OESP, Agrícola, p. 4-5
28 de Set de 2011
Sai o pasto degradado, entra lavoura
Extensas áreas que comportavam no máximo uma cabeça de gado por hectare dão lugar a atividades mais rentáveis
Tânia Rabello
Este ano a área de soja em Mato Grosso, principal produtor da leguminosa, deve crescer 200 mil hectares em relação à safra passada. Tudo em cima de pastagens degradadas. No noroeste de São Paulo, em Araçatuba, os canaviais avançaram, de cinco anos para cá, exclusivamente em áreas de pasto - a região, conhecida como Terra do Boi, vai deixando para trás o epíteto, dada a quantidade de usinas de açúcar e álcool que por ali se instalaram - pelo menos 15.
Em Uberaba, no Triângulo Mineiro, as pastagens que têm resistido ao avanço da cana e, mais recentemente, do eucalipto, são as ocupadas por criações de bovinos de alta genética. O restante do pasto, boa parte degradada, está sendo rapidamente "convertido", jargão que no campo quer dizer "ocupado por lavoura".
Restrições. O pasto tem se firmado como "a nova fronteira" agrícola num cenário em que se acentuam as restrições ao desmatamento e também em lugares nos quais, na verdade, já quase não há mata nativa a ser derrubada. Além disso, dependendo da região e da distância em relação aos polos produtores, desmatar já não é economicamente viável. Área aberta para a expansão é o que não falta, aliás. Segundo estudo do professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), Gerd Sparovek, o País dispõe de 60 milhões de hectares de pastagens com elevada ou média aptidão agrícola, dos quais boa parte cedo ou tarde será convertida em lavoura para atender à crescente demanda mundial por alimentos.
Cana-de-açúcar. A conversão ocorre de maneira acentuada em algumas regiões, apontam estudos do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), baseados em levantamentos do IBGE, Inpe, SOS Mata Atlântica, Probio e Lapig. No Sudeste, por exemplo, entre 2005 e 2008, o pasto foi o grande doador de terras para a expansão da cana-de-açúcar. De 1,7 milhão de hectares sobre os quais a cana avançou - a área total plantada saltou de 3,6 milhões de hectares para 5,3 milhões de hectares no período, segundo o IBGE -, nada menos que 900 mil hectares foram cedidos pelas pastagens - ante cerca de 600 mil hectares pelas lavouras anuais e apenas 5 mil hectares pelas áreas de mata nativa.
O município de Andradina, na região de Araçatuba (SP), com cinco usinas de açúcar e álcool e 140 mil hectares de cana - "Sendo 98% dos canaviais instalados em pastagens degradadas", afirma o diretor da Associação de Fornecedores de Cana da Alta Noroeste (Afocan), Nilson de Souza Ochiuto -, deve expandir suas lavouras de cana em 15 mil hectares em 2012. "Tudo sobre pastos", afirma. "A pecuária está se intensificando, indo para confinamentos", explica Ochiuto, que arrenda 1.400 hectares no município para plantar cana. "Os pastos por aqui comportam em média apenas 1 animal por hectare, quando o ideal seria 4 ou 5 animais/hectare. A cana dá mais lucro", diz Ochiuto.
Em Araçatuba, na mesma região, o presidente da Associação de Plantadores de Cana e produtor rural Fernando Girardi concorda com Ochiuto. "Na última safra plantei 500 hectares e na próxima aumentarei a área de cana em mais 150 hectares", diz Girardi. "Obrigatoriamente em área de pasto."
Melhorias. Junto com a cana, defende Girardi, vêm melhorias do solo, sociais e ambientais. "A cana exige mais adubação e calagem, além de plantio em curvas de nível", diz o produtor. "Além disso, o setor canavieiro segue uma rígida legislação ambiental e nenhum projeto é aprovado se a lei não for seguida." Assim, na opinião de Girardi, a região de Araçatuba só ganhou com a cana. "Onde só existia pasto degradado passou a existir uma terra rica, rentável e bem cuidada."
Nos cerrados do Centro-Oeste, embora a compilação de dados do Icone compreenda o período de 2005 a 2008 - "Quando a expansão da soja ainda não tinha sido tão acentuada", explica o diretor geral do instituto, André Meloni Nassar, as pastagens já podem ser consideradas as grandes doadoras de terras para a expansão das lavouras de grãos.
Segundo o presidente da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Glauber Silveira, "nosso Estado dispõe de 5 milhões a 6 milhões de hectares de terras aptas à agricultura ocupadas com pasto". Na safra passada, Silveira diz que 100 mil hectares de pasto já foram convertidos, sobretudo no oeste. "Nesta safra devemos incorporar 200 mil hectares de pasto só para a soja", calcula Silveira, acrescentando que este número poderia ser maior, pois "há muitos pecuaristas que resistem em arrendar área e não dispõem de capital necessário para investir em lavouras de grãos". Para Silveira, se o mercado continuar bom para os grãos, "a incorporação de pastagens continuará a ser a grande tendência".
