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"Salvemos, com Gisele, o verde do Xingu"

Revista Ecológico Ed. 127 -http://revistaecologico.com.br/revista
Autor: ALVES, Heber Queiroz
02 de set de 2020

"Salvemos, com Gisele, o verde do Xingu"
O gestor de Projetos de Restauração Ecológica do Instituto Socioambiental (ISA), Heber Alves, explica como serão plantadas as mais de 210 mil futuras árvores doadas pelo aniversário de 40 anos da modelo Gisele Bündchen

Cristiana Andrade - redacao@revistaecologico.com.br
Páginas Verdes
Edição 127 - Publicado em: 02/09/2020

Dias antes de completar 40 anos, a modelo Gisele Bündchen anunciou que presentearia a Amazônia com o plantio de 40 mil árvores, por meio do Instituto Socioambiental (ISA), ao lançar a campanha Viva a Vida. "Há anos venho plantando árvores em diferentes projetos, pois sinto que essa é uma forma de retribuir a mãe Terra e, este ano, para celebrar meu aniversário, tinha planejado ir com minha família plantar na Amazônia. Mas como isso não é possível neste momento, então, pensei: 'Que tal criar um jeito para que qualquer um possa me ajudar a plantar árvores lá?'. Já falei para toda minha família e amigos: quem quiser me presentear pode me dar árvores. Desse jeito, nós todos podemos retribuir de alguma forma ao nosso planeta", disse Gisele, em sua conta pessoal do Instagram.

A ideia da modelo não saiu do nada. Além de ter participado, ao longo da vida, de várias iniciativas ambientais, em 2004, Gisele visitou uma aldeia indígena no Xingu e, após presenciar problemas como desmatamento e poluição dos rios, sentiu que precisava fazer algo para ajudar. Foi, então, que solicitou apoio à Grendene, empresa de calçados que na época tinha uma linha que levava seu nome, destinando parte do lucro da venda de seus chinelos para a causa socioambiental. A primeira iniciativa que recebeu o apoio, em 2006, foi Y Ikatu Xingu - Salve a Água Boa do Xingu na língua da etnia Kamaiurá, liderada pelo ISA.

Organização sem fins lucrativos, o ISA foi fundado em 1994, para propor soluções de forma integrada a questões sociais e ambientais com foco central na defesa de bens e direitos sociais, coletivos e difusos relativos ao meio ambiente, ao patrimônio cultural, aos direitos humanos e dos povos. Desde 2001, é uma organização da sociedade civil de interesse público (Oscip), com sede em São Paulo (SP) e subsedes em Brasília (DF), Manaus (AM), Boa Vista (RR), São Gabriel da Cachoeira (AM), Canarana (MT), Eldorado (SP) e Altamira (PA).

À época, o Y Ikatu Xingu envolveu pequenos, médios e grandes produtores rurais, agricultores familiares, indígenas, pesquisadores, organizações da sociedade civil e municípios da região das cabeceiras do Rio Xingu, no Mato Grosso, com a proposta de recuperar e conservar as nascentes e matas de beira de rio.

Um ano depois da criação do projeto, nasceu a Rede de Sementes do Xingu, proposta com o objetivo de restaurar os ecossistemas brasileiros gerando oportunidades sociais. Em 13 anos de trabalho, a iniciativa se consolidou como referência na produção e manejo de sementes nativas do Brasil, e acaba de vencer o Ashden Awards 2020, um dos principais prêmios para soluções climáticas no mundo.

Para conhecer um pouco mais sobre a Rede de Sementes do Xingu, a repercussão da campanha de Gisele Bündchen - que em 10 de agosto tinha nada menos que 251.049 doações de árvores - e entender como será feito o plantio de tantas mudas pela Amazônia, a Ecológico foi atrás de Heber Queiroz Alves, gestor do Projeto de Restauração Ecológica do ISA.

Qual é a ligação da Viva a Vida com o projeto Sementes do Xingu?

A Associação Rede de Sementes do Xingu vai fornecer todas as sementes doadas nesta campanha, que serão utilizadas para a realização dos plantios e beneficiará toda a sua rede de coletores.

Como será feito o plantio das árvores doadas?

Após a definição da quantidade das árvores, o ISA vai mobilizar parceiros locais (proprietários rurais, agricultores familiares e/ou indígenas) que tenham interesse em realizar atividades de restauração ecológica em suas propriedades ou terras, sobretudo em áreas de preservação permanente (APPs) nas beiras dos córregos e rios. Posteriormente, iremos avaliar as áreas dos interessados e faremos uma análise de viabilidade técnica para o restauro, considerando, entre outros aspectos, o tamanho da área degradada, o tipo de intervenção, os insumos e tecnologia necessários. Será firmado um acordo junto aos interessados e elaborados mapas das propriedades com as indicações das áreas degradadas. Depois será feito o plantio das árvores.

E incluindo o pós-plantio, considerando que são muitas mudas, não?

Planejar o plantio propriamente dito, considerando o cálculo da quantidade de sementes necessárias a serem usadas nas áreas que vão ser recuperadas junto às propriedades-parceiras e realizar as aquisições junto à Associação Rede de Sementes do Xingu.

E depois?

Depois das áreas plantadas, serão realizados manejo e monitoramento de cada uma; e caso necessário, faremos replantio ou enriquecimento das áreas. Após o primeiro manejo, visitaremos as localidades a cada seis meses por pelo menos três anos, a partir da data do plantio, para monitorar o desenvolvimento das áreas restauradas.

Qual o prazo para a implantação do projeto?

Para o projeto Viva a Vida, a expectativa é iniciar o plantio em 2021 no período das chuvas na região, entre outubro e dezembro. A campanha para doação ficou no ar até 20 de agosto - pelo site vivaavida.gift.

