JT, Editoriais, p. A3
29 de Jan de 2004
Sabesp está perdendo sua 'aposta'
Apesar das advertências feitas nos últimos meses por técnicos respeitados - de que a demora na adoção da medida agravaria ainda mais a situação -, só agora a Sabesp admite que poderá implantar o rodízio no abastecimento de água para 6,5 milhões dos 9 milhões de pessoas da capital e municípios da Grande São Paulo servidas pelo Sistema Cantareira. E, mesmo assim, fez a ressalva de que ainda espera chuvas que poderão evitar tal providência.
Com um otimismo que a situação não permitiria, o secretário estadual de Recursos Hídricos, Mauro Arce, teima em ter "uma esperança baseada em 62 anos de estatística de que fevereiro é o mês mais chuvoso do ano". Mas, como a confiança na estatística - que permite conhecer bem o passado, mas não fazer projeções seguras sobre o futuro - pode se frustrar, ele, prudentemente, não afasta a possibilidade do racionamento.
Talvez tenha sido essa fé excessiva na estatística que levou a Sabesp a fazer o que o presidente do Instituto de Engenharia (IE), Eduardo Lafaia, chama de "aposta lógica", esperando que as chuvas de dezembro a março recuperassem os mananciais. "Mas perdeu", acrescenta, pois "as precipitações estão abaixo das médias históricas". De fato, como lembra Lafaia, nesta época do ano o normal seria que o nível do Sistema Cantareira estivesse em mais de 30%, para que o reservatório chegasse a março com armazenamento suficiente para enfrentar o inverno. Mas hoje está em apenas 5%. Por isso, conclui, se o rodízio não for implantado já, o racionamento no período de estiagem terá de ser muito mais drástico.
Em linguagem popular, o governo confiou demais na boa vontade de São Pedro, em vez de, como recomendavam vários técnicos, adotar o rodízio quando o nível do Cantareira chegou a 15%. E são cada vez mais fortes os indícios de que agiu assim por razões políticas. Como lembra o diretor do Departamento de Meio Ambiente e Saneamento do IE, José Eduardo Cavalcanti, "o racionamento provoca desgaste político. Por isso, a Sabesp preferiu olhar para o céu, esperando por chuvas". Observe-se que são técnicos como Cavalcanti e não apenas políticos que vêem motivações eleitorais no comportamento da Sabesp.
Se isto é verdade, ou seja, se o governo se guiou mais pela lógica da política do que pela da estatística em sua "aposta", poderá pagar um preço alto por esse erro. A demora na adoção do racionamento fará com que ele se torne mais rígido e antipático, e justamente no auge da campanha eleitoral.
JT, 29/01/2004, Editoriais, p. A3
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.