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A saga de uma tribo contra a extinção

O Globo, País, p. 10
17 de Jul de 2015

A saga de uma tribo contra a extinção

CRISTINA TARDÁGUILA
cris.tardaguila@oglobo.com.br

"Os Tchucarramães se apoderaram das mulheres ( dos Krain- a- Kore) e transformaram os índios gigantes em escravos. Essa é a história de uma tribo que chegou bem perto do extermínio"
Ascânio Seleme
Diretor de Redação do GLOBO

No dia 9 de fevereiro de 1973, uma expedição da Fundação Nacional do Índio (Funai) composta pelos sertanistas Claudio e Orlando Villas-Bôas, pelo repórter Etevaldo Dias e pelo fotógrafo Pedro Martinelli encontraram, no interior do Mato Grosso, a tribo indígena dos Krain-a-Kore. Do pequeno barco usado para chegar à aldeia, Martinelli fez a 1 ª foto de um índio daquele grupo. Era Sôkrid, uma figura forte e nua, prestes a sentir na pele os efeitos da construção de uma rodovia.
Situada nas proximidades da Serra do Cachimbó, numa região de "vegetação alta, largos rios e peixes de escamas, a aldeia era um empecilho à estrada Cuiabá-Santarém. Precisava ser pacificada e transladada a outro ponto do país. Era dever da Funai achar a solução - e do GLOBO contar toda essa história.
Vinte e três anos depois do primeiro contato, em janeiro de 1996, o jornal publicou a série "A saga dos índios gigantes" - forma pela qual ficaram conhecidos os índios que tinham até 2,07 metros de altura. Naquele ano, Martinelli reencontrou Sôkrid e registrou, em foto, o inegável impacto do homem branco sobre a cultura dos Krain-a-Kore. Sôkrid já tapava o corpo com uma bermuda Adidas e uma camiseta com inscrições em inglês. Como seus conterrâneos, tinha saudades da aldeia.
Por conta da rodovia, sua tribo havia sido transladada ao Parque Nacional do Xingu. O processo, no entanto, tinha sido traumático. Dos 220 índios que conheceram os irmãos Villas-Bôas, só 79 seguiam vivos depois do primeiro contato com os brancos. A gripe exterminara dezenas.
No Xingu, os Krain-a-Kore deixaram de caçar, foram levados a pescar com anzol, abandonaram a prática das corridas de toras e passaram a conviver com rivais históricos.
- A ida para o Xingu foi uma tentativa de salvá-los, mas os Krain-a-Kore foram subjugados pelos Tchucarramães - lembra o jornalista e diretor de Redação do GLOBO, Ascânio Seleme, que assinou os textos da série vencedora do Prêmio Esso de Ciência de 1996. - Os Tchucarramães se apoderaram das mulheres e transformaram os índios gigantes em escravos. Essa é a história de uma tribo que chegou bem perto do extermínio.
DO CÉU, UM NOVO PARAÍSO
Diante da cruel realidade, a Funai resolveu devolver os Krain-a-Kore à sua região. O local, no entanto, havia desaparecido. Máquinas tinham aberto passagem na selva, e os garimpeiros exploravam ouro e diamante. A antiga aldeia se transformara no município de Matupá.
A fundação então colocou líderes dos índios gigantes do Mato Grosso num avião e sobrevoou a Serra do Cachimbo. Lá do alto, identificaram um terreno parecido com seu "paraíso" inicial e, com o apoio do Ministério da Justiça, conseguiram delimitar um território de 488 mil hectares às margens do Rio Iriri. Para documentar esse "retorno" dos Krain-a-Kore à sua região, o fotógrafo Pedro Martinelli foi novamente escalado. As imagens que ele fez em 1996 traduzem quase 30 anos da história de sobrevivência dos Krain-a-Kore, um drama que o país talvez já tenha esquecido, mas que está disponível para consulta no Acervo do GLOBO.

O Globo, 17/07/2015, País, p. 10

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