Qual técnica é adotada no plantio?

Nos plantios realizados pelo ISA, usamos a técnica da semeadura direta com a muvuca (um mix de sementes de espécies nativas e adubação verde). Isso propicia a germinação simultânea de plantas com comportamentos diferentes, criando uma diversidade de ambientes que atrai animais, que, por sua vez, trazem outras espécies vegetais. Com isso, há enriquecimento das florestas que serão formadas e contribuição para o equilíbrio do ecossistema.

Em média, são plantadas 90 espécies, entre nativas e adubação verde, totalizando aproximadamente 70 quilos de sementes por hectare.

Os locais que receberão as mudas de árvores são áreas degradadas de mata ciliar ou há outras áreas em vista?

As mudas serão plantadas em áreas de preservação permanente (APPs), nas beiras dos córregos ou nascentes das bacias dos rios Xingu e Araguaia. Somente o Rio Xingu conta com 22.500 nascentes e aproximadamente 150 mil hectares de matas de beira de rio estão degradados.

Como a Rede de Sementes do Xingu se consolidou nos últimos anos?

Um dos principais legados, em 2014, da campanha Y Ikatu Xingu foi a criação da Rede de Sementes do Xingu em 2007, que surgiu para suprir a demanda de sementes utilizadas na restauração ecológica com a técnica da semeadura direta com a muvuca de sementes.

A partir de então, a iniciativa ganhou corpo e se estruturou como um modelo concreto de negócio social, onde o trabalho em rede de comunidades indígenas, agricultores familiares e moradores urbanos auxiliou a estruturação da cadeia produtiva da semente, recurso valioso para restaurar a considerável quantidade de ecossistemas degradados na região.

Em 2014, a rede se constituiu como associação e hoje coordena uma extensa rede de 568 coletores em 19 municípios. Ao longo desses 13 anos, já produziu 245 toneladas de sementes de 200 espécies nativas, contribuindo para 6,6 mil hectares de áreas em processo de restauração na Amazônia e no Cerrado, gerando renda superior a R$ 4 milhões de reais para os coletores de sementes.

Ao longo dos anos da Campanha Y Ikatu Xingu, contamos com diversas fontes de apoiadores e diferentes personalidades, entre elas a Gisele Bündchen que já nos apoiou, em 2006, trazendo grande visibilidade à iniciativa.

Quais comunidades e extensão abrange a ARSX?

Os coletores são divididos em três diferentes atores, sendo: coletores urbanos, indígenas e da agricultura familiar. Ao todo, são 568 coletores, em sua maioria mulheres, distribuídos em 19 municípios, 14 assentamentos rurais, sete povos indígenas distribuídos em 16 aldeias, em quatro terras indígenas.

Como são escolhidas, coletadas e guardadas essas sementes?

Cada um dos atores da ASRX - coletores urbanos, indígenas e da agricultura familiar - determina e configura diferentes formas de se integrar/organizar e, portanto, coletar sementes. Em geral, os indígenas coletam as sementes em seus próprios territórios, em expedições específicas de coleta ou quando estão realizando outras atividades cotidianas (caça, pesca, roça etc).

Já os coletores urbanos coletam nos seus quintais, nas cidades em que vivem e em suas proximidades, como fazendas e estradas rurais. Por fim, os agricultores familiares coletam as sementes em seus próprios quintais e ou fragmentos de vegetação, além de realizar saídas de coletas em estradas rurais e áreas particulares.

Após coletar as sementes, os coletores fazem o beneficiamento (limpeza e armazenamento) nas próprias residências ou em casas de sementes de pré-armazenamento - espaços com condições mínimas para armazenar as sementes antes de serem enviadas às casas de sementes maiores da Rede. Já os plantios são implantados com a técnica da semeadura direta com a muvuca.

O envolvimento e a inclusão social de comunidades indígenas estão presentes na Rede desde o início deste desafio?

Sim, elas integram a Rede de Sementes do Xingu desde a sua criação, sempre atuando de forma muito comprometida e respeitando todos os combinados. Do outro lado, a ARSX faz todas as adaptações necessárias e respeita os calendários culturais e as atividades cotidianas da comunidade, sempre atuando de forma harmônica, inclusive junto com os outros grupos de coleta não indígenas. Todos os grupos coletores estão envolvidos nas diversas capacitações, eventos e intercâmbios promovidos pela associação, e com os indígenas não é diferente, sempre participam trazendo todo o seu conhecimento.

Os indígenas também participam de expedições para conhecer as áreas que estão sendo restauradas com as sementes que coletam, esses momentos propiciam um diálogo entre os povos indígenas e grandes proprietários rurais da região, o que até anos atrás dificilmente ocorreria. Toda a participação nesses espaços, inclusive, é demandada pelas populações indígenas.

Qual a importância de tantos atores em prol da restauração vegetal em áreas tão importantes do ponto de vista ambiental e sociocultural, como o Xingu?

As sementes e suas relações socioculturais, funções e características ecológicas unem agricultores familiares, produtores rurais, comunidades indígenas, pesquisadores, organizações governamentais e não governamentais, prefeituras, movimentos sociais, escolas e entidades da sociedade civil.

Nosso objetivo maior é disponibilizar sementes da flora regional em quantidade e com a qualidade que o mercado demanda. Formar uma plataforma de troca e comercialização de sementes. Gerar renda para agricultores familiares e comunidades indígenas. E servir como um canal de comunicação e intercâmbio entre coletores de sementes, viveiros, ONGs, proprietários rurais e demais interessados por onde circule o conhecimento que valorize a floresta e o cerrado de pé e preservados, além de seus usos culturais diversos. Desde 2019, a Rede de Sementes passou a oferecer serviços ligados à restauração de biomas como o Cerrado e a Floresta Amazônica.

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