O Globo, Opinião, p. 16
08 de Jun de 2017
Saída do Acordo de Paris revela contradições de Trump
Um dos argumentos mais repetidos por Donald Trump na campanha eleitoral era que ele levaria para o contaminado ambiente político de Washington a expertise de um competente megaempresário do setor imobiliário. Após a vitória, ele até chegou a recepcionar líderes executivos de importantes corporações em sua imponente Trump Tower, simbolizando o início de uma nova aliança entre o Poder Executivo e a chamada América corporativa. Também convocou para sua equipe vários executivos, inclusive o ex-diretor executivo da Exxon Rex Tillerson para atuar no importante papel de secretário de Estado.
E, no entanto, Trump ignorou solenemente a posição da ampla maioria de executivos das principais empresas do país, favoráveis ao acordo do clima, do qual o presidente americano decidiu se retirar, alinhando-se à linha isolacionista de seu governo, representada pelo conselheiro estratégico Steve Bannon e o diretor da Agência de Proteção Ambiental (EPA, em inglês), Scott Pruitt.
A decepção destes executivos não é exagerada. O chamado Acordo de Paris impõe a seus signatários uma revolução tecnológica na direção de energia limpa, uma iniciativa que os EUA têm tudo para liderar e se beneficiar. Ao rejeitar o pacto, Trump cedeu esse espaço estratégico à China.
David Crane, ex-dirigente da empresa de energia NRG e atual diretor operacional do grupo financeiro Pegasus, especializado em investimentos em setores sustentáveis, afirmou ao "Washington Post", sem esconder o assombro: "É totalmente contraditório. O Acordo de Paris foi o primeiro a se tornar viável, onde todos falamos a mesma voz, e ele (Trump) foi para a direção inversa." Crane não está sozinho. Outras vozes, entre executivos e especialistas em clima, apontaram para a profunda contradição da decisão da Casa Branca, ressaltando que o apoio do setor empresarial ao Acordo de Paris é algo sem precedentes.
É chocante o solene desprezo de Trump aos alertas de especialistas em clima quanto aos potenciais efeitos catastróficos da elevação da temperatura do planeta. Por outro lado, não surpreende, considerando-se as manifestações públicas de sua descrença no aquecimento global, e a obstinada defesa de setores econômicos produtores de elevadas emissões de CO2, como a indústria de carvão. O que chamou a atenção foi o fato de o presidente ter ignorado as inúmeras manifestações de líderes empresariais, inclusive uma carta assinada por 30 titãs do mundo corporativo, defendendo o Acordo de Paris.
Estes executivos não são movidos apenas por uma defesa moral da sustentabilidade, mas sobretudo pela percepção de que a saída do Acordo de Paris na atual conjuntura vai afetar os negócios, levando à perda de competitividade e de empregos. Muito mais empregos do que aqueles que Trump afirma proteger.
O Globo, 08/06/2017, Opinião, p. 16
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