras se revezam no trabalho duro de retirar toneladas de pedras das escavações onde vai ser construída a casa de força da usina hidrelétrica de Santo Antônio. Mas ao se chegar perto dessas escavadeiras, é possível perceber dentro da cabine de direção, uma mulher no comando do equipamento.

O presidente da Santo Antônio Energia, Roberto Simões, disse que trabalham na obra cerca de 5.200 pessoas, das quais 86% são moradores da região de Porto Velho - 12% são mulheres. O diretor do consórcio responsável pela construção da usina, Antônio Cardilli, conta que foi desenvolvido o projeto Acreditar, com o Senai, para oferecer treinamento e qualificação ao pessoal local.

Cardilli diz que dos 10 mil a 12 mil trabalhadores - recrutados no pico da obra -, 70% teriam de vir de outras regiões.

- Isso nos preocupou muito, pois havia na região cerca de 25 mil desempregados sem qualificação. Foi quando desenvolvemos o programa de qualificação com diversos cursos, o Acreditar - destacou Cardilli, lembrando agora 86% são de mão de obra local.

Foi preciso oferecer até absorventes para elas
E desse total, 684 trabalhadoras são mulheres. Cardilli conta que isso está provocando uma profunda mudança na cultura da empresa acostumada a lidar apenas com homens para esse tipo de trabalho pesado.

- Tivemos que colocar no canteiro banheiros femininos e oferecer absorventes. Agora, estamos tentando desenvolver um tipo de botas que mais se adapte a elas - explicou Cardilli.

Telma Maria Rodrigues, de 31 anos, é um exemplo do interesse das mulheres em trabalharem em serviços pesados na obra da usina. Ela hoje é operadora de escavadeira e divide com colegas homens as manobras do caminhão para retirar toneladas diárias de pedras. Telma conta que era motorista de caminhão de lixo em sua cidade natal, em Candeias do Jamari, quando decidiu fazer o curso.

- Depois que me inscrevi no curso, escolhi a escavadeira, que eu achava bonita. E passei então a ser operadora - conta com orgulho.

Telma afirmou que a nova profissão permitiu melhorar seu padrão de vida. Como motorista de caminhão de lixo, ganhava R$ 750 por mês. Agora, chega a ganhar R$ 1.700 mensais. Com isso, consegue dar uma vida melhor para seus três filhos.

As mulheres, segundo Cardilli, trabalham em diversas funções, de pedreiro, marceneiro, soldador a operador de empilhadeiras e esteira. Por sua vez, José Vagner, de 28 anos, também está começando uma nova profissão de operador de escavadeira.

Vagner, nascido e criado em Porto Velho, contou que antes trabalhava em um supermercado.

- Meu salário duplicou agora, é muito bom poder melhorar de vida sem precisar sair da nossa cidade - disse.

O projeto Acreditar tem inscritas 34 mil pessoas para seus diversos cursos. Outros 11 mil já foram qualificados.
(*) A repórter viajou a convite do consórcio Santo Antônio Energia
O Globo na Internet galeria Mais imagens da usina de Santo Antônio oglobo.com.br/economia

Governador teme desemprego em massa
Alternativa seria criar incentivo fiscal para atrair empresas para o estado

Ramona Ordoñez* e Liana Melo

Nem tudo são flores em uma obra de grande porte como a usina de Santo Antônio. Assim como seus números grandiosos, que vão da contratação de 12 mil trabalhadores no pico das obras à injeção de salários de R$ 12 milhões na economia de Porto Velho, os impactos gerados pela obra também são superlativos.

Com o fim das obras de Santo Antônio e Jirau, o governador do estado, Ivo Cassol calcula que o volume de desempregados na região poderá chegar a cem mil pessoas. Para amenizar tamanho impacto, ele defende que o governo federal e o Congresso adotem uma política de incentivos fiscais que estimule a instalação de novas indústrias na região.

As opções seriam indústrias dos setores de calçados e couro, já que o estado é grande exportador de couro.

- Para evitar um desemprego deste tamanho, precisamos criar as condições necessárias para agregar valor aos nossos produtos - diagnostica Cassol.

Ele defende ainda que o governo federal faça uma proposta ao Congresso para criar uma legislação de incentivos fiscais, com isenção de PIS e Cofins, para a estimular a instalação de indústrias no estado, que é grande exportador de matériasprimas, como couro.

Cassol chamou a atenção sobre a mudança na lei sobre cobrança de ICMS que incide sobre a energia. Hoje, o imposto é cobrado apenas nos locais de consumo e não de geração. Isso faz com que o estado, segundo ele, perca recursos depois que as usinas de Santo Antônio e Jirau entrarem em operação.

- Precisamos uma mudança na legislação do ICMS no código tributário para que Rondônia seja compensada após a construção das usinas.
- disse Cassol.

Polêmica entre Ibama e MPF de Rondônia
A construção da usina de Santo Antônio já gerou tanta polêmica, que o Ministério Público Federal em Rondônia chegou a ajuizar ação civil pública contra o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Furnas, pedindo a declaração de nulidade do processo de licenciamento ambiental e do Estudo de Impacto Ambiental da usina.

O presidente do Ibama, Roberto Messias, garante que tanto a licença prévia quanto a de instalação foram dadas com base no rigor da lei.

- A grande contribuição das licenças é que os projetos saem do Ibama melhores do que entraram - concluiu Messias, comentando que as dificuldades técnicas ambientais foram sanadas
Enviada especial a Porto Velho

O Globo, 19/07/2009, Economia, p. 27-28

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