Integração. Em Canarana, nordeste de Mato Grosso, região tradicional na pecuária, o vice-presidente do Sindicato Rural, Arlindo Cancian, cultivou, na última safra, 450 hectares de soja. Na próxima, serão 600 hectares, cuja diferença avançará em pastos degradados.
Além de agricultor, Cancian é pecuarista e aproveita para recuperar pastos com lavoura, no sistema de integração lavoura-pecuária. "Produzo soja, milho, sorgo e milheto e tenho 700 cabeças de gado de corte", explica. "Quando sai a lavoura, entra o gado nos restos de cultura. Assim vou recuperando a pastagem", explica.
Do total de 1,87 milhão de hectares do município, 450 mil hectares são de pasto, a maior parte precisando de reforma, diz o produtor. "E é nessas áreas que o plantio de grãos, sobretudo o de soja, crescerá por aqui, de 128 mil hectares na safra passada para 150 mil hectares na próxima safra", continua Cancian, acrescentando que a recuperação de pastagens tem ocorrido desta forma, com lavoura em cima. "Acho importante recuperar pastos", diz. "Assim, é possível colocar mais animais por hectare e ter renda maior também na pecuária."
Na fronteira, desmatamento ainda é a lógica
Enquanto no Sudeste, Sul e Centro-Oeste a lógica de expansão de lavouras se modifica, com a desaceleração do desmatamento e o avanço de atividades mais rentáveis sobre pasto degradado, no Norte - onde está a maior parte do Bioma Amazônia - e nos cerrados nordestinos, na região conhecida como Mapito (Maranhão, Piauí e Tocantins), além do oeste baiano, a remoção de vegetação nativa ainda impera. "É bom lembrar, porém, o benefício econômico que vem por trás disso", ressalta André Meloni Nassar, do Icone. De 2005 para cá, estudo do instituto aponta que, no Norte do País, 93% da floresta desmatada foi ocupada por pasto e 7% por lavouras anuais. No caso do Mapito e Bahia, 64% das áreas desmatadas foram ocupadas por lavouras anuais e 36% receberam pastagem. / T.R.
Só continuo na pecuária por amor"
O produtor Luís Felipe de Oliveira arrendou parte da fazenda para a cana-de-açúcar. Mas não teve coragem de se desfazer de todo o rebanho
A fazenda do produtor rural Luís Felipe Leite Sabino de Oliveira, de Uberaba (MG), resume bem a transformação que vem ocorrendo na paisagem do Triângulo Mineiro. Pecuarista por tradição, está sendo obrigado a vender parte do rebanho de cria para arrendar 800 hectares de sua fazenda, uma das maiores do município, para a cana-de-açúcar. E já tem também um plantio-teste de 35 hectares de eucalipto e 50hectares de seringueiras, que iniciarão a produção daqui a três anos.
"A cana chegou forte por aqui, ocupando os pastos e, se os usineiros não se cuidarem, o eucalipto vai engolir os canaviais", diz Oliveira, lembrando da chegada de empresas de papel e celulose à região.
Dívidas. Sobre a situação de sua fazenda, foi com dor no coração que se desfez de 800 matrizes para colocar cana no lugar. "Vamos continuar com 400 fêmeas porque nós amamos a pecuária.
Cada bezerro que nasce na nossa mão é quase como se fosse um filho", continua."Masserá a única parte da fazenda que nos dará prejuízo", diz Oliveira, acrescentando,porém,que as dívidas acumuladas com a pecuária há cinco anos, além da necessidade de reformar as pastagens - ao custo de R$1 mil por hectare - o obrigaram a tomar a decisão de diversificar as atividades.
E prova, na ponta do lápis, seus argumentos: "Se eu tivesse dereformar300hectaresdepasto, gastaria R$ 300 mil num ano", explica. "Numa situação de pasto não degradado, é possívelcolocar400vacasnestaárea, que produzirão cerca de 330 bezerros por ano, entre machos e fêmeas", continua. "Se eu vender cada bezerro por R$ 600, faturo R$ 198 mil, brutos, tirando se daí cerca de R$70 mil de despesas com o gado e de pessoal - ou seja, me sobrariam R$118 mil de lucro líquido num ano, sobre os 300 hectares já reformados, sem contar a despesa anterior, de reformar o pasto."
Ao arrendar para a cana, a usina vai pagar a Oliveira R$600por hectare, ou seja, R$ 180 mil/ano pelos 300 hectares. "É um dinheiro que ganho livre: não morreu nenhuma vaca, não tive de reformar o pasto e ainda durmo tranquilo no travesseiro porque terei dinheiro suficiente para manter a minha família e outras famílias que dependem de mim". / T.R.
OESP, 28/09/2011, Agrícola, p. 4-5
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