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A saída é pelo campo

Veja, Entrevista, p. 17, 20-21
Autor: ABREU, Kátia
22 de Abr de 2015

A saída é pelo campo
A ministra da Agricultura diz que o agronegócio está habituado a socorrer o país nas crises e que os problemas de infraestrutura que emperram o setor podem ser resolvidos em cinco anos

Entrevista: Kátia Abreu

Pedro Dias Leite

Grávida de dois meses do terceiro filho, Kátia Abreu era uma dona de casa quando ficou viúva, aos 25 anos, do primeiro marido, fazendeiro. Contra a vontade dos irmãos e tios, que a aconselharam a ir para a cidade abrir um "negócio de mulher", decidiu assumir a fazenda e arregaçar as mangas no campo. Quase trinta anos depois, transformou-se em uma das principais vozes do agronegócio.
Hoje ministra da Agricultura do governo do PT, partido do qual já foi opositora ferrenha, é tida como uma das mais próximas entre os colaboradores da presidente Dilma Rousseff.
Abaixo, a entrevista que concedeu a VEJA em seu gabinete.

A economia brasileira terá seu pior ano em mais de duas décadas. Como o agronegócio vai enfrentar essa tempestade?

Há um componente externo importante, que é a redução das importações em todo o mundo. Só na China, o crescimento das importações caiu de 9% ao ano para 3,5%. E isso afeta todos os emergentes. Mas fomos compensados pela questão do dólar, então há um equilíbrio. A crise que mais nos afetou, por incrível que pareça, foi a climática. Mas ela é pontual e temos mecanismos para superá-la.
Não será a primeira nem a última crise pela qual o Brasil passa, e o agronegócio está acostumado a ajudar o país nessas horas.

A senhora assumiu o Ministério da Agricultura há três meses. Quais foram os principais entraves que encontrou até agora?

A burocracia. Temos de acabar com isso. No dia 1o de janeiro, encontramos no ministério um amontoado de 4 936 processos à espera de uma conclusão, alguns estavam havia cinco anos na fila. Eram pedidos de autorização para tudo: abrir empresas, fechar, exportar, importar, lançar um produtonovo, um genérico, mudar um rótulo. Dei 120 dias ao secretário para zerar a pilha, com a ajuda de providências simples. Por exemplo: havia em torno de 1500 processos que precisavam do parecer de um químico, sendo que no ministério há apenas um químico contratado, que, aliás, estava em licença de saúde quando eu cheguei. O que fizemos? Convocamos nove químicos das superintendências estaduais para um mutirão. Outros 1200 processos tratavam de pedidos de mudança de endereço ou alteração de rótulo de produtos. E eu pergunto: o que o ministério tem a ver com isso? O.k., ele deve ser informado, mas é preciso fiscalizar o Brasil todo atrás disso? Não. Então, a regra vai mudar. A pessoa protocolou o pedido, está feito, não precisa esperar autorização. Protocola, muda o que quer mudar e vai trabalhar.

Esse não é um problema restrito ao seu ministério...

Não. Existe no Brasil, em vários níveis de governo, a "teoria do pequeno poder". É aquele funcionário que diz: "Vou olhar, tenho de ver, sou eu que decido se você vai continuar respirando ou não". Nós vamos acabar com isso. E, para minha surpresa, os funcionários públicos, que são sempre muito criticados, estão muito motivados. Assim como no setor privado, o que eles precisam é de qualificação e motivação.

A senhora fala em profissionalização, mas está sendo criticada por ter nomeado seu cabeleireiro para o ministério.

Isso é uma maldade muito grande. Célio Costa é uma das pessoas mais honestas que conheci na vida. Eu moro em Palmas há vinte anos e ele, em Gurupi. As duas cidades ficam distantes mais de 200 quilômetros. Como ele iria ser meu cabeleireiro?
Do pouquinho que você já ouviu falar de mim, acha que eu traria para cá meu cabeleireiro? Depois, o Ministério da Agricultura não tem vaga para cabeleireiro.

Então, por que ele foi contratado?

