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Safra brasileira vai dobrar em dez anos, prevê Embrapa

O Globo, Economia, p. 36
22 de Jun de 2008

Safra brasileira vai dobrar em dez anos, prevê Embrapa
Produção alcançará 300 milhões de toneladas em 2018. Desafios são investimento em tecnologia e infra-estrutura

Gustavo Paul e Eliane Oliveira

Ao anunciar na semana passada que pretende aumentar os incentivos à agricultura, o governo mirou tanto no médio quanto no longo prazos.
Se o objetivo mais imediato é ajudar no combate à inflação, o alvo para os próximos anos é dobrar a produção agrícola, que este ano deverá ser de 143 milhões de toneladas de grãos, um recorde. Se fizer o dever de casa, investindo em tecnologia e infra-estrutura, o Brasil poderá levar a safra anual para 300 milhões de toneladas no biênio 2017/2018.
A previsão é do diretor-executivo da Embrapa, José Geraldo Eugênio de França, para quem o volume é essencial para atender ao crescimento da demanda mundial.
Sobram 90 milhões de hectares de terra no país
Para o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, trata-se de uma meta plausível. Até 2007, antes da crise mundial de alimentos e o aumento dos preços, o ministério previa aumento mais modesto da safra. A produção chegaria a 164 milhões de toneladas em 2018.
- Temos exemplos que mostram que é possível aumentar nossa produção. A Índia, que tem 40% da área agricultável brasileira, tem desertos, e o Himalaia, produz bem mais do que nós - disse França.
O ministro da Agricultura reforça a tese.
- Dá para chegar a 280 milhões de toneladas de grãos em dez anos, pois estimamos um salto no crescimento da safra da média anual de 4,8% dos últimos 15 anos para 6% a partir do ano que vem - disse - A estrutura agrícola reage com velocidade impressionante ao estímulo dos preços.
Apesar da competitividade agrícola, o Brasil está bem atrás na produção de grãos em relação a outros grandes produtores. Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mostram que os indianos colhem atualmente 237,4 milhões de toneladas de grãos em uma área de 127 milhões de hectares. A China produz 440 milhões de toneladas em 103 milhões de hectares, e os EUA, 493 milhões de toneladas em 92 milhões de hectares.
A diferença é que, enquanto indianos e chineses colhem bastante grãos para seu próprio consumo, o Brasil produz para si e ainda exporta. Para aumentar este volume, será preciso incrementar a produtividade e evitar pressões ecológicas.
Talvez a principal tarefa, segundo o analista Leonardo Sologuren, da consultoria Céleres, seja aumentar a área plantada. O país tem ainda cerca de 90 milhões de hectares a serem explorados na agricultura, sem ser necessário invadir a Floresta Amazônica ou a Mata Atlântica.
Outro entrave a ser vencido é garantir o escoamento da safra.
O superintendente técnico da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Ricardo Cotta, considera possível uma safra de 300 milhões de toneladas em dez anos, mas não nas condições atuais.
- Na realidade em que vivemos hoje, dez milhões de toneladas seria o caos. Não temos portos para escoar a produção.
Cotta lembrou também que, além da falta de infra-estrutura, os produtores enfrentam queda da rentabilidade, por causa dos aumentos dos preços dos fertilizantes e do real valorizado.
- Outro desafio é enfatizar as negociações agrícolas internacionais, fazer acordos para que possamos exportar mais aos países desenvolvidos - enfatizou o técnico da CNA.

Apostas na pesquisa Produtividade agrária dobra

Boa parte do desenvolvimento da agricultura brasileira nos últimos anos se deve, sobretudo, ao avanço da tecnologia no campo e continuará sendo assim. Isso é o que faz o Brasil ter a agricultura mais competitiva do mundo, a despeito dos subsídios dos países desenvolvidos, que superam US$ 350 bilhões por ano. Prova disso são os royalties recebidos pela Embrapa, que aumentaram de R$ 13,5 milhões em 2005 para estimados R$ 35 milhões este ano, de acordo com estudo feito pelo professor Roberto Castelo Branco, consultor da Embrapa.
Segundo ele, o rendimento das principais culturas dobrou nos últimos anos, passando da média de 1,5 tonelada por hectare para 2,8 toneladas por hectare:
- Isso é pesquisa e adaptação ao clima e ao solo brasileiros.
A tecnologia de ponta da Embrapa foca, por exemplo, em técnicas de fixação de nitrogênio nos vegetais. Cereais, incluindo o milho, feijão e o sorgo, são altamente dependentes do nitrogênio, que compõe 70% dos fertilizantes importados. Segundo Eugênio França, diretor-executivo da Embrapa, o crescimento do agronegócio brasileiro está atrelado a este fator, que o torna vulnerável às oscilações de mercado. Em maio, a Embrapa lançou um inoculante voltado à produção de cana.
- Só na cana vamos economizar 140 mil toneladas de nitrogênio por ano - diz França. (Gustavo Paul e Eliane Oliveira)

O Globo, 22/06/2008, Economia, p. 36

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