O Globo, Rio, p. 46
31 de Out de 2010
Salvem nossas árvores
Carlos Lessa faz campanha em defesa da cobertura vegetal ameaçada por podas assassinas
Taís Mendes
Estudos mostram que a cada ano a cidade perde mais cobertura vegetal do que ganha em plantio, mas agora as árvores do Rio enfrentam outra ameaça: a erva-de-passarinho, planta parasita que suga a seiva da hospedeira até matá-la. Um cadastramento da vegetação urbana da cidade já identificou cerca de 600 mil espécimes, mas não revela quantos exemplares estão doentes. Angela Fonti, presidente da Comlurb, que há dois anos herdou da Fundação Parques e Jardins o encargo de fazer as podas, já percebeu, no entanto, que o número é grande e vem aumentando. O carioca também já notou e tem gritado nas ruas contra podas radicais que colocam em risco as árvores e mudam o ambiente da cidade.
Nos últimos meses, a Comlurb fez uma poda drástica em árvores de diferentes bairros, para conter a proliferação da praga. Recentemente, uma amendoeira na Urca foi cortada radicalmente por causa da ervade-passarinho. Moradores reclamaram e uma nota chegou a ser publicada na coluna do jornalista Ancelmo Gois no GLOBO, na quartafeira passada. Segundo a Comlurb, a árvore estava infestada pela praga.
A reação popular contra as podas tem sido grande também em outros bairros da cidade.
- Na minha rua, muitas árvores ficaram peladas. Até os ninhos de passarinho foram retirados - reclamou a professora Mônica Silva Sá, moradora da Rua Barão de Itambi, em Botafogo.
Podas fazem clima ficar mais quente
O economista Carlos Lessa, que faz parte da Comissão de Paisagismo da Subsecretaria de Patrimônio da prefeitura, está em campanha.
Ele percorreu uma distância de 300 metros da Rua Cosme Velho e fotografou 40 exemplares que estariam sendo vítimas do que chamou de "podas assassinas", a maioria ao redor do terminal de ônibus no final da via. Lessa enviou o relatório à comissão e defende um melhor treinamento dos funcionários da Comlurb e da Light responsáveis pelas podas. Ele sugere uma campanha:
- Tem que ser feito um grande apelo na cidade para salvar as árvores. A retirada delas sobe a temperatura da rua em até dois graus. Vou lançar a ideia de que cada pessoa cuide bem de uma árvore.
A Comlurb informou que a maioria das árvores do trecho da Rua Cosme Velho estava contaminada pela ervade-passarinho. Além disso, outras tiveram que ser removidas devido a obras da GeoRio para refazer uma encosta que desabou durante as chuvas de abril.
Angela Fonti defende as podas radicais:
- Estamos constatando que há muitas árvores doentes. Tentamos encontrar um remédio que não fosse a poda, que nesses casos tem que ser radical. Mas não existe inseticida que não faça mal ao meio ambiente.
A erva cresce em cima das árvores e se transformou numa praga em toda a cidade.
A presidente da Comlurb pediu paciência aos cariocas: - Na Comlurb há 13 engenheiros agrônomos, profissionais responsáveis. E a cidade tem mais de 600 mil espécimes.
Não é raro ver nas ruas moradores brigando com funcionários da Comlurb durante as podas. Na quarta-feira passada, enquanto a síndica de um prédio da Rua Belford Roxo, em Copacabana, comemorava o corte de galhos que invadiam as janelas do seu edifício, vizinhos da Rua Ministro Viveiros de Castro chamavam a polícia para conter a retirada de duas árvores que ocupavam a calçada em frente às obras de um hotel. A empreiteira e a empresa contratada para o serviço mostraram uma autorização da Secretaria municipal de Meio Ambiente, onde também constava o compromisso de plantio de 35 mudas em outras áreas da cidade. A medida compensatória, no entanto, não agradou.
- E eu, na minha rua, fico sem as duas árvores - lamentou Victor Klagsbrunn.
A Fundação Parques e Jardins, encarregada do plantio de mudas, argumenta que as medidas compensatórias vêm aumentando o reflorestamento urbano. Segundo o órgão, cerca de 20 mil mudas são plantadas por ano nas ruas, a maioria por medidas compensatórias.
Desse total, 30% não resistem a acidentes de trânsito, chuvas fortes e desabamentos de encostas, entre outros problemas.
De acordo com Angela Fonti e o secretário municipal de Conservação e Serviços Públicos, Carlos Roberto Osório, a prefeitura está prestes a concluir um levantamento sobre a cobertura arbórea da cidade. Uma das metas é, com o estudo, integrar a poda realizada pela Comlurb com o serviço feito pela Light, que visa apenas a livrar os fios dos galhos (o corte, quando é malfeito, acaba matando as árvores). Angela Fonti destaca que, a partir do estudo, a Fundação Parques e Jardins poderá elaborar um projeto de paisagismo e de troca de exemplares para toda a cidade.
- As amendoeiras, por exemplo, não poderão mais ser plantadas nas ruas. Elas causam problemas com suas folhas, que entopem a rede de drenagem. E são as árvores em maior número na cidade, com 70 mil exemplares já cadastrados.
Na avaliação de Osório, a assinatura de um convênio entre sua secretaria e a Light será um passo importante para a preservação das árvores. Ele também faz críticas às podas executadas pela empresa:
- Os critérios são inadequados, precisamos organizar isso. Com o convênio, vamos ampliar a capacidade de cuidar da vegetação. E, com a explosão imobiliária na cidade que vamos viver nos próximos anos, teremos uma capacidade maior de plantar novas árvores através da medidas compensatórias.
Corte malfeito mata espécimes
Ameaça à cobertura arbórea do Rio, a poda irregular de galhos por funcionários da Light aumenta o número de espécimes mortos na cidade. A prefeitura reconheceu o problema, embora não tivesse dados precisos a respeito, conforme O GLOBO noticiou no dia 26 de julho deste ano.
Há dois anos, a responsabilidade pela poda saiu da Fundação Parques e Jardins e passou para a Comlurb. A Light também faz o serviço, mas a falta de técnica ou de cuidado dos funcionários da concessionária de energia elétrica vinha provocando um desequilíbrio nas árvores, que, muitas vezes, acabavam tombando e morrendo.
Um exemplo do problema podia ser visto na Rua Marquês de Pombal, no Centro, onde uma árvore, podada apenas de um lado, para não ter os galhos enroscados na fiação, começou a tombar. Na reportagem, o engenheiro florestal Carlos Alberto Mesquita chamou a atenção para o fato de que a poda malfeita era um risco também para os pedestres, que poderiam ser atingidos na queda de uma árvore.
O Globo, 31/10/2010, Rio, p. 46
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