Eleocupa uma vaga no setor de cerimonial. Era seu sonho trabalhar no cerimonial, e ele me pediu uma oportunidade, queria sair de Gurupi. E um DAS2, está ganhando 4 000 reais, está começando. Quando ele for melhorando, vou subir seu salário. Se ele merecer, obviamente.

Além do fim da burocracia, o que mais pode ser feito para impulsionar o agronegócio?

Um ponto fundamental é adequar a infraestrutura ao setor. Esse foi um dos assuntos mais importantes na minha aproximação com a presidente. Ela entende que quem produz e exporta tem de opinar sobre onde as estradas e ferrovias vão passar. A Confederação Nacional da Agricultura, que eu presidi, ficou anos e anos expurgada da discussão, e deu no que deu: a safra avançou para o centro-norte do país, e a logística não foi atrás. Os produtores de Mato Grosso, de parte do Tocantins, do oeste da Bahia, do sul do Piauí e do Maranhão estão pagando um ônus altíssimo pela falta de logística.

A senhora vê soluções a curto prazo para esse problema?

Podemos resolver isso em cinco anos. Hoje, quem exporta soja de Lucas do Rio Verde (MT) tem de pegar uma rodovia até Miritituba (PA) e, de lá, uma hidrovia que vai até os portos do norte do Pará. Para chegar à China, o custo é de 233 reais por tonelada. Com uma ferrovia que saia de Rondonópolis (MT), passe por Lucas, vá de lá para Sinop (MT) e depois até Miritituba, esse valor cai para 203 reais por tonelada. Para enviar a Roterdã, o preço passa dos atuais 179 para 150 reais. Como não há dinheiro para isso, vamos fazer via concessão, aquela em que o empresário constrói, porque tem interesse em entrar. E o empresário visa a quê? Ao lucro. Segundo estudo da Macrologística, há viabilidade econômica para a construção dessa ferrovia de que falei e de ao menos outras quatro: de Barreiras a Ilhéus (BA), de Açailândia (MA) a Vila do Conde (PA), de Santo Ângelo a Passo Fundo (RS) e de Campinorte (GO) até Açu (RJ). Isso vai resultar no quê?
Em competitividade para o produtor. Vai aumentar o PIB, as exportações e o emprego consolidado.

Como é a sua relação com a ministra do Meio Ambiente, Isabella Teixeira?

Nós temos uma boa relação, e espero que ela seja sustentável. Até alguns anos atrás, o governo queria tratar de meio ambiente de cima para baixo - ou seja, exclusivamente na base de punições para os infratores. Mas isso não funciona. Para que a política ambiental seja bem-sucedida, é preciso haver diálogo com quem lida com as atividades que têm impacto sobre o meio ambiente. E, no campo, o diálogo tem de ser com quem? Com quem está trabalhando ou com quem está à toa? Não há como tratar de preservação ambiental sem conversar com o Ministério da Agricultura, com os produtores rurais, com as entidades de classe. É como o marido dizer que quer continuar casado, mas não quer conversar com a mulher. Não adianta falar com o padre, com a mãe dela. Como manter o casamento rural entre produção e meio ambiente sem falar com a noiva, que são os produtores? Então, na hora em que a ministra Izabella Teixeira entendeu isso, os problemas acabaram. Temos de dialogar, gente civilizada faz assim, ninguém é dono da verdade.

Seu partido, o PMDB, hoje dá mais trabalho à presidente Dilma do que a oposição.

Não diga isso. Tenho pensado muito sobre a situação de 2013 para cá, com olhos de quem gosta da Dilma, mas com isenção. Estamos passando por uma turbulência muito positiva. Pode parecer esquisito dizer isso, mas, vamos analisar: você acha que é ruim o Congresso ter protagonismo? Há anos a sociedade critica o Congresso por viver de joelhos para os governos, engolindo tudo o que eles mandam goela abaixo. O protagonismo do Congresso, neste primeiro momento, pode parecer rebeldia, mas é aprimoramento de democracia. O povo ter coragem de ir para a rua demandar suas questões, a Polícia Federal e o Ministério Público descobrindo corrupção pesada e o Judiciário prendendo gente, o que isso significa? É bom ou ruim? É claro que é bom.

