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Salvação polêmica para as florestas

O Globo, Ciência, p. 34
15 de Out de 2008

Salvação polêmica para as florestas
Grã-Bretanha propõe que países ricos financiem preservação das matas

O governo britânico divulgou ontem um plano para proteger as florestas tropicais em países emergentes, mas ele começou a provocar polêmica já no momento em que foi anunciado. De acordo com a proposta, elaborada pelo empresário sueco John Eliasch, assessor para florestas do primeiro-ministro britânico Gordon Brown, países ricos devem financiar a preservação das matas. Mas diversas ONGs criticaram o projeto, dizendo que ele pode fomentar a corrupção. Eliasch é o milionário que já criara polêmica com uma campanha de coleta de fundos para comprar parte da floresta amazônica brasileira.
O relatório segue a linha de que os chamados "serviços florestais" devem compensar financeiramente a manutenção da floresta de pé. Modelos incluídos no estudo estimam que os custos gerados pela perda de florestas crescerão a passos largos até 2100, quando chegarão a US$ 1 trilhão por ano, se medidas não forem tomadas a tempo.
Obtenção de recursos gera controvérsia
O documento pede um acordo internacional que tenha como objetivo reduzir à metade as emissões causadas pela perda de matas tropicais até 2020, o que geraria ganhos de US$ 3,7 trilhões em longo prazo pelas estimativas citadas pelo estudo.
O relatório propõe tornar o setor florestal neutro até 2030, o que significa que a perda de matas seria compensada com o plantio de novas florestas.
"A comunidade internacional deve prover o financiamento necessário para alcançar essas metas", diz o estudo.
Mas a maneira como esses recursos seriam obtidos é que gera polêmica. O relatório diz que "um elemento central" na estratégia seria incluir o setor de florestas no mercado de emissões de carbono, através do qual países e empresas compram o "direito de poluir", financiando projetos ambientais em outras áreas.
"A análise do relatório sugere que incluir o desmatamento e a degradação de florestas - além de outras ações de manejo sustentável, em um mercado de carbono bem desenhado, poderia prover o financiamento para reduzir as taxas de desmatamento em até 75% até 2030", diz o documento promovido por Eliasch, segundo o qual reduzir os custos do aquecimento global por meio do combate ao desmatamento é mais barato que por meio de outros setores.
Para críticos, projeto pode fomentar a corrupção
Várias organizações, porém, demonstraram ceticismo em relação à proposta, afirmando que a iniciativa poderia surtir efeito contrário, permitindo aos países ricos contornar suas próprias metas de redução de carbono.
O Greenpeace aponta o perigo de dar sinal verde às companhias para proteger as florestas no exterior como uma alternativa barata aos cortes rigorosos nos setores industrial e de energia necessários no Reino Unido, por exemplo.
Para o WWF, reduções nas emissões pela perda de floresta devem ser uma parte "crucial" de qualquer novo acordo internacional sobre as mudanças climáticas, mas defende que essas iniciativas "devem andar de mãos dadas, e não existir às custas de ações ambiciosas para reduzir as emissões industriais". Foi também levantada a possibilidade de falta de fiscalização, má governança e corrupção em algumas das nações detentoras de florestas.

O Globo, 15/10/2008, Ciência, p. 34

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