Mas o governo está passando maus bocados com essa "turbulência positiva".

Claro. Até isso tudo virar rotina, mexe com as estruturas. Mas já é possível enxergar alguns resultados. Veja o que o Congresso está votando, e, assim, começando a entrar em sintonia com a sociedade: maioridade penal - eu sou a favor da redução -, diminuição de ministérios... Quem na rua não se interessa por essas questões? E tratar delas é obrigação do Congresso Nacional - os parlamentares estão lá representando as pessoas, afinal. Quero saber onde está o erro nisso. Mas as turbulências ocorrem. E temos de nos manter firmes, calmos, porque tudo isso vai se acomodando. E é irreversível.

A senhora veio de um partido conservador, o extinto PFL, e cresceu como representante ruralista. A presidente Dilma tem uma formação de esquerda e integrou um grupo da luta armada. Apesar disso, hoje são bastante próximas. O que as une?

Essa questão da luta armada foi no tempo da juventude da presidente, tenho o maior respeito por essa história. Ela achou que era justo lutar pela democracia, como tantos lutaram, cada um da sua forma, como o PMDB, meu partido hoje. Agora, em relação à Dilma experiente, gestora, mulher pragmática, trabalhadora, não vejo diferença entre nós.

Como se deu essa sua aproximação com a presidente Dilma?

A primeira vez que houve certa empatia entre nós foi na época em que ela teve um câncer, pré-candidata ainda, em 2009. Eu era uma combatente ferrenha do governo. Mas, quando ela adoeceu, eu me senti atingida demais, fiquei abatida, penalizada. Pensei comigo: meu Deus, essa mulher chegou até aqui! Isso agora é muito triste, assim não vale, quero derrotá-la nas urnas. Aí mandei uma carta para ela - eu sou muito religiosa, e a carta era assim também. Alguém perguntou: mas você sabe se a Dilma é religiosa? Eu falei, não importa, eu sou religiosa, eu sou a remetente, vou fazer uma carta com o que meu coração está pedindo. E ela gostou, comentou com várias pessoas, agradeceu-me com muita sinceridade e emoção. Fiquei emocionada, porque vi que ela estava agradecida de verdade. Foi um gesto sem nenhuma outra intenção - achei que meu candidato (o tucano José Serra) ganharia a eleição. Aí ficou aquela semente de empatia, coisa de mulher para mulher. Quando foi eleita, ela me chamou para uma conversa. Levei só dois assuntos, a questão do seguro agrícola e a da logística. Ela deu sequência a tudo.

Até ficar viúva, sua única experiência profissional havia sido como dona de uma escola para crianças excepcionais e, afora o fato de ser mulher de fazendeiro, não havia tido contato com o trabalho no campo. Como foi a conversão de dona de casa em líder do agronegócio?

Em 1987, eu era casada, tinha dois filhos - um de 4 anos, outro de 1 - e estava grávida de dois meses do terceiro quando meu marido morreu num acidente aéreo. Estávamos casados fazia seis anos, e durante todo esse tempo eu vivi como dona de casa, cuidando dos filhos. Meu marido era muito machista, não me deixava trabalhar. Quando aconteceu o acidente, minha família inteira - meus sete irmãos, todos homens, e meus cinco tios - falou para eu vender a fazenda em que morávamos, em Gurupi (cidade no Tocantins, mas que na época pertencia ao Estado de Goiás), mudar para Goiânia e abrir um "negócio de mulher". Decidi não fazer nada disso. Peguei meus meninos e fui para a fazenda. Seis anos depois, eu já era presidente do sindicato rural da então segunda maior cidade do estado. Todo mundo me respeitava como produtora rural. Tenho uma fé inabalável, sempre tive. Senão não teria chegado até aqui. Tinha tudo para dar errado. Mulher, de um estado pequeno, viúva, filhos pequenos. Era um álbum de família ruim. Sou uma sobrevivente.

E agora, quase três décadas depois, a senhora se casou de novo.

Vinte e sete anos depois. Sabe que eu estou gostando, achando ótimo? Ter marido em casa é tão estranho. Mas é maravilhoso.

Veja, 22/04/2015, Entrevista, p. 17, 20-21

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